Armário aberto em tempos nublados – sobre sair do armário.
Gay (Interlúdio)
Armário aberto em tempos nublados – sobre sair do armário.
Gay (Interlúdio)
Essa daqui é praquelas gay
Que no presinho já sabia que era gay
A criançada apontava: “Cê é muito gay”
Já brincava com as barbie “Teu filho é gay, eu bem que te avisei”
É praquelas gay que num sabia bem porque era ruim ser gay
Sentiu na pele bem cedo como tratam as gay
Já brigou com Deus “por quê me fizeste gay? “, queria ser alguém
Já não temas, gay
Aquilo que não mata fortalece um gay
Sente o quanto te empodera ter nascido gay
Em teus olhos um espelho onde eu me enxerguei
É que eu também sou gay
E levante, gay
Que a luta ainda não acabou pras gay
Que a nossa vitória vai ser o close, gay
E que se eu tô aqui hoje dando voz pras gay é por ser
Gay
Por Glória Groove – O Proceder, Drag queen negra.
Esse texto será bem pessoal, assim como os outros, em que dividi e compartilhei os temas em conversas com amigos e familiares.
São tempos difíceis, eu sei. Mas não digo aqui que é preciso colocar uma faixa dizendo aquilo que se é pra todo mundo ver, lembrem-se da parte do se preservar. O medo é uma constante em nossa vida. Ainda mais quando se é preto, pobre e LGBT. Mas também não estou dizendo que o armário é o melhor lugar para estar.
Sei que pode ser algo difícil, complicado, há diversos fatores que podem estar nesse terreno, que pode ter a instabilidade de uma areia movediça ou também pode ser à beira de uma praia. Eu não sei como dizer pra você que está lendo meu texto como pode ser. Como deve ser. Como será(?). Isso só você pode descobrir.
Conhecemos os dados de violência contra a nossa população, no que diz respeito a identidade de gênero, sobre pessoas trans e às travestis e negras, especificamente é ainda mais doloroso. Mas é importante saber quem se é, e ser verdadeiro com isso.
Escrevo esse texto pois retomei esse assunto, que foi parte da minha vida uns anos atrás (a saída do armário) e gente não foi um dos melhores dias da minha vida. Foi um dos dias que eu mais chorei. Sentado no banco da faculdade, com o amparo de amigas. Foi horrível, na verdade. Mas isso foi como eu me sentia antes. Vou explicar a história. Amigos próximos, talvez, não saibam, alguns talvez não lembrem, mas aqui vai…
Sobre a minha saída do armário:
Eu cursei meu ensino médio em um colégio onde não conhecia ninguém. Fiz algumas amizades, que tenho até hoje e uma das primeiras amizades que havia feito foi com a “A” (vou chamar ela assim). A “A” era uma das melhores amizades que eu tinha na época. E foi com ela, que eu me senti à vontade e seguro para ficar com um cara na frente dela.
Eu sempre negava à pergunta: tu é gay? Por não saber exatamente como lidar com a situação.
Eu e “A” tínhamos uma amiga em comum. E um dia a “A” me convidou pra ir na casa de dessa amiga, comer pizza e jogar videogame. Eu fui. Na época a “A” namorava uma menina “B” (vou chamar ela assim).
Eu e a “A” fomos pra casa dessa amiga em comum (vou chamar ela de “C”).
Quando chegaram as pizzas nós tiramos uma foto, e eu questionei a “A” se não daria problema com a namorada dela, a “B”, porque ela tinha saído e não havia falado com ela a respeito. Então, ela me disse que a “B” não conseguia ver nada do Facebook dela. Eu questionei novamente: “A” tu têm certeza que não vai dar problema(?!?) vai sobrar pra mim ainda, ela: tenho. Viramos a noite jogando e comendo pizza.
