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HÁ VIDA ALÉM DO JOGO

Reportagem de: Carolina Vitorino, Danielle Stephanie, Edmilson Gomes e Evelyn de Souza

Edmilsonsilvagomes · 2026-06-27 01:14 · 0 claps · 16.8 min read
#bet #tigrinho #reportagem #longform #hipermidia
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HÁ VIDA ALÉM DO JOGO

No trem, durante a viagem, homem aposta em jogos online. Vídeo por: Evelyn de Souza

No trem, durante a viagem, homem aposta em jogos online. Vídeo por: Evelyn de Souza

Reportagem de: Carolina Vitorino, Danielle Stephanie, Edmilson Gomes e Evelyn de Souza

De repente, seus olhos verdes, fortificados pela luz do sol que irradia, ficaram tão cintilantes e, de tão cintilantes, escorreram. Uma atrás da outra. Lágrimas de tristeza e lembranças do seu filho, que precisou se mudar devido às dívidas do jogo.

Os jogos de apostas online cresceram significativamente no Brasil. Só no ano passado, 25,2 milhões de brasileiros realizaram apostas online, o que movimentou cerca de R$37 bilhões à economia. O perfil do público é variado, mas os apostadores são predominantemente masculinos. Segundo levantamento da BBC, essa quantidade elevada de jogadores colocou o Brasil na quinta posição entre os maiores do mercado global de apostas (confira o ranking completo aqui).

Apesar dos ganhos à macroeconomia — quando observamos sob ótica do liberalismo — , esse avanço das Bets tem ocasionado perdas significativas aos lares brasileiros. Com a facilidade de apostar em um dispositivo conectado à internet, diversas pessoas estão desenvolvendo Ludopatia, que é a compulsão por apostar. Segundo o Ministério da Saúde, o crescimento na busca por serviços de saúde mental, por problemas relacionados a vício em jogos on-line aumentou em 140%, no Sistema Único de Saúde (SUS). Já o Ministério da Fazenda, divulgou que houve mais de 500 mil pessoas solicitando a exclusão permanente no cadastro de bets.

A perda monetária também já se tornou uma realidade. O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou, em janeiro de 2025, cerca de R$3,7 bilhões, em transações via pix, feitas com o dinheiro do Bolsa Família. O programa visa fazer a transferência de renda e garantir condições mínimas para famílias que vivem em situação de vulnerabilidade social. Quando esse dinheiro ganha um novo destino, e não segue o fluxo esperado, há falta em alguma outra parte do orçamento doméstico.

Para além da manobra orçamentária na verba do benefício social, o vício em apostas tem levado os brasileiros a alternativas ainda mais severas para se manter na jogatina. Crédito em bancos, venda de bens, dinheiro de família e amigos, empréstimo com agiotas. Essas são algumas alternativas bastantes comuns — e, às vezes, todas elas são utilizadas pela pessoa que joga. Isso as levando a um endividamento “bola-de-neve” e expõe, não só elas, mas também as pessoas que convivem, aos perigos de pegar dinheiro emprestado e ao estresse relacionado às questões que vêm junto com as apostas.

Esse foi o Caso de Lua Pinheiro (nome fictício, já que preferiu não se expor). A mulher é mãe de um homem de 28 anos, que ficou viciado em jogos de apostas online. Há 2 anos, o jovem teve que se mudar de estado para fugir das ameaças de agiotas, que constantemente iam em seu portão para cobrar dívidas.

**A pedido da entrevistada, os áudios que envolvem a sua voz foram modificados digitalmente.***

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Lua conta que precisou abrir mão de um dinheiro que tinha guardado, para que nada de ruim acontecesse com seu filho. Além dela, outras pessoas próximas também ofereceram ajuda monetária. “Eu tive que gastar todas as minhas economias que tipo assim, era para eu hoje não precisar trabalhar muito e com isso meu dinheiro foi todo… o pai dele também. Fora outras pessoas da família também que ajudaram, tia, prima”, expõe.

