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o fim do mundo no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus

gustavo arranhou a borda plástica da cadeira vermelha na parede gasta e empoeirada, fazendo brilhar no sol do fim de tarde uma pequena onda…

benjamim manoel · 2026-06-06 02:49 · 0 claps · 23.3 min read
#brazil #bars #padaria #contos #distopia
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o fim do mundo no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus

gustavo arranhou a borda plástica da cadeira vermelha na parede gasta e empoeirada, fazendo brilhar no sol do fim de tarde uma pequena onda de poeira e fuligem. no interior do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus, antônio ajustou o nó do avental que puxava seus pelos da nuca, acenou com a cabeça para juca, o gerente, e recompôs-se para voltar ao trabalho. foi em direção à mesa da esquina, onde gustavo esperava ansioso.

não é como se antônio precisasse sequer terminar o trajeto até o cliente para saber de cor o pedido: uma antártica, a mais gelada que o senhor tiver… e vê um varejo do malboro vermelho, também, por favor. gustavo já tinha em mãos o dinheiro exato para pagar os itens que antônio havia decorado, contando com os dez por cento. três acenos de cabeça e pouquíssimas palavras foram suficientes para concretizar o pedido, antônio não passou um minuto inteiro de frente a gustavo.

o chão de azulejos brancos com rejuntes agora-pretos recebia o vai e vem do bar por doze horas todos os dias, exceto às segundas-feiras. como que com hora marcada, chegavam os fiéis clientes no decorrer da tarde. antônio trabalhava das quatro à meia-noite, de terça a sábado, como garçom há nove anos. nunca tinha trabalhado um turno sem a presença de gustavo do início ao fim: quando antônio chegava ele já estava; e quando antônio saía ele ainda estava na quarta saideira.

em contrapartida havia juninho, que passava todo dia depois da igreja para comer uma coxinha (que ele entupia de maionese) e tomar uma dose de pinga antes de voltar pra casa. de efêmera passagem diária também tinham as irmãs santana, não eram irmãs de sangue, eram freiras e acreditavam ter vício em café, apesar de nunca terminarem as xícaras que pediam. claro, o que mais havia no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus eram clientes extremamente passageiros, o que dava aos funcionários tão fixos um ar de sedentarismo, isto é, frente aos nômades consumidores.

no dia em que gustavo pediu sua cerveja e seu cigarro sem nomear nenhum dos itens pela enésima vez, antônio coincidentemente comemorava seu enésimo dia de trabalho no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus. estava perto da hora da saída das escolas e do fim dos cultos e da saída dos trabalhos de horário comercial e da chegada das melancolias que fazia cair os ânimos junto do sol. antônio, frederico e tenório (os outros dois garçons, que coincidentemente também comemoravam seus enésimos dias de trabalho no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus, enfim), os três se preparavam para a guerra popularmente chamada de “hora do lanche” pela maioria da população, e “hora do chopp” para a maioria dos clientes que ali apareciam, frequentemente alargando gravatas e desgrudando-se de suas maletas de couro.

sempre começa aos poucos. de início, às cinco em ponto, tudo está suspenso — a sujeira do asfalto, o suor incessante dos barris de chopp, o óleo fossilizado das fritadeiras. as portas das escolas e das igrejas e dos trabalhos e dos peitos melancólicos se abrem, deixando o vácuo ser preenchido pelo som dos sapatos contra as pedras portuguesas. as caminhadas até o bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus variam de duração, mas até às seis e meia chega todo o elenco recorrente das tristes e entortadas mesas de plástico vermelhas.

para o jantar os clientes costumavam pedir de acordo com o saldo restante no vale refeição, ora um baião de dois ou uma feijoada, ora só um chopp pra enganar a fome. dona rose, uma das mais leais clientes, por exemplo, era a única que parecia não deixar a constante intoxicação de cerveja interferir nas finanças, garantindo sua diária porção de bolinho de bacalhau e seus três chopps. ela era viúva e antônio descobriu que ela contou para frederico que não gostava de estar em casa perto das seis, porque o falecido esposo tinha o hábito de rezar naquele horário e ela jurava escutar a reza dele todo santo dia. ao invés de ir ao psiquiatra, ela preferia sentar-se no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus.

