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A Fabulosa Máquina do Tempo (2026), de Eliza Capai

Foto: assessoria de imprensa

Letícia Magalhães in Cine Suffragette · 2026-07-31 21:04 · 0 claps · 3.7 min read
#cinema #audiovisual #brasil #documentário #documentario
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A Fabulosa Máquina do Tempo (2026), de Eliza Capai

Foto: assessoria de imprensa

Foto: assessoria de imprensa

Eliza Capai vem se tornando um dos principais nomes do documentário brasileiro contemporâneo. Depois de “Espero tua (re)volta” (2019), sobre o movimento de ocupação das escolas paulistas por melhorias, e “Incompatível com a Vida” (2023), sobre a necessidade de ampliar o acesso ao aborto legal, ela volta suas câmeras sempre curiosas e sensíveis para um grupo de meninas do Piauí. Filme de abertura da Berlinale Generation, “A Fabulosa Máquina do Tempo” é uma ode à imaginação feminina, que faz o mundo girar.

Começamos com a já conhecida lenda da mitologia cristã sobre Adão ter sido criado a partir do barro e Eva, de uma costela de Adão. Uma das meninas questiona: “Será que as mulheres seriam diferentes se fossem feitas diretas do barro?” Depois, se acalma, porque nem ela nem suas amigas são mulheres ainda.

Na entrevista com as meninas na escola, descobrimos que elas não gostam do ambiente escolar. Uma revela ter o sonho de derrubar todas as escolas! Mas este não é um documentário sobre a vida escolar. É sobre a fabulação da existência de uma máquina do tempo.

Entre si e com os seus, as meninas perguntam como usariam a máquina do tempo. Iriam para o passado ou o futuro? Uma mulher diz que voltaria ao passado e faria tudo diferente.

Foto: assessoria de imprensa

Foto: assessoria de imprensa

Máquinas do tempo existem e são as reminiscências dos idosos. As meninas conversam com uma senhora que revela como era não ter água em casa e ter de buscá-la todo dia num balde. Isso não é um passado tão distante: a mulher revela que só foi ter água em casa em 2013!

Outros questionamentos surgem para além da possível máquina do tempo. As jovens retratadas perguntam, por exemplo, qual a diferença entre ter como filho um menino e uma menina. A mãe questionada não sabe a resposta, mas ao contar que dá mais liberdade para o filho mais velho, a filha concorda porque “ele é homem, ele pode andar para qualquer canto que ele quiser”, com a maior naturalidade.

Da dúvida se “o homem é o gigante da mulher”, ou seja, se o homem deve mandar na mulher, faz-se um filmete encenado pelas próprias crianças.

Nas mentes ainda incorruptas das crianças alguns estranhamentos fazem todo o sentido. Uma das meninas acha estranho ver outras meninas de 12 ou 13 anos se casando com rapazes maiores de idade. A irmã dela foi uma dessas meninas. Ter de escolher entre marido e carreira ainda é uma realidade para muitas, e mais uma vez serve de inspiração no filme para uma dramatização mais divertida que dramática.

Foto: assessoria de imprensa

Foto: assessoria de imprensa

As influências sobre as meninas são tão diversas que juntas elas cantam tanto músicas gospel quanto canções do TikTok. Duas formas de lavagem cerebral, que culminam com uma menina perguntando a Eliza se ela já cometeu algum pecado. Eliza diz, fora de quadro, que não acredita em pecado e tem de ouvir que “então é esse seu pecado”.

Filmado na cidade de Guaribas, no Piauí., o documentário envereda pelos medos das meninas. Uma diz que seu pai já passou fome, mas ela e as outras nasceram “em berço de ouro” porque não lhes falta nada. A expressão contrasta com a aridez do local, que já foi uma das cidades com menor índice de desenvolvimento no país… até que o Bolsa Família mudou tudo. Você negaria um benefício de geração de renda para essas princesinhas?

Aqui vale uma reflexão sobre o papel das igrejas evangélicas na moldagem daquelas mentes e realidades. A maioria das meninas pertence a uma dessas igrejas, que frequentam com seus pais. Acabei de chamar as músicas gospel de lavagem cerebral, mas elas revelam maneiras de ver o mundo que por vezes nós, da esquerda, menosprezamos e não deveríamos. A quem essas meninas deverão lealdade no futuro, na hora de votar: a quem as tirou da pobreza ou a quem lhes deu conforto espiritual? Por isso devemos ocupar esse espaço também na vida das pessoas.

Foto: assessoria de imprensa

Foto: assessoria de imprensa

É curioso que a única figura masculina que aparece é um homem bêbado que fica se enroscando com o cadáver de uma cobra que ele mesmo matou. Isso se você não contar com o Fofão e o Chaves da Carreta Furacão. Em todo caso, todos os homens do filme são uns palhaços.

Se as mulheres querem, na hipotética máquina do tempo, voltar para o passado e mudar seus destinos, as meninas têm um futuro com o qual sonhar. Pode ser um futuro próximo, quando ficarão menstruadas e talvez, como Alice, deixem de se interessar por brincadeiras. Pode ser o futuro expresso naquela pergunta clássica: “o que você quer ser quando crescer?”. De todos os modos, fica a lição: a magia acontece quando deixamos as meninas falarem.


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