A família de Fabrício (nome fictício, pois também preferiu manter o anonimato) sofreu uma situação parecida, ao se deparar com um ente querido viciado em apostas. Seu irmão, Emerson, é 2º Sargento da Marinha do Brasil e ganha entre 8 a 10 mil reais por mês. Aos poucos, os itens de casa ficaram escassos, a mensalidade do colégio das filhas foi atrasando, algumas contas deixaram de ser pagas e ninguém sabia para onde estava indo seu salário das Forças Armadas. Foi no momento de montar o enxoval de sua primeira filha — que hoje tem 7 anos de idade — que a esposa pressionou e descobriu o desvio do salário às casas de apostas. Assim, ela abriu a situação para o restante da família, na tentativa de que pudessem o ajudar a se recuperar.

Então, Fabrício e sua outra irmã fizeram um empréstimo de R$20.000, para que pudessem ajudar Emerson a quitar algumas dívidas que tinha com agiotas e amigos. A rede de apoio também bancou um tratamento clínico, para que sua vida pudesse voltar ao normal, mas, infelizmente, o tratamento não deu certo.

Durante esse processo, Emerson vendeu duas motos; no discurso inicial, alegou que seria para quitar dívidas, mas acabou apostando o dinheiro arrecadado. A família também descobriu um empréstimo estrangeiro de mais de R$100.000. Agora, após ter esgotado todas as forças de quem gostaria de ajudá-lo, Emerson se vê sem casa, sem esposa, com pouco contato com as filhas, poucas visitas à mãe — que não aceita o rumo que sua vida está tomando — e uma dívida exorbitante que Fabrício nem sabe mais o valor.

“Então ele tá ainda na negação. Ele diz que ele controla a roleta do jogo. Só que a gente sabe que isso é mentira, que ele não controla nada, né?” E ele é uma pessoa que ele diz que não é viciado. Ele diz que joga para poder se divertir, mas não tem a noção que ele joga o pagamento todo. Não leva as filhas dele para passear em lugar nenhum, não tem dinheiro.” comentou o homem, cabisbaixo.

Tanto Lua, quanto Fabrício são ótimos exemplos de como as bets têm influenciado negativamente a vida dos brasileiros e seus entes.

Fabrício, apesar de ter lutado para libertar o irmão do vício, se deu por vencido, já que a ajuda não foi bem-vinda e o tratamento não funcionou. O homem fica desacreditado de ter caído em chantagens emocionais e comenta um arrependimento: “Hoje, se eu pudesse voltar atrás, eu não tinha gastado tudo que eu gastei para poder tentar ajudar uma pessoa que não quer ajuda. Porque utiliza a chantagem emocional. A gente não quer ter na nossa consciência uma culpa de que um familiar morreu, foi morto por um agiota por não pagar a dívida.” disse, acrescentando que, para uma pessoa largar o vício, o primeiro passo tem que ser próprio.

Já Lua, teve o êxito de ver seu filho liberto dos jogos de apostas online. Apesar de saber que longe ele está mais protegido, ela sente falta do filho, que vem a visitar poucas vezes no ano. Emocionada, a mãe conta que ele ainda possui algumas dívidas pendentes, que está pagando aos poucos, mas revela sequelas emocionais que nunca serão curadas.

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Por mais que tente, fica difícil de ignorar

Enquanto milhões de brasileiros apostam diariamente em plataformas on-line, uma parte desse dinheiro tem um destinatário pouco comum ao imaginário: os cofres públicos. Com a regulamentação do setor, o governo passou a arrecadar recursos provenientes das empresas de apostas, os famosos impostos, transformando um mercado antes pouco controlado em uma nova fonte de lucro para o Estado. A Receita Federal indica que a arrecadação com apostas esportivas foi de R$9 bilhões, no ano de 2025.

Se quer saber para onde esse dinheiro vai, o Subsecretário de Arrecadação, Cadastro e Atendimento da Receita Federal, Gustavo Andrade Manrique afirma que todo o produto arrecadado é destinado para saúde, turismo e segurança do país. Ou seja, ganhando ou perdendo, o dinheiro já tem um fim estabelecido. Além de saber o destino do dinheiro, a origem da massificação das casas de apostas também é um fator que precisa ser difundido.