mesmo os clientes que não cultivavam ofensivas de presença diária era conhecidos pelos funcionários, seja por ali aparecerem de vez em quando, seja por habitarem os mesmos bairros ou até por parentesco. era muito raro que aparecesse um sujeito nunca antes visto, que ninguém conhecesse, exatamente como o engravatado que estava degustando um mesmo copo de cerveja desde que havia se sentado. seu terno era todo preto e ele não seguiu a etiqueta demonstrada pelos demais homens, usava um chapéu de couro mesmo sentado no interior do salão, cobrindo os olhos de sombra. estava acordado silenciosamente entre os nativos que o forasteiro deveria ser deixado sozinho.

antônio e tenório, ao contrário de frederico, se esforçavam muito para fugir de julgamentos infundados e presunções sobre a vida alheia, ainda mais recebendo dinheiro para, em parte, incentivarem aquelas vidas a consumir comes e bebes no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus. o colega frederico, por outro lado, já contava com um repertório extenso de “poses facilitadoras da fofoca” que ia desde escorar-se na parede próximo à fonte (ele jurava que passava despercebido — não passava) até fazer o cliente acreditar que foi escolha própria derramar todas as suas mágoas ao garçom. infelizmente, não havia nada que antônio ou tenório pudessem fazer para que não escutassem os babados trazidos por frederico — não que fossem feitas muitas tentativas.

naquele crepúsculo úmido de final de abril, havia mais movimento que o esperado no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus. mesmo para a alta demanda costumeira, aos poucos esgotaram-se as cadeiras vermelhas (obrigando os garçons a colocar engradados vazios em volta das mesas restantes) e foi preciso mandar o cozinheiro wesley ao mercadinho da esquina, para comprar mais frango empanado e batata frita. não era sexta, sábado ou domingo, não tinha jogo de futebol, nem copa, nem eleição. o povo lotou a calçada e o salão para assistir ao jornal.

a guerra entre os estados unidos e israel e irã escalava a cada dia, cada hora. com smartphones em mãos, acompanhando quase tão de perto como fazia com o big brother, a população observava os escassos respingos do conflito no brasil virarem verdadeiras cachoeiras, inundando todas as esferas da vida do brasileiro. o barril do petróleo estava custando duzentos e oitenta dólares, o estreito de ormuz seguia interditado, a ureia utilizada nos fertilizantes nitrogenados não saía do golfo, a cada notícia a sentença do brasil ficava mais evidente.

o desdobramento mais recente e mais chocante foi a resposta russa à estratégia dos eua e israel de “acabar com a influência russa na síria”: a emissão de um ultimato — “qualquer avanço adicional das forças da coalizão em direção às fronteiras do cáspio resultará em uma resposta técnica assimétrica”. ela foi seguida de outra notícia igualmente perigosa: israel ignorou o anúncio (como era de se esperar) e, meras duas semanas depois, a rússia lançou um míssil hipersônico contra a base aérea de nevatim, no deserto do negev. na hora do impacto, porém, um erro de cálculo fez com que o pulso eletromagnético da explosão desativasse a rede elétrica de metade de Israel, paralisando hospitais e a defesa civil e mobilizando intensamente a direita estadunidense.

a radiação contaminou toda a ásia ocidental, reduzindo drasticamente a circulação global de alimentos e biocombustíveis. o brasil, como país de proporções continentais, é posto no palco da exportação desses bens e se vê entre a cruz e a espada: de um lado, os eua exigem exclusividade na produção agrícola brasileira; de outro, a china interfere em nome da rússia, exigindo o cumprimento dos contratos originais com o brics. no presente dia, o governo brasileiro anunciou, por volta das quatro da tarde, que permitirá a instalação de um centro estadunidense de monitoramento de satélites e comunicações submarinas no rio de janeiro. nenhum veículo jornalístico divulgou qualquer outro desdobramento desde a promessa do governador, dando a sensação inevitável da calma antes da tempestade.

localizado nas imediações da praça mauá, o bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus dividia os muros laterais com dois postos: um de gasolina à esquerda e um de saúde à direita. na calçada em frente, três farmácias e uma barbearia (que também funcionava como estúdio de tatuagem). era uma rua tranquila, ouvia-se buzinas de barcos nas tréguas do trânsito terrestre, alguns sobrados ainda habitados lançavam no ar risadas de criança e música alta. era quase uma travessa, a maioria dos carros não passavam sem invadir o meio fio, é que na placa constava como rua. rua tal que se encontrava muda frente à respiração entalada no peito de todo o brasil.