Passado um tempo, estou na minha aula de Libras, quando saio pego o celular e vejo diversas ligações — eu tinha um trabalho em vídeo para gravar com os colegas, para outra disciplina naquele semestre — quando conecto na internet e vejo a “B” havia me mandado diversas mensagens me xingando (porque EU havia convidado a “A” pra ir na casa da “C” -a amiga em comum) “dizendo que eu não era amigo de ninguém”, ofendendo até minha mãe. E dizendo que contaria para todo mundo que eu era gay. Nisso, na barra de notificações leio de uma amiga, a Mari: “Jad, entra no teu Facebook”. Juntei as duas coisas e sabia que a merda tava feita. Pedi para a Mari entrar no meu Facebook (porque meu celular tinha problemas e eu não conseguia acessar pela 3G) tirar print do que havia sido postado e que bloqueasse as duas. Fui gravar o vídeo com os jovens. Antes de voltar para a faculdade, fomos fazer um lanche, foi onde eu contei para umas amigas o que tinha acontecido. Uma delas nem acreditou que aquilo estava acontecendo e justamente comigo.
Fui pra faculdade, encontrei outras amigas e lá desabei de tanto chorar (um dos dias que eu mais chorei na minha vida -um outro foi na aprovação do vestibular). Nessa época fazia um curso, eu não sabia o que faria se ia para casa ou pra aula, essa amiga ofereceu para eu ficar no apartamento dela, aquele dia (Obrigado Pintinha ❤️). Acabei indo pro curso e fui par minha casa.
Tô tentando ser breve, mas é tanto “eita” nessa história que esse texto vai ser longo mesmo.
Chego, faço um café, vou pro quarto da minha mãe assistir tv, quando entra meu irmão, me olha e sai, aí ele chama meu outro irmão – aí eu senti que a coisa tinha estourado – ele me chama na sala, estão quase todos meus irmãos e minha mãe reunidos.
Ele pergunta: tu têm alguma coisa pra falar pra gente?
Eu: começo a chorar, não consigo falar nada
Depois de um tempo ele: é verdade o que aquela guria postou?


Eu sigo chorando ainda mais
Ele segue: antes de qualquer coisa, a gente nunca vai deixar de te amar, a gente tem muito orgulho de ti, da tua independência, tu é foi primeiro a entrar na universidade…
Nisso eu já estou acocado no chão chorando ainda mais
Eles me abraçam, e ainda brincam, se quiser trazer um namorado pra apresentar pra eles, eu poderia levar.
Um peso enorme saiu das minhas costas. Apesar de todos cenários caóticos e trágicos que eu havia imaginado, as coisas acabaram se resolvendo.
Sobre esse dia: fiquei aliviado e deixei de ser amigo, de quem eu achava que era minha amiga, porque mentiu para namorada dizendo que eu havia convidado ela pra sair, sendo que foi o contrário.
Sei também que não é assim para todas as pessoas, os dados de violência contra LGBTs são gritantes no que diz respeito ao nosso país. Isso é uma vergonha! Não há orgulho algum em ser um país que mais mata pessoas trans, pessoas LGBTs. E entendo as dificuldades e os medos que outras pessoas podem ter.
Minha dificuldade em conversar com alguém se dava porque não saber o que se passava, mas sabia que havia uma diferença, que parecia ser errado, havia o medo, a incerteza sobre as reações das pessoas que convivo e amo. E aí está uma coisa, não da para saber como as pessoas irão reagir. No meu caso ocorreu uma bela surpresa de todos os cenários que havia imaginado. Mas sabemos também que há violência contra os nossos corpos, contra a nossa existência.
Mas nem tudo são flores ou espinhos. Rosas são belas mas também podem machucar.
As pessoas que a gente mais gosta e confia, podem nos fazer quebrar a cara, infelizmente. Lidar com pessoas é isso. Algumas são assim: desrespeitosas num nível, irresponsáveis sobre as suas atitudes, como elas podem chegar e causar na vida do outro.