Virgínia Fonseca, Carlinhos Maia e Deolane Bezerra: juntos, acumulam mais de 113 milhões de seguidores nas redes sociais. Influenciadores digitais como esses, são peças fundamentais no crescimento e movimentação das Bets.

Ao assistir a vida, rotina e costumes de um influenciador todos os dias, o público passa a ter confiança em tudo o que aquela figura divulga, inclusive, jogos de apostas.

Por meio de stories bem produzidos, gravações de tela que exibem vitórias e prints com valores pagos pelas plataformas de apostas, eles atraem a atenção de públicos diversos. O conteúdo circula entre diferentes faixas etárias e pode levar desde Maria Luiza, de 18 anos, até o senhor Paulo, de 60, a experimentar uma aposta.

E não são apenas os influenciadores digitais que conseguem te convencer de jogar uma partida. Jogadores, artistas e até cantores podem influenciar o seu público alvo. Você já ouviu essa música?

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Como se fosse um refrão impossível de esquecer, Jonathan Souza, ou melhor, J. Eskine, leva milhões de pessoas a cantarem sobre a ostentação do dinheiro recebido pelo famoso “Tigrinho”. No YouTube, o videoclipe já acumula cerca de 60 milhões de visualizações, evidenciando como o hit se espalhou e se fixou no dia a dia das pessoas. A popularização das apostas online não é resultado de uma única influência. Ela ocorre por meio de diferentes canais: músicas, redes sociais, influenciadores digitais e campanhas publicitárias que, juntos, ampliam o alcance e contribuem para a naturalização desse universo entre públicos de diversas idades.

Propaganda da Betano, uma das casas de apostas mais conhecidas pelos brasileiros, na Rua Joaquim Silva, que abriga a Escadaria Selarón, um dos pontos turísticos mais famosos do RJ. Fotos por: Edmilson Gomes

Propaganda da Betano, uma das casas de apostas mais conhecidas pelos brasileiros, na Rua Joaquim Silva, que abriga a Escadaria Selarón, um dos pontos turísticos mais famosos do RJ. Fotos por: Edmilson Gomes

Mas não se trata de apenas influência e entretenimento, na verdade, vai muito mais além. Por trás das promessas de ganhos rápidos, existe um mercado que movimenta bilhões de reais e distribui contratos milionários para quem ajuda a atrair novos jogadores. Com mais de 50 milhões de seguidores, Virgínia Fonseca é um dos exemplos mais conhecidos dessa estratégia. Uma reportagem da Revista *Piauí* apontou a existência de uma cláusula apelidada de “cachê da desgraça”, segundo a qual ela receberia uma porcentagem na perda monetária dos usuários atraídos para a plataforma por meio de suas publicações. O contrato também previa um adiantamento de R$50 milhões ao firmar parceria com uma casa de apostas e, posteriormente, fechou outro contrato avaliado em cerca de R$29 milhões por ano.

50 milhões de reais equivalem a cerca de 83.333 Bolsas-Família mensais, que custam aproximadamente R$600 por família. Com o valor que Virgínia faturou em apenas um contrato, seria possível pagar o benefício mínimo a mais de 83 mil famílias durante um mês.

A comparação mostra uma das contradições mais marcantes do mercado de apostas online: enquanto alguns ganham milhões para promover as plataformas, milhares de brasileiros perdem dinheiro tentando obter nelas uma renda extra. De um lado, influenciadores são remunerados para exibir ganhos, divulgar promoções e atrair novos usuários. Do outro, pessoas em situação de vulnerabilidade financeira — muitas delas dependentes de programas sociais — apostam parte de sua renda na esperança de resolver problemas econômicos ou complementar o orçamento doméstico.