antônio dava giros e piruetas para dar conta de todos os clientes naquele dia, tentando conter todas as ansiedades com o máximo possível de cerveja — servia os copos quase transbordando, distraindo-se da guerra com os bigodes de espuma que tomavam os beiços sedentos. gustavo estava batendo o pé e fitava o chão, tímido por ter cedido dois lugares de sua mesa a uma dupla de jovens desconhecidos. juninho segurava o copo de pinga com força, embranquecendo as juntas dos dedos, enquanto devorava sua coxinha em poucas gigantescas mordidas. as irmãs santana não haviam fechado a conta após os cafés como de costume, pelo contrário, pediram mais um para cada e fixaram o olhar na tv, sem suas usuais conversas. dona rose já tinha passado do terceiro chopp e rezava o terço entre goladas. o forasteiro parecia ser o único dentro do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus relativamente desinteressado, mantendo a aba do chapéu cobrindo os olhos enquanto cutucava os dentes com um palito.

faltando mais de meia hora para começar o jornal, o infeliz tema do plantão extraordinário invadiu o salão e, conforme as conversas morriam, alastrou-se para a calçada. acompanhando a vinheta, somente o eventual arrastar de uma cadeira ou engradado, a fins de promover melhor visão da pequena tv, que ficava empoleirada próxima ao ventilador engordurado. o repórter que apareceu na tela era desconhecido, moço, não aparentava ter mais de quarenta anos. ele vestia uma camisa social cinza adornada por extensas manchas de suor, suas mãos tremiam o microfone e os lábios recitavam nervosos o teleprompter: “atenção, brasil, isso não é um teste. atenção, isso não é um teste. a abin ativou o protocolo de emergência radiológica. repito, protocolo de emergência radiológica. busque abrigo em estruturas de concreto armado ou subsolos. afaste-se de superfícies de vidro. prepare kits de sobrevivência. reúna água potável e comida. isso não é um teste.” a imagem do repórter foi substituída pelo exato texto lido por ele, cruzando a tela com caracteres enormes, legíveis à distância.

uma manada de pessoas em pânico tomou a estreita rua do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus, era a aglomeração de todos os estabelecimentos esvaziando simultaneamente. crianças foram erguidas nos cangotes, ônibus foram abandonados no meio das avenidas, pombos foram pisoteados e poupados de um fim radioativo, mercados foram saqueados, carrinhos de milho e água de coco correram soltos na orla, bancas tiveram o estoque de cigarro quase que desaparecido em poucos segundos, os únicos lugares que ficaram inteiros foram os bancos — por algum motivo, pareciam ter sido avisados antes, pois antes mesmo de acabar a fala do repórter, já haviam sido descidas as portas de metal de todas as agências. enquanto a maioria corria desgovernada, algumas poucas pessoas estavam paralisadas, tentando raciocinar ou tentando esquecer tudo aquilo que haviam acabado de ouvir.

antônio precisou levar dois tabefes de tenório para sair da própria paralisia, sentindo o ardor nas bochechas como sentia o calor do café garganta abaixo. a tv começava a alternar entre a mensagem de emergência e a tela azul escrito “no signal”, emitindo um som alto como um monitor cardíaco num defunto. olhando em volta, antônio foi surpreso pela presença de seu raimundo, o dono do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus que morava num sobrado acima do estabelecimento. seu raimundo carregava uma espingarda e um molho de chaves que parecia destrancar todas as fechaduras feitas desde os anos 1900s, porém o chocante para os funcionários que sobraram (frederico havia partido antes do tema do plantão concluir) era que estavam vendo pela primeira vez o branco dos olhos do chefe, antes obstruídos pelas sobrancelhas pesadas e seu sorriso largo. tenório começou a chorar e ajoelhou-se.

“ô, antônio, como se reza o pai nosso, mesmo?” ele perguntou espiando por trás dos olhos que havia cerrado para a oração.

