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Histórias acalentadas entre bulas e receitas

“Menina, toma esse remédio para não se perder”, disse minha avó Guiomar, aproximando-se com uma cartela com apenas três comprimidos…

Luciana Torreão in Clube da Escrita Afetuosa · 2021-04-06 22:51 · 102 claps · 2.9 min read
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Histórias acalentadas entre bulas e receitas

Desafio 4, do mês de março: Escrever a partir de uma receita médica

“Menina, toma esse remédio para não se perder”, disse minha avó Guiomar, aproximando-se com uma cartela contendo três comprimidos ainda. Minha irmã, que já era estudante de psicologia, observou e ressabiada contou que era um antibiótico, que não podia ser tomado de qualquer jeito. Dando pouca importância ao fato, vovó explicou para qual propósito serviam, mostrando a bula junto com a receita médica, já meio amarrotada, tirada da sua gaveta. E insistia: “Mas esse remédio é muito bom. Toma, para não jogar fora, faz pena”. Certamente, até vencido já estava. Coisas de Guiomar…

O diálogo e a cena emergiram das minhas lembranças, a partir de um achado no maleiro do guarda-roupa de mamãe. Estávamos limpando e organizando o que servia para usar ou doar. Aquele compartimento ainda não havia sido tocado, desde que mamãe falecera, há três anos. Foi quando avistamos, lá no fundo, uma relíquia: a velha maleta de madeira. Era o kit de enfermagem da minha avó, típico dos anos 1940.

Ao abrir, descobrimos um verdadeiro memorial farmacêutico. Receitas médicas, seringas de vidro, garrotes partidos, entre outros apetrechos. Guiomar era uma exímia colecionadora de bulas e receitas médicas. Dizia ela, que guardava para lembrar do nome do médico e a data da consulta, bem como a doença acometida. Toda vez que remexia em suas coisas, ela aparecia na cozinha com alguma reminiscência. Quase sempre, referia-se a algum fármaco.

Vovó tinha sempre à mão uma bula. Indicava remédio como ninguém, fosse pra tosse, coceira ou dor de barriga. Tinha solução para todo tipo de doença, como uma boa hipocondríaca. Chegava com a receita médica, contando com riqueza de detalhes o dia da consulta com o médico fulano de tal. “Esse aqui é que era bom. Já o irmão dele…”, e fazia uma cara de reprovação. “Aquele lá, sabia de nada”, mostrando outra receita. Para ela, doutor bom era o que dizia que ela tinha alguma coisa. Se falasse que ela não tinha nada, não prestava. “Esses médicos de hoje sabem de nada”, disparava novamente.

O melhor desses dias de arrumação do armário de Guiomar era o que vinha junto com as velharias: muitos causos e recordações. Era quando ela esquecia do tempo, sentava em sua cadeira de balanço — que temos até hoje, e recostava-se, balançando despreocupadamente. Sem se importar, ou lembrar o que estava fazendo antes. E desatava a falar sem parar. Começava pelo remédio e terminava em histórias sem fim, que nada tinham a ver com a cura, a doença ou a receita.

Eu ficava sentada no chão da sala, com os brinquedos espalhados, mas ouvia a tudo, atentamente. Até hoje, sei os nomes, apelidos politicamente incorretos, intrigas, chacotas, piadas e fofocas dos indivíduos com os quais ela conviveu. E, aqui em casa, rimos muito dos personagens hilários quando lembramos. Pareciam sair de um livro de contos absurdos, mas era tudo real.

Suas narrativas passeavam desde as aventuras no rio em que se banhava quando era menina, no interior da cidade onde nasceu, passando pelos entreveros que tinha ao longo da vida, até os tempos em que era técnica de enfermagem e auxiliava médico em consultório. Naquela época, ela ainda fazia curativos, aplicava injeções e tomava pressão de parentes e vizinhos. Sabia cuidar como ninguém. Não era médica, mas tinha a cura pra tudo, fosse com remédio, chá, oração ou simpatia.

Ainda na cadeira de balanço, ela relembrava os dissabores vividos pela falta de saúde, ou a que ela acreditava não ter. Sentia todos os sintomas e dores de qualquer doença que alguém descrevesse perto dela. “Eu devo ter isso também”, comentava. Quando minha irmã mais velha era criança, ela soltava essa: “Nem vou ver essa menina crescer”. Não sei de que doença ela padecia, se é que realmente tinha alguma. Só sei que gozava de boa saúde. Bebia muito chá, não tomava nenhum remédio contínuo e viveu 99 anos e 23 dias, deixando filhas, netos, bisnetos e tataranetos, frustrando as expectativas da festa de cem anos. Só pra ser do contra. Despediu-se da vida de forma natural e silenciosa. Foi embora enquanto cantava e dançava. Que saudades das bulas, receitas e histórias de Guiomar…

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