Sobre a escrita com a luz
Minha filha primogênita escreve com a luz. Já há algum tempo. Já escreveu com traços, cores e texturas quando criança. Amava desenhar. Hoje…
Sobre a escrita com a luz
Minha filha primogênita escreve com a luz. Já há algum tempo. Já escreveu com traços, cores e texturas quando criança. Amava desenhar. Hoje faz fotografias tão lindas, que me torno suspeita para falar a respeito. Então, mostro uma dessas “escritas” aqui. Em que, por acaso, tem um ipê branco ‘desenhado’. Meu preferido.
Por acaso também, nesses últimos dias, passeando por Belo Horizonte, a ‘cidade jardim’, pensei o quanto é paradoxal um inverno com árvores floridas. Só aqui. Para todo lado, as folhas caem, os galhos secam, há um cuidado imenso da árvore em se preservar, em preservar sua energia, sua seiva. E, no entanto, vemos ipês florescendo na época mais seca do ano, mais fria.
Qual seria a dinâmica biológica de florescer onde mais falta? As condições, circunstâncias e intempéries — o que estaria combinado para gerar encantamento, delicadeza, luz? Bouquets na ponta dos galhos. Flores de ipê que variam a cor de a-cor-do com o mês? Quando vem a penúria, o recolhimento, o aquietamento, tem flor na paisagem, na rua, na janela, na estrada, naquele jardim. E maravilhamento.
Já falei sobre ipês aqui, e as lições que Rubem Alves me trouxe, uma vez, em uma mesa redonda sobre sua florada. Nada é por acaso, as lições estão por toda parte. E a beleza nas coisas também, além dos olhos de quem vê.
E pelo olhar de minha primogênita, um instante de registro como este, em uma praça da nossa cidade natal, não vem por acaso também. Ela parte em breve para terras ultramarinas e, já antevendo a saudade, quer se misturar na paisagem. Assinaturas em impressões. Escritas impressivas em composição, admiração, ponto de vista, sentimento. Percepções.
Se fartar de luz e se munir dela, sobretudo na transparência ‘branca’ das pétalas rendadas de uma flor de ipê branco. Porque o branco é o conjunto de todas as cores, e, para cumprir a sina, viver o sonho, concretizar o projeto, é preciso ter em si todas as flores. Florada de cores.
É para ver, apreciar, acreditar. O ipê está lá, no meio da rua, na esquina, nas calçadas, no quintal daquela casa. É para lembrar que a vida brota onde há promessa da semente. Onde há raiz, onde há eixo-retidão e onde há espaço para desabrochar. E pode-se sempre esperar por isso.

Foto: Sofia Dolabella
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