“levanta, homem!” seu raimundo bravejou. “antônio, tira esses fumantes da calçada, dá um cinzeiro pra cada e desce com eles mais o pessoal todo pro depósito.” ele deu uma lanterna para cada funcionário. ligeiro, o garçom reuniu os prisioneiros do malboro como faz um pastor com seu rebanho e distribuiu oito cinzeirinhos de alumínio na mão de cada um. seu raimundo fez um gesto com o truculento braço e conduziu a boiada escada abaixo.

havia no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus um porão estreito, que abrigava restos de uma adega secular, da época colonial. isto é, tinha exatamente um século quando seu raimundo comprou a propriedade. ele mandou instalar prateleiras nas paredes e um freezer vertical no fundo, livrando-se dos equipamentos e apetrechos usados para armazenar centenas de garrafas de vinho. longe dele ficar com algum vinho, “aquilo lá tava tudo podre, mulher!”, ele explicou à esposa quando ela perguntou quanto valia aquela bebidarada toda. ela ficou furiosa, mas não conseguia contrariar o marido, que acreditava estar lucrando ao jogar todo aquele vinho envelhecido fora.

em fila, seu raimundo, tenório, os nove clientes e antônio desceram as escadas íngremes até o depósito. tenório começou a contar os galões de água, anotando em seu bloquinho a quantidade de litros. os clientes — entre eles gustavo, juninho, as irmãs santana, dona rose e o forasteiro — se aglomeraram num canto, certamente amedrontados, mas não mais que os garçons. carregar nas costas a salvação do cliente era normal para antônio e tenório — quando se tratava da garantia de um bom prato, uma cerveja gelada ou a promessa da anestesia alcóolica. assegurar o bem maior a quase uma dezena de pessoas em meio a um ataque nuclear carrega mais peso, argumentaria antônio, do que entregar um bom baião de dois. como se antônio, tenório e seu raimundo fossem mais aptos a lidar com um desastre nuclear por trabalharem ali e estarem cumprindo seus expedientes. a pequena autoridade dos garçons e do dono se engrandeceram demais.

tenório dividia com seu raimundo um esquema para racionar água e comida para aquele grupo, dona rose ainda chorava enquanto navegava por suas memórias fotográficas, pequenos vídeos que o smartphone monta sozinho: fotos dos netos, dos filhos e, de vários ângulos, seus cocôs mais recentes, fotografados a pedido do gastroenterologista. antônio explicava para juninho que não, não era possível fritar coxinha sem uma fritadeira. o forasteiro ficou quieto, um pouco excluído, não buscou conversa, enrolava cigarros sem acendê-los, reabastecendo sua cigarreira. naquele contexto, ninguém estava em posição de julgar nada, que se escafeda a etiqueta e o socialmente aceitável.

foi nesse instante que houve a explosão.

a frágil porta do bar deixou penetrar uma luz extremamente brilhante que carrega uma radiação tão pura, tão branca que parece sólida. o reflexo de todos foi o mesmo, cobrir os olhos com as mãos. por um milissegundo, antônio pôde ver os ossos de seus dedos através da carne da retina e da mão, a pálpebra e a palma ganharam um aspecto de vidro fumê, permitindo que a luminosidade nuclear atingisse o fundo de seus olhos, golpeando as retinas. mesmo passado o flash de luz e o milissegundo, os olhos sobrecarregados exibiam a imagem residual de seus ossos, e antônio gritou, sentiu-se gritar, pelo menos. não conseguia enxergar nada, nem as chamas dos cigarros que insistiam em queimar mesmo jogados no chão.

ao redor do depósito, logo acima das prateleiras, as lâmpadas explodiram, lançando cacos finos sobre as doze pessoas agachadas e deitadas e ajoelhadas pelo chão. todos tiraram os celulares dos bolsos, os aparelhos estavam fritando contra as coxas e nádegas, cada micro componente estourando feito pipoca. o freezer parecia ter desligado, também, seu ronco secular havia cessado. na calçada, ao longe, os postes se apagaram e a noite revelou sua presença. noite sem lua, breu. então, um som abafado e extremamente alto encheu o ambiente, escurecendo ainda mais o pequeno cômodo, se é que fosse possível. o porão inteiro começou a vibrar, dava a impressão de estar atordoado, dentro de um sino que insiste em badalar. os ouvidos do grupo se arrebentaram violentamente com o súbito aumento da pressão atmosférica, eles pararam de ouvir os gritos uns dos outros, ainda que suas gargantas doessem com onomatopeias apocalípticas.