Escrevo esse texto não para mostrar aspectos negativos, sobre a violência, sobre causar medo. O que tento aqui, é fazer com que você consiga ser livre consigo, isso também é uma busca pelo afeto. É conseguir dentro da sua realidade (consigo mesmo, se assim for) ser verdadeiro, ser honesto. Caso você seja lésbica, gay, bissexual ou ainda se identifique como trans ou travesti.

Créditos da imagem: http://www.transstudent.org/gender
Mais uma vez eu sei que isso não é fácil. Por conhecimento de causa, eu sei.
Não há nada errado, você mulher, gostar de mulheres, você homem gostar de outros homens ou ainda dos dois. Mesmo que pareça que o mundo inteiro diga o contrário, que o meio que você vive, que a sua realidade diga e mostre o contrário disso. “No armário tem poeira e eu tenho rinite” – mesmo tendo ficado muito mais tempo do que eu gostaria, para dentro ele eu não volto. Ninguém deveria voltar ou ter medo o suficiente que o faça permanecer junto com a poeira.
O que escrevo aqui não é para que você saia correndo e grite aos 4 cantos que você é bissexual, lésbica ou gay. Não é isso. É que você tenha consciência disso: que você pode ser lésbica, gay, bissexual, travesti ou transsexual que não é errado.
NÃO É ERRADO AMAR. Não é errado ser transsexual ou travesti.
Errado é o seu preconceito.
Mas compreendo que algumas realidades isso pode ser algo perigoso, seja por causa de familiares, seja por motivos religiosos, seja o motivo que for. Porque a gente não sabe como as pessoas vão reagir. Algumas pessoas acham “tudo ok, desde que não seja próximo, que não aconteça na minha família”. Se você acha “ok” quando é “afastado” de você mas que existe problema quando é próximo. Tenho que te contar uma coisa: Você não respeita nem quem está longe.
Por que digo isso? Você respeitar o outro apenas quando não está próximo, não é respeito propriamente, é apenas uma máscara, é preconceito disfarçado mesmo, é LGBTfobia. Você não respeita realmente. Entende?
Eu entendo também que as coisas não são fáceis assim, só clicar num botão e “pronto”, aceito toda a diversidade. Há diversas estruturas que fazem que isso não ocorra facilmente. Por ter aprendido que “é errado” ou que “não é natural”, seja lá quais justificativas/motivos ou razões que tenham lhe ensinado que é “errado” gostar do outro, da outra.
Não existem apenas heterossexuais (homem e mulher, mulher e homem, pai e mãe).
Existem diversas formas de família.
Homem e mulher não é a única forma de existência em relacionamentos.
Há mulheres que cuidam de seus filhos (da sua família) sozinhas, por assim escolherem, por terem sido abandonas por seus parceiros ou por serem violentadas por eles. O machismo e a violência contra mulheres fazem vítimas TODOS OS DIAS. Os dados sobre feminicídios só aumentam, se tratando da mulher negra é ainda maior.
Há famílias composta por duas mulheres, por dois homens. Por avós, avó, avô, por tios, tias, por uma pessoa e seus animais de estimação, há “casais” (chamado trisal) de 3 pessoas, existem diversas possibilidades, uma pluralidade de existência familiar.
Há muita coisa além da heterossexualidade.
O ano é 2019. Muita coisa mudou. Infelizmente a LGBTfobia, o racismo e o machismo ainda não deixaram de existir.
Mas há outras possibilidades de família do que aquela composta por apenas “homem, mulher e filhos”. Você gostando ou não.

Nina Simone — via documentário disponível na Netflix What happened, Miss Simone?
Caso você queira falar com alguém, você pode ligar para o CVV (Centro de Valorização da Vida) o número é 188, a ligação é gratuita. Caso você esteja no “armário” e queira conversar com alguém, pode entrar em contato comigo através da mensagem direta (direct) no Instagram @embuscadoafeto ou por messenger no Facebook Em busca do afeto
Esse é mais uma etapa Em Busca Pelo Afeto, escrito por Jadson, aka Jad Silva, estudante de Ciências Sociais.
메타데이터
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- 2026-08-04 22:42:38