A Montanha e a Mobilete
Tem lembranças que não se apagam. A gente guarda o cheiro do ar, o clima, o barulho, como se pudesse voltar àquele instante a qualquer…
A Montanha e a Mobilete
Tem lembranças que não se apagam. A gente guarda o cheiro do ar, o clima, o barulho, como se pudesse voltar àquele instante a qualquer momento. O tempo, esse mesmo que corre cruel, rápido e fugaz, deixa certas marcas gravadas em nós.
Depois da ameaça da Montanha — aquele cara enorme que parecia uma muralha diante de mim — fui para a sala de aula. Era fim de ano, poucos alunos, clima de despedida. No recreio, eu e o Cabeção estávamos no pátio, tentando aproveitar a última liberdade antes do sino.
De repente, tudo mudou. Meu amigo foi cercado e começou a ser agredido. Uns dez meninos se fecharam em roda, batendo nele com aquela soberba cruel de gangue que se acha invencível. Eu olhava, paralisado, até que o impulso falou mais alto: empurrei o líder. Foi o bastante para virar o alvo. Agora eu estava no radar.
Não havia escolha: corremos. Mas o Cabeção caiu. Eu ainda o vi no chão, cercado, levando pontapés na cabeça, o rosto se sujando de sangue. Aquela cena nunca saiu da minha memória. Segui em disparada até encontrar o irmão dele — vou chamá-lo de Been.
Sem pensar muito, subimos numa mobilete. O motor roncava alto, aquele barulho metálico que parecia anunciar a nossa chegada. Fomos direto para a escola, no embalo da coragem e do desespero. Entramos pelo pátio sem frear, procurando o Cabeção.
Foi aí que a gangue nos viu. Em segundos, a cena virou perseguição. Eles vieram todos atrás, correndo como um exército, como aquelas cenas de Indiana Jones quando a pedra gigante despenca montanha abaixo. O portão estava fechado, não havia saída. O coração batia na garganta enquanto o bando se aproximava cada vez mais. Até que, por um milagre, os meninos resolveram abrir.
E então escapamos. A mobilete tinindo, gritando em alta velocidade, rasgou o portão como se fosse a própria salvação. Mas a Montanha nos viu. O gigante largou tudo e veio correndo atrás, cada passo fazendo o chão tremer. Só que dessa vez o destino foi nosso aliado: passamos pelo último portão antes que nos alcançasse.
Mais à frente, encontramos o Cabeção. Ferido, mas vivo. E nós, ainda tremendo, tentávamos acreditar no que tinha acabado de acontecer.
Essa perseguição nunca saiu da minha cabeça. Ficou marcada com todos os detalhes, como um filme que volta a rodar de vez em quando na memória. E como disse um amigo, rindo da minha história:
— Vadillo, tem coisas que só acontecem com você.
메타데이터
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