o mundo lá fora estava totalmente estático, mudo e preto. poucos segundos passaram feito uma eternidade, o breu pregava peças, criava objetos, pessoas e ameaças e exibia ossos nas retinas queimadas. não era possível confirmar se estavam enxergando com os olhos abertos ou fechados, dentro de tamanha escuridão. para comprometer ainda mais seus sentidos, o chão parecia ondular, ao contrário da tremedeira que a maioria tinha no imaginário de uma explosão nuclear. os poucos que haviam ousado ficar de pé foram empurrados contra as paredes e contra os corpos encolhidos, o ar foi tomado de poeira e cal dos velhos sedimentos da construção. o pó pesava contra suas peles. houve ainda um calor inesperado, não o fogo da bomba, vinha da porta e aumentou a dificuldade de respiração. foram tomados por náuseas, alguns vomitaram, uma pessoa desmaiou — não souberam quem foi, alguns nem souberam do desmaio, só os que estavam próximos ao corpo o seguraram e tatearam até acharem as bochechas, dando tapinhas.

aos poucos os gritos foram ouvidos novamente, junto de gemidos de dor e lamento, até que cessaram um a um. só se ouvia as respirações ofegantes. as pupilas simulavam o breu ao redor, ainda irritadas pela radiação luminosa. os zumbidos persistiam, atrapalhando o estado de alerta necessário para aquele momento. seu raimundo levantou, se apoiando nos ombros de antônio e tenório para tal, o que fez os dois garçons pularem de susto, não tendo visto o chefe se aproximando. seu raimundo pôs-se a subir as escadas (não muito rápido, por causa da barriga estufada e do coração entupido), determinado, quando soltou um grito agudo e desceu correndo: “ninguém vai perto da porta! tá fervendo!” anunciou ele, ainda no escuro.

alguns tentaram iluminar o ambiente com a chama de seus isqueiros para entender o que estava acontecendo. só haviam ouvido (muito mal) os passos pesados subindo os degraus e voltando correndo, quase voando. antônio e tenório acenderam as lanternas — das antigas, que não têm circuitos eletrônicos e, portanto, seguem funcionais — e seguiram o corpo de seu raimundo com os feixes amarelos até o último degrau, sentado.

“seu raimundo! fique parado, venha pra perto da gente, pelo amor de deus!” ele implorou, seu raimundo bufou. “seu raimundo, por favor! seu coração, você não pode passar estresse, e eu chuto que uma bomba atômica é uma situação um pouquinho estressante. além do mais, tua esposa vai brigar com você quando chegar em casa!” apesar de se perguntar se a esposa do homem estava sequer viva, a ameaça rendeu uma mirada ácida na direção de antônio. não importava, ele apenas suspirou aliviado vendo o patrão se sentar no final da escada.

conforme seus olhos foram voltando ao normal, sob o amarelado rebote das lanternas, tenório apontou para a fonte de calor e antônio viu que a textura da porta não era a que ele conhecia, essa era totalmente lisa, estava limpa e parecia, inclusive, ter entortado um pouco para dentro, conforme denunciado pelas bordas em gruminhos da estrutura metálica. parecia uma rolha. a porta que antônio conhecia era incrustada de ferrugem, parecia uma folha de tão fina e abria facilmente. com aquela coisa entupida na moldura da porta, a saída estava bloqueada.

“voou alguma coisa quando as lâmpada ‘espruderam’! eu vi vindo, mas só até essa joça dessa luz me cegar! depois, só senti calor. num sei de onde veio, se é aquelas grade de loja, material de construção… parece não ter muito mais altura que a porta…” explicou seu raimundo. tenório chegou o mais perto possível sem se queimar, só quatro degraus pra cima, e examinou toda a estrutura meticulosamente. ele ficou uns minutos aproximando e afastando a lanterna, como quem procura um milagre. “não tem nada, tenório! é só uma placa de metal, desiste-”

“ó! ali, ó.” tenório virou para os amigos, sorrindo, depois voltou a lanterna para a entrada bloqueada e continuou a ler: “‘lixo hospitalar’… tananã, tananã… ‘perigo’… ‘inflamável’.”

“é parte de um contêiner de lixo hospitalar.” o forasteiro revelou, a voz vinda de pertinho fez o trio do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus dar uma engasgada de susto. ele continuou: “eu trabalho em navio de carga. já vi muitos assim. são feitos de chumbo.”