As casas de apostas online cobiçam centenas de influenciadores: seja os que têm número expressivo e público consolidado, seja os influenciadores menores, que publicam a um público mais nichado. Esse é o caso de Giovanna Peçanha, criadora de conteúdo digital, que se comunica diretamente com as mulheres, devido ao seu conteúdo de moda-política e beleza. No Instagram e no TikTok, a jovem soma quase 100 mil seguidores e nos contou que já recebeu diversas propostas para divulgar bets. Os contratos são variados, mas oferecem ganhos monetários entre R$1.000 a R$2.000 por semana.

Para Giovanna, a ideia de aceitar esse tipo de acordo é inconcebível. Segundo ela, divulgar Bets não é uma prática que esteja alinhada a seu propósito e a seu caráter.

“Quando você é influenciador, você não é somente um influenciador, você também traz um caráter como marca, porque você também é uma marca. Então, como marca e também de uma consciência social de onde eu vim, eu não vejo objetivo nenhum nas Bets.”, afirmou, aprofundando na questão social que permeia seu trabalho e sua vida.

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Quando se trata de audiência, as emissoras de televisão e os canais de transmissão também ocupam posição importantíssima na expansão das casas de apostas no Brasil. Com a proximidade da Copa do Mundo de 2026, a presença dessas empresas nas telas se tornou praticamente inevitável. Não por acaso, a Globo, maior emissora do país, exibe diariamente anúncios de plataformas como Betano, Superbet e BetMGM para uma audiência estimada em 76 milhões de pessoas. Em meio a transmissões esportivas, intervalos comerciais e programas de entretenimento, as apostas passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros.

Na CazéTV, interface digital que se consolidou como um dos principais fenômenos de audiência esportiva do país, o espaço para as casas de apostas se tornou constante. Durante transmissões ao vivo, anúncios, inserções de marca e ações publicitárias aproximam as bets de um público majoritariamente jovem e conectado. Com milhões de visualizações em eventos esportivos de grande porte, a plataforma contribui para normalizar as apostas como parte da experiência de assistir ao esporte, ampliando ainda mais o alcance de um mercado que cresce impulsionado pela atenção de seus espectadores.

Um clique sem volta

O que começa com um clique estimulado por propagandas e promessas de enriquecimento nas redes sociais pode ruir uma vida inteira em questão de meses. O vício em apostas online se alimenta da ilusão do dinheiro fácil e o ciclo vicioso da dopamina imediata. Os relatos de Lucas Lima e Alexandre Ferreira mostram como essa facilidade de acesso converteu os celulares em uma armadilha na palma das mãos.

Lucas Lima

(@lucas.f.limaa)

Aos 28 anos, Lucas Lima tinha uma vida bem estruturada e organizada. Vindo de uma realidade humilde, o jovem produtor rural havia conquistado o seu primeiro milhão de reais. Era dono, há quase oito anos, de uma empresa de leilões de bovinos. Era casado e tinha a independência de quem já morava sozinho há mais de uma década. Porém, três anos depois, aos 31, a realidade de Lucas se transformou totalmente. A linha que divide esses dois cenários foi construída em apenas doze meses.

O que começou como uma brincadeira, estimulada por publicidades de cassinos online no Instagram, rapidamente se transformou em um pesadelo. Lucas relata que a sensação de jogar era um prazer automático, uma dopamina liberada para o cérebro que te faz permanecer ali. O cérebro seguiu o código clássico da dependência química, embora o composto fosse puramente digital.

No início, alguns ganhos alimentavam a ilusão. No entanto, Lucas já não jogava para ganhar, mas para recuperar o que tinha perdido. “Eu sempre fui um cara muito organizado financeiramente, não gostava de perder nenhum real, sabe, para nada. Então, depois eu fui indo só por tortura, sabe? sempre correndo atrás de buscar o que eu tinha perdido. Sempre, sempre, sempre. Aí virou uma bola de neve gigante, sabe?”, comentou. Abatido, o homem relembra que se deu conta que estava viciado, quando jogava na madrugada ao invés de dormir e quando deixava de atender clientes para continuar jogando. “Às vezes eu jogava até dentro do banheiro, esses momentos assim, eu me lembro, só que eu não aceitava. Na cabeça da gente, a gente não aceita que tá viciado. Mas é nesses momentos que eu via que eu estava viciado.”, concluiu.

