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No Outro Verso

Quando Tiago nasceu, houve um tiroteio na porta do hospital. Parece que traficantes e milicianos de comunidades diferentes se estranharam…

Sidnei Wanka · 2026-05-03 22:14 · 0 claps · 4.4 min read
#scifi
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No Outro Verso

Quando Tiago nasceu, houve um tiroteio na porta do hospital. Parece que traficantes e milicianos de comunidades diferentes se estranharam no pronto atendimento e sobrou bala pra geral. Sua mãe, depois de horas esperando a vez de dar à luz no mesmo hospital superlotado, sofreu com um parto dramático e nunca mais foi a mesma; morreu seis anos depois, vítima de desgosto. O pai do guri sumiu assim que ela ficou grávida. Sua avó nunca aceitou a gravidez precoce da filha, rejeitando o neto, apesar de assumir a responsabilidade pela criação após a morte dela.

O avô de Tiago sempre foi mais carinhoso com ele, mas ao mesmo tempo comedido pelas repreendidas da esposa.

Como era bem mais velho, morreu quando Tiago completou doze anos. Sua avó era sempre ríspida com ele, provavelmente o culpava pela perda da filha; a casa onde morava definitivamente não era um lugar agradável.

Logo encontrou aconchego na rua com amigos. Primeiro gazeava aula para jogar fliperama; depois vieram as lan houses, os rolês de skates pela cidade, a casa dos amigos. Tudo era motivo para passar o menor tempo possível em casa.

Passou bem pelos anos de escola: aluno mediano, recuperações frequentes, poucos méritos Sofreu algum bullying, mas no geral se dava bem com todo mundo.

O tráfico de drogas andava sempre ao lado como em qualquer periferia, mas nunca se envolveu diretamente. Já cedo viu alguns colegas de escola serem consumidos, outros assassinados. Experimentou maconha, cocaína e outras substâncias. Não gostava de álcool; só o cheiro da bebida lhe dava enjoo. Cometeu alguns furtos, coisa pequena, às vezes só por diversão mesmo.

Aos 17, começou a trabalhar em uma lavação de carros de um amigo de sua mãe que um dia o reconheceu em uma mesa de bar e lhe ofereceu o emprego. Tiago aceitou; gostava de estar lá. Era dedicado, ganhava pouco. Mas depois de 3 anos, conseguiu juntar o suficiente para comprar sua moto. Aos finais de semana, fazia trampo de entregador.

Conheceu Clara em um baile no outro lado da cidade. Amor à primeira vista. Clara, Tiago e sua moto: uma união feliz. Logo chegou o dia em que estavam sozinhos em casa e então amaram-se como jovens à flor da pele até a madrugada.

Tiago a deixa em casa e sai para o trabalho; hoje é sábado, dia de maior movimento na lavação. O ar frio da madrugada entrando pelo seu capacete gelando o seu rosto em contraste com a lembrança do corpo quente e macio de sua amante.

Focado na estrada vazia, nas luzes que iluminavam o asfalto até se lembrar de ter esquecido a carteira na casa da namorada. Péssima ideia andar de moto de madrugada sem documentos. Fez o próximo retorno e voltou em direção à casa de onde partiu.

Ao sair da via principal, logo na entrada do bairro dá de cara com uma blitz da PM. Naquele momento, sabia automaticamente que seria esculachado, moto apreendida, e surra com certeza.

No momento em que o policial fez sinal para parar, Tiago acelerou e furou o bloqueio. Ideia estúpida, mas, como conhecia bem a região, pensou que poderia escapar. Logo na próxima quadra, um carro de polícia surge na sua frente, acerta a moto e Tiago cai na calçada irregular em cima de pacotes de lixo.

— Tá bom, tá bom, perdi, chefe — a súplica ficou abafada pelo capacete enquanto levantava as mãos.

Três pipocos em sua direção. Um passou longe, outro raspou o capacete e o terceiro acertou a barriga, rasgando seus órgãos internos. Mal conseguiu sentir o gosto de ferrugem chegar à sua garganta quando os coturnos acertam seu peito, costelas, pisão no joelho. O capacete é arrancado na porrada. Cospe sangue; só então seus agressores param. Náusea, dor insuportável, vontade de gritar e chorar. Percebia somente vultos agitados ao seu redor envoltos pelas luzes azuis e vermelhas dos giroflex. Falatório incompreensível misturado a chiados de rádios e latidos de cachorros ao fundo. Foi só o que percebeu nos últimos momentos de lucidez antes da dor mais aguda escurecer os seus olhos de vez.

Quando abriu o olho novamente, duas criaturas de cabeça verde, olhos grandes, escuros e pele verde o acolhiam. Falavam em outra língua, mas que ele entendia perfeitamente.

— Calma, calma, o retorno é difícil. Deve ter sido morte traumática. Você já vai voltar para quem você é. Olhe para sua mão, vai entender.

Estica a mão à frente dos seus olhos: três dedos compridos, pele verde.

— Caralho, essa foi foda.

Tira os eletrodos da cabeça, levanta-se da cadeira. O auxiliar de jaleco branco o ajuda a chegar no lavabo. Lava seu rosto, levanta a cabeça, olha no espelho, fixa seus olhos negros. Tudo certo. Alisa a sua grande cabeça lisa, respira fundo. Voltou completamente, alívio.

Aos sair da sala passa pelo balcão principal comprimenta o atendente e faz um novo pedido

— Marca para mim, semana que vem novamente, no mesmo ciclo solar.

— Beleza, pode deixar, já vou agendar aqui. Obrigado por usar nossos serviços.

Fez um sinal de confirmação com os três grandes dedos e saiu para o corredor.

No saguão principal, encontra seu amigo Z-Ralf:

— Fala, Z-Will, como foi?

— Cara, eu fui de engenheiro sedentário que morreu de câncer.

— É mesmo?

— Pelo menos eu tive duas amantes e um cachorro bacana.

— Kkk, aí sim.

— Eu fui de skin básica, tava legal, mas, poxa, acabou rápido.

— Clássico da periferia, acertei?

— É isso aí. Então, estou pensando que na próxima vou pegar algo mais hardcore, como um combatente do Oriente Médio, talvez.

— Legal, mas o foda é que tem uns playboy pegando skin cara de presidente e fodendo com o servidor todo. Dizem que combatente está durando muito pouco.

— É mesmo?

— É. Investe um pouco mais e tenta uma skin de banqueiro. Vai ser da hora.

— Mas não é um pouco chato?

— Nada. É só achar um bom traficante que o negócio fica louco. Ah, e bons advogados também, porque ficar preso é chato, mas dá para escapar fácil.

— Valeu pela dica.

— De nada. Se quiser, eu indico uns contatos lá. Opa, meu transporte chegou. Valeu aí.

O aerotáxi chega à plataforma. Z-Ralf entra no veículo, que acelera, ganha altura e some no horizonte entre nuvens cinzas.

Z-Wil, parado na plataforma aguardando a chegada de sua condução, se pega refletindo sobre não gostar muito desses tipos de conchavos; prefere a imersão de jogar sozinho, ser surpreendido pelo aleatório, ficar inerte profundamente no andamento da partida.

— Acho que vou tentar de policial na próxima vez. Dependendo da região que spawnar, pode ser legal.


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