“ha!” exclamou juninho, logo depois arrotando uma mordida de frango e maionese que desceu junto do tema do plantão. “chumbo previne radiação! estamos salvos.”

“eu não quero passar o resto da vida num depósito podre!” interferiu dona rose, quando conseguiu parar de soluçar. ela tremia como se estivesse nua no meio da neve.

“mais respeito com meu depósito.” seu raimundo resmungou. “essas parede, podre como a senhora diz, foi todas construída com óleo de baleia e têm uns dois metro de espessura. os homi da construtora que me ajudou, quando comprei e fundei o bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus, contou que era um negócio colonial, que pra tirar ia ser uma dor de cabeça e perigava da baía invadir em uns anos, sem a gordura junto da pedra. ia me custar uma grana e os rapaz não tinha essas frescura que tem hoje, de adicional disso, indenização daquilo, rh… ia matar os pedreiro tudo fazer esse trabalho no tempo que tinha. deixei como tava.”

“puta que pariu!” gustavo, no fundo do porão, exclamou e jogou as mãos para o alto. “caralho, porra, que alívio.” os onze rostos viraram-se na direção da voz dele, confusos. perante o silêncio, tentou se justificar: “pô, galera, se a parada é ameaça nuclear, eu tô adorando estar numa latrina blindada por chumbo e à prova d’água.”

“adorar, somente a Deus.” repreendeu uma das irmãs santana, jogando o lado esquerdo do véu por cima do ombro. sua semelhante concordou com a cabeça e exalou uma longa nuvem de fumaça, oficializando-se como sendo a primeira pessoa a acender um cigarro depois de uma explosão nuclear — o recorde de abstinência foi de sete minutos.

“me poupe, dona.” gustavo ousou, sentindo picos de adrenalina — não só não pela explosão atômica que aconteceria a qualquer momento, mas por estar de deboche com uma freira. aproveitou, entretanto, o exemplo da irmã fumante e acendeu seu próprio cigarro. estalos de isqueiros e o baixo brilho laranja de suas chamas gradualmente manifestaram-se pela extensão do depósito.

isolados embaixo da terra, o turbilhão de sensações invadia e confundia os sentidos, juninho e dona rose sentavam lado a lado, as coxas encostando (um flerte clássico, famoso por sua alta taxa de sucesso entre crianças no jardim de infância); as irmãs santana puseram-se a rezar, mas volta e meia uma delas abria um olho discretamente, esperando ver mais que escuro com respingos de cigarros acesos. elas se decepcionaram todas as vezes. nem os fumantes, conhecidos por engajar rodas de conversa enquanto houver fumaça, se juntaram. estava tudo muito escuro, a adrenalina estava baixando, o medo aumentando. o porão encontrou-se novamente no silêncio.

e em silêncio sobreviveram aquelas doze pessoas, racionando água e comida, fazendo contas, orando, jogando baralho (claro que seu raimundo tinha baralhos em todos os cômodos do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus). seres humanos serão seres humanos, pessoas serão pessoas. cada um teve o tempo entregue a si, histórias de vida foram recitadas e declamadas, contenções foram necessárias durante surtos de raiva, tristeza e desesperança, dormiam numa enorme conchinha todas as noites, fugindo do frio. em dado momento, perceberam que se conheciam mais intimamente do que às próprias famílias.

4 MESES DEPOIS

as personalidades se adequaram à quietude do inverno nuclear que avançava impiedoso — as superfícies do porão, as paredes, o chão, as prateleiras, a escada, tudo esfriou conforme o tempo passava. não sabiam quanto tempo, contavam não dias, mas galões d’água. a máquina de fumaça, isto é, os fumantes haviam causado a formação de uma neblina permanente, espessa e cinz’azulada, de forma que as lanternas só enxergavam dois palmos à frente. do encontro das paredes com o teto vazava o que só se podia assumir ser o bendito óleo de baleia, suando uma substância que parecia uma cera e cheirava tão mal quanto o beco no final da rua.

todos os clientes já tinham tido tempo pra se conhecer. sim, se conheciam, se aqueciam, escutavam. mas o ambiente não era nada favorável para tal, era escuro e frio e úmido e fétido pela combinação de tantos odores de comidas diferentes. tornou-se necessário, desde o dia zero, um enorme esforço coletivo para manter a atmosfera amigável. tudo era extremamente frágil naquele porão, uma palavra sussurrada, uma sílaba tônica puxada demais para o agudo, um pisão no pé de outrem, tudo isso poderia levar à ruína do pacifismo.

