Resenha Crítica: Avenida Paulista — da Consolação ao Paraíso
Entre buzinas, delírio e bolo de chuva: um rito de passagem entre a cidade que nos engole e a arte que nos restitui
Resenha Crítica: Avenida Paulista — da Consolação ao Paraíso
Entre buzinas, delírio e bolo de chuva: um rito de passagem entre a cidade que nos engole e a arte que nos restitui.

Foto: Helena Wolfenson | @centroculturalfiesp e @daconsolacaoaoparaiso no Instagram, publicada em 9 de fevereiro de 2025
Às vezes, o teatro se oferece como espelho. Noutras, como trincheira. Mas há noites raras em que ele vira ponte: entre o que a gente viveu e o que a gente ainda não sabe nomear. Avenida Paulista — da Consolação ao Paraíso, a mais recente criação de Felipe Hirsch, é essa ponte. Estreando no palco do **Sesi-SP como parte da trilogia A Cidade, a peça não é só um retrato da São Paulo que pulsa entre vitrines e abismos. Ela é, sobretudo, um dispositivo sensorial que nos convida a atravessar a cidade e, com ela, atravessar a nós mesmos. Fui assistir à peça no meu último ano de Jornalismo na Cásper Líbero — depois de quatro anos de calçadas, ônibus, Puppy e chuva da uma e meia. E foi impossível não me emocionar. Eu me vi ali. Eu me ouvi ali. E talvez, pela primeira vez, a Paulista** tenha me devolvido o que nunca coube em legenda de story: minha experiência sendo jovem, cheia de sonhos, deslocada e inteira no meio de São Paulo.
A dramaturgia de Hirsch, como já é tradição, se recusa a entregar linearidade. A cidade é caos — e a encenação abraça isso com coragem. O texto se estrutura como uma colagem de vozes, manifestos, cartas, piadas ruins, slogans publicitários, tweets, preces, delírios. Tudo ecoa. Tudo se atropela. Como descreve a crítica do **Canal Teatro, a peça é “um gesto de resistência ao apagamento das vivências urbanas”. E é isso mesmo: tem coach, tem influencer, tem bolsominion que virou fantasma, tem ciclista poético, tem gospel dançando valsa, tem gente pedindo Pix. Mas também tem silêncio. Tem espaço para escutar os ruídos da cidade** — e os ruídos que a cidade deixa na gente.
A cenografia é um espetáculo à parte. Ao mesmo tempo minimalista e exuberante, o palco se transforma com projeções, luzes, chuvas e sons urbanos — tudo isso executado em cena ao vivo. O trio Rômulo Fróes, Guilherme Held e Marcelo Cabral, que assina a trilha sonora, propõe um carnaval distorcido, quase fantasmagórico. Como bem pontua o texto da **Popload, a peça é um “festival sonoro e visual”, onde o realismo e o delírio se cruzam como ambulantes e engravatados no metrô. Aliás, a trilha é um espetáculo à parte: foram muitas músicas inéditas compostas especialmente para o espetáculo**, e a experiência sonora é tão potente que acabou virando álbum — sim, a trilha foi lançada oficialmente, ampliando a potência sensorial da obra para além do palco.

Foto: Flávia Canavarro | @daconsolacaoaoparaiso no Instagram, publicada em 7 de abril de 2025
E então vem ela. Georgette Fadel. De capa preta, escudo do Batman, guarda-chuva e um olhar que já chega dizendo tudo. Eu não sabia que ela estava no elenco. E quando entrou, me faltou chão. Conheci o trabalho da Georgette este ano em *Beleza Fatal* — e desde então mergulhei em tudo que ela faz. Um projeto melhor que o outro. Acompanho pelo canal Adjuj, onde ela aparece sempre entre a poesia e o desabafo, com a força de quem se recusa a performar uma suavidade esperada. Vê-la ali, tão próxima, oferecendo bolo, oferecendo presença, oferecendo fúria, foi como reencontrar uma parte minha que tinha se perdido na pressa da cidade. Em uma das cenas, Georgette passa pela plateia rindo, dançando, brindando, quase em transe. E então, do nada, cala. Só olha. Só está. E esse momento valeu toda a peça.

Foto: Helena Wolfenson | @daconsolacaoaoparaiso no Instagram, publicada em 17 de fevereiro de 2025
Os personagens transitam entre o absurdo e a denúncia. A crítica do **InfoTeatro foi certeira ao dizer que Hirsch “dispensa subjetividade para espelhar o momento”. E que momento é esse? Um país cansado de si mesmo. Uma Paulista que se ergue como vitrine e ruína. Uma São Paulo que desfila sem parar entre o meme e a tragédia. Nada é aleatório. Nem o uso da Bíblia, nem a paródia do coach, nem a marcha da família**. Tudo fala sobre o tempo presente. Tudo é retrato — distorcido, mas fiel — do que nos cerca.
Um dos elementos mais marcantes da encenação, citado na crítica da **Farofafá, é a forma como Hirsch constrói uma poética do excesso. Não há economia: são 24 atores em cena, inúmeras personagens, trechos de autores como Tchekhov, Drummond, Artaud, Hilda Hilst e muita coisa que parece tirada do zap da sua tia. O Brasil inteiro passa pelo palco** — e a gente ri, se irrita, se comove, se reconhece.

Foto publicada por @daconsolacaoaoparaiso no Instagram em 25 de março de 2025. Crédito fotográfico não identificado na legenda.
Talvez o maior mérito de Avenida Paulista — da Consolação ao Paraíso seja justamente esse: em vez de organizar o caos, ele o torna visível. Em vez de nos oferecer respostas, ele abre perguntas. Em vez de nos proteger do absurdo, ele nos joga dentro dele — mas com arte, com cuidado, com brilho nos olhos. Eu saí do teatro em silêncio. E fiquei assim por muito tempo. Como se tivesse, finalmente, ouvido o barulho da cidade dentro de mim mesma.
Essa peça não encerrou apenas uma ida ao teatro. Ela encerrou um ciclo. Foram quatro anos vivendo entre Consolação e Paraíso — literalmente. Subi e desci aquela avenida todos os dias. E agora, prestes a me formar, entendi que São Paulo também foi meu palco. Eu também performei mil papéis nessa cidade: estudante, estagiária, amiga, apaixonada, perdida, forte, exausta. A peça me devolveu isso com generosidade. E com uma linha fina, daquelas que costuram por dentro.
메타데이터
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