Em um ano, o prejuízo financeiro somou R$4 milhões. Do total, R$1 milhão era parte do patrimônio próprio; os outros R$3 milhões foram obtidos por meio de empréstimos com bancos e com pessoas a quem prestava serviços através da empresa de leilões. Com o tempo, seu sócio descobriu o pedido de dinheiro aos clientes e expôs toda a situação à esposa de Lucas. Seu casamento não resistiu e hoje, após um tempo, ele já consegue fazer uma análise de como a ex-mulher enxergou a situação: “Eu entendo que também foi uma traição assim para ela, sabe? Isso tudo ter acontecido. Não que ela dependesse do meu dinheiro, ela não dependia do meu dinheiro para nada, sabe? Mas, uma pessoa que estava do teu lado ali, não era a mesma pessoa, sabe? Eu era um um viciado, só pensava em outra coisa. Eu estava vivendo outra vida. Eu não, eu não conseguia pensar… eu não estava presente naquele lugar, sabe?”

O tombo forçou um recomeço doloroso. Lucas precisou abrir mão da independência de 11 anos e voltar para a casa dos pais. O colapso abriu espaço para uma depressão severa, que durou dez meses. Foram longos dias de cama, onde o ex-empresário emagreceu 35 quilos e se sentia, em suas próprias palavras, um “vivo morto”.

Para tentar diminuir as dívidas, vendeu sua parte da empresa ao sócio, sua chácara e fez novos financiamentos. O sacrifício, somado à ajuda financeira dos pais, reduziu os danos, mas ele ainda carrega um débito ativo de R$1 milhão.

A virada de chave na vida de Lucas começou há pouco mais de dois meses. Ele decidiu usar a própria história como alerta e começou a gravar vídeos para o Instagram expondo a sua jornada. A rede social que antes havia lhe apresentado o vício, tornou-se parte de sua cura.

Hoje, com um ano sem jogar, ele mantém uma rotina rígida de contenção de danos. Para evitar gatilhos, não possui contas bancárias ou de consumo em seu próprio nome e seu CPF está bloqueado em todas as plataformas de apostas. “Sei que sou viciado, não posso experimentar”, afirma. Seu objetivo atual, além de pagar o que deve, é estender a mão e ajudar quem está preso no mesmo ciclo. Para ele, os jogos é algo que deve ser combatido e evitado:

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Como forma de reduzir os impactos do vício em jogos, o Governo Federal disponibilizou um mecanismo que permite a qualquer cidadão bloquear o próprio CPF para utilização em plataformas de apostas legalizadas.

O processo é simples. Basta acessar o portal de Autoexclusão do Ministério da Fazenda e seguir o tutorial que preparamos (Clique aqui e acesse). A medida representa um importante instrumento de proteção para pessoas que enfrentam dificuldades em controlar os impulsos relacionados às apostas. Ao limitar o acesso às plataformas, o programa oferece uma oportunidade de afastamento, contribuindo para a redução dos danos financeiros, emocionais e sociais provocados pelo jogo compulsivo.

Alexandre Ferreira

(@oalexandref_)

Para Alexandre Ferreira, de 30 anos, a pandemia da Covid-19 trouxe um perigo muito mais silencioso e persistente do que o vírus que deixou o mundo em casa. No período de isolamento ele descobriu, por meio de amigos, as apostas online. No começo era apenas uma promessa tentadora de renda extra, mas que terminou em uma perda de mais de R$200 mil e em uma batalha pelo controle da própria mente.

​O primeiro contato com o jogo teve o sabor ilusório do ganho fácil. Alexandre apostou em uma partida de futebol e faturou R$400. Foi o suficiente para morder a isca. Durante o primeiro ano, ele estabelecia metas diárias: apostava nos jogos de futebol para ganhar os R$300 ou R$500 estipulados e parava. Com o tempo ele não conseguia mais parar e acabava apostando todo o dinheiro novamente.