o frio queimava as peles, foi preciso descartar certos produtos para usarem as embalagens de papelão, papel e plástico como aquecedores. de noite na grande conchinha ficavam em silêncio, enfiando pés entre gordurinhas alheias, sonhando a mesma coisa em muitas cabeças, abraçando ex-estranhos com muita cumplicidade (quase-amor). seu raimundo notou, no dia que acabou o vigésimo segundo galão, que o estoque de cigarros já estava com um terço do que tinha no dia da explosão. não fez alarde, não avisou a ninguém. ele não era fumante, mas sabia do poder e da intensidade da ira dessa estirpe de adicto, quis evitar o desespero. certamente aquele povo ficaria mais afetado pelo fim do fumo do que pelo fim do mundo.

o tempo avançava como faziam os fumantes pelos maços, a tensão que os acompanha desde o início já vinha crescendo ante ao contexto de sobrevivência; agora é palpável porque se manifesta no cinz’azul das tragadas repetitivas. a comida não era exatamente um problema, na verdade estava mais para um quase-problema, um ainda-não-configura-problema. as latas de atum foram as primeiras a acabar, depois as sardinhas, finalmente só os restava anchovas e ovos em conservas de cores duvidosas, que pela baixa demanda da clientela ficaram esquecidas em seus enormes potes herméticos de vidro. a água, por outro lado, era bem abundante, graças a deus — seu raimundo tinha um generoso estoque, além de que, nos primeiros meses, todos acabaram por preferir beber as cachaças envelhecidas, os vinhos baratos, a cerveja — cuja temperatura era tolerável graças ao frio que, por sua vez, era absolutamente intolerável. era curioso o afunilamento das preocupações fazer um indivíduo pensar na temperatura da cerveja que bebe enquanto sobrevive ao fim do mundo.

ninguém tinha agasalho, casaco, calça etc., era verão no dia que tudo acabou. o silêncio reinava pela maior parte do tempo. os fumantes assopravam suas nuvens, que os cobriam por inteiro, servindo de disfarce. o ar, inerte, só era movimentado pelas exaladas leitosas. os não-fumantes encontraram um canto atrás de uma prateleira onde (passivamente) fumam só meio maço por dia, ao invés de um inteiro caso permanecessem no primeiro canto que assumiram logo no início, nem uma semana depois do dia do fim. era assim que eles passaram a se referir ao passado deles, como algo que começou muito pontualmente e da mesma forma foi estraçalhado em milissegundos, com data, hora e causa da morte de uma sociedade inteira. causa tal que era pouquíssimo conhecida e muito especulada sobre, afinal, eles só viram o mundo esfriando, graças à porta de chumbo.

então, quando as esperanças já haviam sido estraçalhadas; os maços agora totalmente racionados — mesmo assim a nuvem cinz’azul não deixa de receber mais fumaça. os ovos e anchovas em conserva ofereciam mais o líquido do que pedaços, os mais saborosos — ou menos piores — já comidos por eles. estavam todos em silêncio, esgotados, olhando para o nada. as pupilas estavam acostumadas com o breu e era possível enxergar o contorno geral das coisas num tom um pouco azulado, como a fumaça. cada dupla estava acomodada em um determinado canto, eles sabiam pelo som que denunciava os espaços ocupados. de repente, ouviram um barulho vindo de cima.

de início não pensaram nada, vento, caiu alguma coisa, um bicho radioativo. logo em seguida, porém, houve mais um som: de uma porta se abrindo. quem estava mais perto do barulho se afastou rapidamente, topando nas prateleiras e nas outras pessoas. alguém fez “shhh!”, todos se arrastaram para o canto mais longe da porta, esperando algo horrível, mais uma bomba, um ataque, um roubo… três batidas fortes na parede de chumbo arrancaram gritos do grupo, o silêncio indo por água abaixo.

“estamos aqui!”

“aqui embaixo, por favor!”

