Dona Natalina e a velha penteadeira
Velha moldura; meu silêncio entre perfumes; menino espinho.
Dona Natalina e a velha penteadeira

Velha moldura; meu silêncio entre perfumes; menino espinho.
Na cômoda, o retrato parece coisa que inda vai nascer.
Flor roxa, vidro de cheiro, pente antigo.
Tudo quieto, mas nada frouxo.
Esse menino, tão miúdo ainda, já vem partido em pedaço, feito tempo que se atrapalhou no caminho. Nasceu ontem, mas carrega cara de amanhã. Tem mão de quem vai pegar ferro, árvore, mundo. Tem olho de quem vai apanhar calado e guardará sentido.
Quem nasce maior que o berço paga cedo. A vida há de judiar, sempre judia. Mas nele tem tutano, tem raiz funda, tem bicho que mato nenhum engole. Vai errar, vai perder, vai ficar sozinho dentro da própria cabeça. Depois se levanta. Não para ser santo. Santo sofre demais e manda pouco. Levanta-se e toma conta de si. Não será, não virará sobra ou sombra dos outro.
Meu neto ainda não sabe.
Mas um dia sabe.
Hoje, o menino olha dentro e enxerga para trás. Agora é o contrário. Não é mais ela pensando nele diante da moldura. É ele que pensa nela, dentro da voz que ficou no frasco de Odor de Rosas do Phebo.

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