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Depois o futebol ficou pequeno. O homem migrou para outras plataformas de cassino online, onde a velocidade das perdas era esmagadora: cada jogada custava R$400; em questão de dez rodadas, R$4.000 evaporavam de sua conta bancária. ​O primeiro grande golpe veio quando ele perdeu R$22 mil de uma só vez. A partir dali, a busca não era mais pelo lucro, mas pela reparação do prejuízo.

Alexandre já conhecia os caminhos da dependência; aos 18 anos, havia admitido o vício em drogas e conseguido romper totalmente com as substâncias. No entanto, ele descobriu que o jogo ativava um gatilho ainda mais complexo. Não era pelo dinheiro em si, era pelo prazer frenético de apostar. E, diferentemente do entorpecente químico, o cassino digital não exigia que ele saísse de casa ou procurasse um traficante. Estava ali, na palma da mão. “A droga era mais difícil de conseguir porque eu tinha que ir buscar, então foi mais fácil de largar. O jogo já está de fácil acesso no celular, então é outro problema.”

Habituado a recorrer a agiotas para financiar o jogo, ele passou a aceitar taxas de 50% de juros. Porém, o estopim aconteceu quando ele pegou R$55 mil de uma única vez, na certeza de que ganharia, mas acabou perdendo tudo. Esse baque financeiro foi o primeiro passo para a mudança. ​

Nesse momento, o jovem contou com o apoio de sua família. Todos uniram forças para salvá-lo do perigo dos cobradores. Com o amparo financeiro de parentes e amigos, ele conseguiu quitar uma parte da dívida com os agiotas. Hoje, restam R$20 mil para que ele finalmente deixe essa conta no passado.

​Compreendendo perfeitamente o sofrimento interno, a vergonha e a ansiedade de quem está preso nesse ciclo, Alexandre hoje usa sua experiência como um aviso. Ele se tornou um crítico feroz das plataformas de apostas e dos influenciadores que as promovem.

Para ele, a reabilitação do jogo exige uma transformação radical. “Eu sei o quanto a pessoa sofre internamente, né? Porque o problema não é nem externo, vamos dizer assim, o problema tá aqui, é a mente que manda no nosso corpo. Vem a vontade do suicídio, é onde bate a depressão, é onde a gente quer esconder de quem a gente ama. E assim, para quem quer realmente sair disso, cara, eu falo de coração: mude a mentalidade. Se for preciso, deixe o celular de lado, se for preciso, fale para a sua família.”, reflete. Seu conselho para quem deseja mudar é ter a coragem de expor o problema, buscar o suporte familiar e, se necessário, abrir mão da tecnologia, enfrentando a dependência um dia de cada vez.

A doença que ‘pega’ no jogo

​Reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2018, a Ludopatia é uma condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável de continuar jogando. Essa compulsão corrói tanto o equilíbrio financeiro quanto o psicológico do jogador, o que torna cada vez mais distante a suspensão da jogatina. O resultado é um ciclo destrutivo: as dívidas acumulam, o dinheiro apostado nunca retorna e o prejuízo cresce, aprisionando a pessoa em uma engrenagem sem saída.

A doença funciona tal qual o vício em substâncias químicas, afetando o sistema de recompensa do cérebro. Essa alteração gera níveis elevados de dopamina, um neurotransmissor ligado à motivação e expectativa. Ao apostar, o cérebro libera dopamina e só a possibilidade de ganho já é o suficiente para gerar esse excesso de estímulo que faz com que o apostador queira permanecer sempre jogando. A imprevisibilidade do jogo também colabora para que a sensação de emoção e adrenalina se torne mais importante que o próprio dinheiro. Os sintomas podem ser vários: preocupação constante, ansiedade, irritabilidade, frustração. Podendo chegar até depressão, isolamento social, abuso de substâncias químicas e ideação suicida.

