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Nós estamos vivendo o OK Computer

Esses dias eu me peguei pensando sobre OK Computer, que fez aniversário recentemente.

Rodrigo Moia · 2026-05-25 20:04 · 0 claps · 3.5 min read
#music #radiohead #thom-yorke
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Nós estamos vivendo o OK Computer

Esses dias eu me peguei pensando sobre OK Computer, que fez aniversário recentemente.

Quando ele saiu, eu não compreendi muito bem aquilo.

Eu era muito mais próximo do barulho de estádio do Oasis ou até do som mais polido do Blur. O OK Computer parecia frio, estranho, desconfortável. Era um disco que não tentava soar agradável. Não queria te abraçar. Queria te deixar inquieto.

E por isso eu não entendi naquela época e hoje vejo que é tarde demais.

Hoje, eu entendo que o OK Computer é um dos retratos mais precisos da sociedade moderna já feitos.

Talvez seja pesado dizer isso. Talvez soe exagerado afirmar que ele “explica tudo”. Mas existe alguma coisa naquele disco que continua absurdamente atual, ele “fala” mais sobre 2026 do que 1997.

Porque nós estamos vivendo o OK Computer.

Quando ouvimos “Airbag”, por exemplo, existe aquele sentimento de sobrevivência tratado quase como renascimento. Mas é um renascimento paranoico. Você continua vivo, mas continua assustado. Continua sentindo o mundo girar rápido demais ao seu redor.

E não é exatamente isso que a gente vive hoje?

A gente sobrevive.

Sobrevive à ansiedade. Sobrevive à pressão. Sobrevive às notícias. Sobrevive ao trabalho. Sobrevive ao medo constante de não conseguir acompanhar o ritmo do mundo.

Mas sobreviver não significa estar bem.

E aí entra “Paranoid Android”.

Nenhuma música consiga traduzir tão bem o caos mental contemporâneo.

Porque hoje nós pensamos em tudo ao mesmo tempo: contas, família, trabalho, redes sociais, futuro, medo, dinheiro, fracasso e solidão.

A vida moderna virou uma avalanche mental.

Existe uma obrigação constante de performar felicidade, produtividade, opinião e relevância. Você precisa postar, responder, aparecer e existir digitalmente o tempo inteiro.

E isso vai criando um ruído interno gigantesco.

“Paranoid Android” soa exatamente como isso: uma mente colapsando sob excesso de informação.

Quando bate “Subterranean Homesick Alien”, penso muito sobre deslocamento humano.

Porque em algum momento todos nós começamos a fantasiar fuga.

Algumas pessoas fazem isso de maneira leve. Outras de maneira depressiva. Algumas sonham em mudar de cidade. Outras sonham em desaparecer completamente.

Mas existe algo naquela música que fala sobre não pertencimento.

Sobre olhar para o mundo e sentir que talvez você tenha sido colocado no lugar errado.

Para cair em “Exit Music (For a Film)”.

Uma das músicas mais sufocantes já feitas.

E o mais curioso é que ela nasceu a partir do filme Romeo + Juliet, uma história sobre duas pessoas que não conseguem viver o próprio amor por causa das pressões externas.

Mas hoje ela soa maior do que isso.

Ela soa como alguém tentando fugir de um sistema inteiro.

Um sistema que exige produtividade constante. Que exige sucesso constante. Que exige felicidade constante.

Você precisa ser. Precisa entregar. Precisa produzir. Precisa acontecer.

E chega um momento em que tudo isso tira o ar.

E para isso está “Let Down” que hoje representa todo o seu vazio emocional que as redes sociais criaram.

A rotina moderna virou automática.

Acordar cedo. Olhar o celular antes mesmo de respirar. Responder mensagens. Pegar condução. Atravessar a cidade. Passar o dia em um trabalho no qual talvez você nem acredita mais. Voltar para casa destruído. E ainda assim continuar performando presença digital.

A gente nunca desliga.

E por isso existe tanta gente emocionalmente esgotada.

“Karma Police” hoje versava ontem sobre algo que acontece hoje, nosso policiamento invisível.

Tudo precisa ser calculado.

O que você fala. Como você fala. Para quem você fala. O que você curte. O que você compartilha.

Existe um medo constante de errar publicamente.

E isso cansa.

Muito.

Já “Electioneering” tenha envelhecido até melhor do que o próprio Radiohead imaginava.

Porque ela fala sobre marketing político, manipulação e espetáculo.

E hoje vivemos uma época em que mentira virou estratégia de comunicação.

Somos bombardeados por informações conflitantes o tempo inteiro. Todo mundo quer convencer, vender, manipular e converter.

E no meio do funil de tudo isso existe um esgotamento coletivo.

Enfim “No Surprises”.

Aqui que mora o coração do disco e nosso retrato de 2026.

Porque “No Surprises” não soa como revolta.

Soa como desistência.

É alguém cansado demais até para explodir.

Essa é a sensação mais contemporânea possível.

A gente não vive mais apenas o medo. A gente vive o cansaço de ter medo

Um cansaço profundo. Social. Mental. Emocional.

E é isso que faz o OK Computer continuar tão assustador.

Ele não previa tecnologia. Ele previa desumanização.

Teve uma entrevista em que perguntaram para Thom Yorke como era ter escrito, décadas antes, um retrato tão preciso do mundo atual.

E a resposta dele parecia quase desconfortável.

Porque talvez nem o próprio Thom soubesse o quanto aquele disco entenderia o futuro.

E é impossível ouvir o álbum hoje sem perceber isso: nós estamos vivendo o OK Computer.

E sinceramente?

Eu espero que a humanidade nunca chegue completamente em Kid A ou Amnesiac.

Porque se chegarmos, talvez já não sobre mais nada humano dentro da gente.


메타데이터
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