Luiza (Salvador, Brasil) — episódio 8
Toco a campainha do apartamento e quem atende é Luiza. Não esperava encontrá-la apesar de ir até sua casa. Primeiro por ainda não…
Luiza (Salvador, Brasil) — episódio 8

Toco a campainha do apartamento e quem atende é Luiza. Não esperava encontrá-la apesar de ir até sua casa. Primeiro por ainda não conhecê-la, e segundo por ter marcado de entrevistar o Paco, marido dela, de quem eu não sabia muita coisa — erro primário de entrevistador. Porém como tudo se justifica, neste projeto tento descobrir cada detalhe do personagem junto com quem nos escuta, ou talvez numa conversa minutos antes de ligar o gravador.
O fato é que o Paco havia descido para me encontrar na entrada do prédio, e eu subido, já conhecendo o número do apartamento. Ele por um elevador, eu por outro, como se estivéssemos em lados opostos de uma gangorra. Um par de câmeras colaboraria com o tom cômico da cena digna de filme, daquelas em que as coincidências parecem muitas e inacabáveis. Nesta dança de eventualidades, há uma que me chama ainda mais a atenção.
Luiza é videomaker e trabalha na sua área de formação em Portugal, enquanto eu ainda busco um espaço no audiovisual por aqui. Ela, na parte mais técnica e visual, eu, na escrita. Enfim, se houvesse alguém naquele espaço para dirigir o desencontro entre mim e o Paco, esse alguém seria ela.
Já de volta, Paco se junta a nós para um lanche. Duas xícaras de café e um pedaço de bolo de cenoura depois, começo a me familiarizar com a história de ambos que, por motivos óbvios, se misturam — numa adequação contínua da vida em casal.
Chegaram juntos há mais de 3 anos, já casados, cada um com a ideia de fazer um curso e com alguns sonhos. Morar fora estava no roteiro de Luiza há certo tempo, Portugal foi o lugar que coube no bolso e uniu passado e futuro.
“Logo de cara, com um mês de namoro, eu falei para ele: Olha têm algumas coisas que vão acontecer na minha vida. Eu vou casar, eu vou ter filhos, eu vou morar fora do Brasil. E isso pode acontecer com ou sem você. Não me leve a mal, tá maravilhoso(…), mas se você quiser ter alguma coisa comigo, isso não vai mudar. Se quiser, vamo junto!”


Ingênua é como Luiza se define ao desembarcar por aqui em 2018. Pensava que um bom currículo, fluência em inglês e conhecimentos em espanhol bastariam para fazer as coisas acontecerem. O trato entre ela e o marido era simples: enquanto um estuda, o outro trabalha para manter a casa. A realidade escondida no sonho europeu se apresentou quando o plano deixou de funcionar.
A impressora de papeis, então, passou a trabalhar para que a Luiza conseguisse um trabalho. Ela distribuiu o máximo de currículos que pôde. Por fim, foi chamada por uma empresa. Faria fotos e vídeos para as redes sociais. A este ponto — acho eu — o mestrado não era mais uma preocupação, já que fora “abandonado” em meio ao isolamento da pandemia.
Durante a conversa embebida de café, eles dizem para eu não reparar na arrumação do apartamento — o já conhecido “não repara na bagunça” do brasileiro. O pequeno e amplo apartamento realmente não é de muitos móveis. É preenchido aos poucos com a paciência de quem começa a trilhar o caminho que deseja. A sala conjugada com a cozinha e o quarto abrigam um “escritório” cada — ficamos com o do quarto por ora, que é onde Luiza trabalha em meio a câmeras, lentes e tripés.

É aqui que Luiza passa boa parte do tempo. Edita fotos, vídeos e prepara os conteúdos para as clientes e redes sociais. Vez ou outra sai e até coloca o pé na estrada. As gravações e sessões fotográficas acontecem também em outras cidades portuguesas, como por exemplo em Guimarães, no norte do país.
“Eu nunca precisei trabalhar fora da minha área aqui, acho que foi sorte, não sei.”
O que Luiza chama de sorte foi a ideia de oferecer seu trabalho praticamente de graça ao início. Enquanto atuava para a empresa, entrou num grupo de mulheres empreendedoras no Facebook e disse algo do tipo: Ofereço um ensaio com 10 fotos profissionais em troca de um testemunho.
Entre elogios e bons resultados, o nó do estranhamento começou a desenrolar-se, de boca em boca, de rede social em rede social. Pequenas adaptações quanto aos preços e relacionamento com os clientes vieram lentamente.
“Dar tempo ao tempo foi o maior aprendizado. Eu sai de um patamar que eu já estava com nome no Brasil, com coisas bem-feitas, e aqui foi do zero. Até você ter confiança, demora um tempo.”


O plot twist (o ponto de virada)
Você se ajeita na poltrona. Vai até a ponta dela e fica de olhos bem abertos encarando a tela. É nessa hora que o enredo de um filme muda totalmente. Perto do fim da história, as direções são trocadas e tudo o que se viu até agora é retorcido. Pois bem, Luiza, apresentada como baiana de Salvador, é na verdade portuguesa!
Não se trata de uma farsa, mas apenas do local de nascença. Filha de brasileiros, ela nasceu aqui mesmo em Lisboa, onde esteve por poucos anos enquanto criança. Entre a partida e o retorno, viveu por diversos pontos de virada, constantes mudanças — desde a Bahia, a região que mais se identifica, até São Paulo, Peru e os Estados Unidos.
Da Bahia não carrega o sotaque marcado, mas a saudade da comida — cuscuz de milho com banana da terra e leite do coco — , da atmosfera e da família.
“Eu queria muito estar aqui durante a semana e chegar num domingo e ver minha mãe, meu pai, minha irmã(…). Eu gosto muito do Brasil, mas é estar aqui que eu quero.”
Valoriza os pequenos aspectos da não tão nova vida, a vizinhança tranquila em Almada, as descobertas do bairro e a riqueza cultural que encontra na margem sul do Rio Tejo. Destaca a biblioteca que faz mostras de cinema com excelentes filmes, por exemplo.
Traça novos planos. Ela e Paco estão de nova mudança, ainda dentro de Portugal. Um novo ponto de virada na própria história, que deve acontecer dentro de alguns meses.
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Curiosidades sobre a Luiza
Músico brasileiro favorito: Caetano Veloso Filme brasileiro favorito: O lobo atrás da porta Filme favorito da vida: todos do diretor Billy Wilder




Confira a conversa na íntegra:
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