Essa dependência também se mantém por meio de um ciclo difícil de interromper. Geralmente, tudo começa diante de algum gatilho emocional, como momentos de ansiedade, estresse, tristeza ou frustração, que despertam o impulso de apostar. À medida que a vontade aumenta, o jogo passa a ser visto como uma forma de aliviar esse desconforto, oferecendo uma sensação imediata de prazer ou esperança. No entanto, esse alívio dura pouco. Após a aposta, principalmente quando há perdas, surgem sentimentos de culpa, vergonha e arrependimento, acompanhados da promessa de que aquela teria sido a última vez. Ainda assim, a tentativa de controlar o comportamento acaba gerando ainda mais tensão emocional, fazendo com que a pessoa volte a apostar para aliviar esse mal-estar e reinicie, mais uma vez, o mesmo ciclo.

O que torna as apostas tão difíceis de abandonar é justamente a combinação de fatores que estimulam o cérebro e reforçam esse comportamento. Além da liberação de dopamina, muitos apostadores passam a acreditar que conseguem prever resultados ou desenvolver estratégias capazes de aumentar as chances de vitória, mesmo quando o jogo depende exclusivamente da sorte. Os ganhos ocasionais também exercem um papel importante, pois criam a expectativa de que uma nova aposta poderá compensar todas as perdas anteriores. Para algumas pessoas, o jogo ainda passa a funcionar como uma forma de escapar de problemas pessoais e oferece alívio temporário diante de sentimentos negativos. Com o passar do tempo, porém, essa sensação de recompensa deixa de ser suficiente e o apostador sente a necessidade de jogar cada vez mais para experimentar o mesmo nível de satisfação, tornando o controle sobre o próprio comportamento cada vez mais difícil.

Nesse vídeo, a médica psiquiátrica Maria Fernanda explica o que acontece no cérebro das milhares de pessoas que desenvolvem dependência em jogos de aposta.

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Outro fator que contribui para o aumento das apostas é a forma como as plataformas são desenvolvidas. Recursos como bônus de cadastro, promoções, notificações e apostas em tempo real incentivam o usuário a permanecer por mais tempo no aplicativo, enquanto efeitos sonoros, animações, mudanças de cores e mensagens de incentivo tornam a experiência mais atrativa. Somado à presença constante das casas de apostas em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas publicitárias, esse ambiente faz com que apostar seja percebido por muitas pessoas apenas como uma forma de entretenimento, deixando em segundo plano os riscos de desenvolver um comportamento compulsivo e os impactos que ele pode causar na vida financeira e na saúde mental.

Embora a ludopatia seja uma doença crônica, ela possui tratamento e as chances de recuperação aumentam quando o problema é identificado precocemente. O acompanhamento psicológico é considerado uma das principais ferramentas, já que ajuda o paciente a compreender os pensamentos e comportamentos que alimentam a compulsão e a desenvolver estratégias para lidar com o impulso de apostar. Em alguns casos, também pode ser necessário o uso de medicamentos psiquiátricos, principalmente quando a dependência está associada a outros transtornos. O apoio da família também desempenha um papel importante durante esse processo, pois contribui para a reconstrução dos vínculos, oferece suporte emocional e auxilia na criação de estratégias para enfrentar os desafios provocados pelo vício.

Medidas da Justiça e algumas ações do governo têm ajudado na contenção de danos no impacto dessas BETs na vida de pessoas que sofrem com a ludopatia. Já não são escassos os casos em que a justiça brasileira define que determinada casa de aposta deverá devolver o valor gasto ao apostador devido à falta de políticas internas na plataforma que protejam os jogadores mais vulneráveis. O que alega a lei 14.790/23 e a Portaria SPA/MF 1.231/24 é que nas plataformas é necessário conscientizar os usuários sobre os riscos de dependência e compulsão, monitorar e proteger jogadores vulneráveis, e deixar claro informações sobre probabilidades, riscos de perdas e endividamento, além dos impactos à saúde mental.


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