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II — JOÃO CARLOS E RAIMUNDO, OS PRIMEIROS SEMIDEUSES

A perda da infância e de parte de si

Cadu Guarieiro in Cadu Guarieiro · 2022-06-08 17:13 · 0 claps · 3.2 min read
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II — JOÃO CARLOS E RAIMUNDO, OS PRIMEIROS SEMIDEUSES

A perda da infância e de parte de si

O SOFRER NO ESTADO BRUTO EM PERSONIFICAÇÃO

N a pedreira próxima ao trabalho do pai foi submetida ao casamento, no entanto, a oficialização do matrimônio ocorreu em um cartório do município de Nova Iguaçu, o mesmo em que sofreu a emancipação. Acredito que o emprego da palavra obter melhor sucederia à ação de emancipar, porém, no que houver a possibilidade de empregar o sofrer relacionado ao episódio ocorrido à menina de 13 anos, assim o farei.

Como relata para Zeca Camargo em sua biografia, as únicas lembranças que Elza foi capaz de memorar referentes à cerimônia era o vestido deslumbrante que vestia, tecido em tafetá, e a sua lua de mel, ou como melhor emprega “lua de fel”, tendo em vista a defloração sem algum vestígio de prazer, que infelizmente viria a se tornar rotina, tendo em vista a entrega ao homem que por nunca nada sentiu.

A ingenuidade, ou até mesmo imaturidade inerente a idade, não permitia a menina entender a magnitude da circunstância, ou ainda que entendesse, preferia interpretar como uma brincadeira, considerando que esta era sua vontade, desde ser a dona de casa de sua nova morada com Alaordes, um barraco construído por seu pai nas adjacências, até mesmo ser mãe, aos 14 anos, do primeiro filho, João Carlos, o Carlinhos.

“(…) eu sabia que ele era meu filho, mas era mais como um boneco para eu brincar — um boneco de verdade, não aqueles de pano que eu tinha até então”. Relata a cantora à biografia.

Entretanto, ainda que sob a dualidade do filho e o brinquedo, Elza possuía o entendimento de todas as mazelas que aquela vida estava suscetível, como uma educação não tão assistida e as dificuldades referentes à comida, um espectro que a acompanhou desde a infância. A situação era crítica, o leite materno a menina não era capaz de produzir, tendo assim que recorrer à amiga e vizinha Júlia para esta função.

A prole não parou por Carlinhos, em seguida veio Raimundo, o Mundinho, um terceiro, que nem nome chegou a ter, acabou por falecer no parto, logo após, Gérson, Dilma e Gilson. Após a vinda de Raimundo ao mundo, Elza não limitou-se ao lar, e passou a trabalhar na Fábrica de Sabão Véritas, no Engenho de Dentro, tendo assim, que deixar as crianças por supervisão de sua mãe, dessa forma, conseguia alimentar seus filhos com arroz e feijão, quando possível pão, leite, angu e couve, porém, ainda que não passassem fome, não se pode definir a alimentação das crianças como nutritiva, consequência esta que levou Raimundo a óbito, de menos de um ano de idade, totalmente frágil nos braços do pai.

“Eu vi meu bebê morrendo. Peguei ele no colo, mas já não tinha vida nele. Lembro-me de olhar para seu rosto e ver que era tão pequeno — provavelmente mal-nutrido. Era o corpo de um menino leve, sem vida. Tinha saído de mim há tão pouco tempo — e já tinha ido embora… Eu hoje fico pensando como isso foi acontecer, como é que eu poderia ter cuidado dele melhor, mas naquela época não tinha nem cabeça para elaborar o que estava acontecendo. Naquela noite era só dor.”

Ainda que com o próprio emprego, o de Alaordes, prestando pequenos serviços na pedreira em que o pai de Elza trabalhava, e vez ou outra um “extra” ganho através do jogo do bicho, a situação não demonstrava melhora alguma, muito pelo contrário, a ladeira tornou-se ainda mais íngreme para baixo com a chegada de Gérson, que para a sua sobrevivência, foi mandado para a casa dos padrinhos, em Santa Teresa.

Bonde em Santa Teresa, 1961. Créditos: Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã

Bonde em Santa Teresa, 1961. Créditos: Arquivo Nacional, Fundo Correio da Manhã

A vítima da fome da vez agora era o mais velho, João Carlos. Todas as munições da família já haviam sido gastas, o dinheiro recorrente à ocupação sua e de seu marido não eram suficientes, ainda que somado com o proveniente dos jogos de azar, e com a ajuda da comadre e compadre abrigando o caçula na região Central da cidade. A resposta para a situação viria de suas influências radiofônicas da infância, nas rodas de samba que ocorriam em sua casa, e da vontade de soltar a voz afinada, mas por tantas vezes silenciada, obrigada a se acanhar e limitar tanto por seu Avelino, quanto por Alaordes.

Em 1953, com a desculpa de ir visitar Gérson, Elza rumou à rua Santo Cristo, número 148, também região Central da capital do Brasil à época, especificamente, no antigo endereço da PRG-3 Rádio Tupi. Esse momento antecede o nascimento de uma estrela.

Para este texto foram usadas como fontes de pesquisa e citação:

CAMARGO, Zeca. Elza. 1ª edição. São Paulo: LeYa, 2018.


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