“socorro!”, dentre outras súplicas e apelos, os abrigados não escutavam mais uns aos outros, nem viam a fumaça, nem contorno de nada. derrubaram um pote de ovos cor-de-rosa, de beterraba, só uma pessoa percebeu porque o líquido inundou seus sapatos. lá do outro lado do chumbo os barulhos e clangs e rangidos e croc, assumia-se, claro, que era a tentativa de resgate. mas não ouviam vozes nem passos.

as coisas foram estagnando devagar, os sons espaçados num intervalo quase constante, ainda assim nada concreto de fato acontecia, a placa de chumbo não se movia, o cigarro estava acabando, a cerveja estava muito morna, os ovos de beterraba no chão, os favoritos das irmãs santana. o cansaço, o esgotamento ainda estava ali, na face de cada um deles. deveriam ter envelhecido 4 anos no tempo que ficaram embaixo da terra. o silêncio retornou, morno, também.

um bom tempo passou, tudo ficou bem igual salvo os barulhinhos e tec-tecs aqui e ali. gustavo jogou um maço vazio no chão, sinalizando que mais um havia acabado. alguns suspiros foram ouvidos, gustavo tem quase certeza que ouviu um “porra, mano” bem baixinho, mas não soube identificar o dono da voz. deixou pra lá. abaixou-se e puxou um novo maço da agora pequena pilha, identificável pelo contorno das caixinhas e pelo barulho opaco que faziam quando eram pisoteadas ou chutadas.

de repente, todos sentiram uma pressão imensa nos ouvidos e nos seios da face, muitos urraram de dor enquanto escutavam uma frequência aguda como jamais haviam escutado. a nuvem de fumaça azul foi remexida e pôs-se a correr em direção à placa de chumbo. o ar foi ejetado para fora, de encontro a um frio lancinante. a respiração ficou difícil por um momento, sentiram como se os peitos tivessem sido esvaziados abruptamente, e a inspiração era trêmula e dolorida por causa do frio extremo.

mais forte do que qualquer alcatrão ou nicotina, o ar do lado de fora arranhava a garganta de todos, impiedoso. após muitas tosses e pigarros, cuspes fartos no chão do porão, que agora se iluminava aos poucos, conforme era levantado o contêiner de chumbo. a luz também era violenta, invadindo o âmago das pupilas que por meses só viram escuro. visualmente, parecia que haviam sido atacados com gás de pimenta, os olhos vermelhos e lacrimejando; com uma tosse seca que insistia em voltar; tampando seus rostos.

o ar gélido se misturava e dançava com a enorme nuvem de nicotina que ainda saía do porão, do lado de fora formava quase uma cena cartunesca, uma nuvem escura no meio do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus, esperando para chover em alguém. quando uma boa fresta foi aberta, viram as paredes engorduradas e os primeiros degraus da escada que haviam descido para se proteger. de repente, foram arremessadas máscaras de gás, muitas mais do que eram necessárias, e vozes abafadas gritavam “COLOQUEM AS MÁSCARAS!”, “COLOQUEM AS MÁSCARAS IMEDIATAMENTE!”. assustados, todos obedeceram.

as lentes verdes dos equipamentos ajudavam um pouco o baque da luz. o container se levantava devagar, puxado por algum tipo de máquina. eles viram que o bar estava absolutamente destruído logo da escada para baixo, que o container havia se despedaçado e protegido não só a eles, como à saída do porão. um a um eles foram retirados lá de dentro, com ajuda do que pareciam ser bombeiros, mas… bombeiros nucleares? usavam um EPI pesado, eram absolutamente irreconhecíveis debaixo das camadas de proteção. e lá estavam os ex-abrigados, saindo de shortinho jeans, regata mamãe-to-forte e salto scarpin para adereçar suas máscaras de mosca.

individualmente foram cobertos com um enorme corte de lona, não sabiam se para evitar o máximo de radiação possível, ou se para evitar que a radiação deles se espalhasse. foram colocados ao lado de uma ambulância vazia, que examinava seu raimundo, o que mais fora afetado pelos ataques de tosse. frederico estava ao seu lado, enquanto antônio estava agachado no meio da lona, observando os joelhos e sapatos dos seus colegas de catástrofe, respirando ofegante. ele se perguntava quantos mais não estavam em pânico.

dona rose estava agradecendo por ter sido salva em rezas murmuradas, agradecia também que o marido já havia partido e não precisara presenciar esse desastre. juninho estava ao seu lado, claro, segurando sua mão e passando a ponta do indicador na ponta do dela, que estava quase necrosado pelo frio. as freiras estavam abraçadas, pareciam estar meditando, provavelmente rezando (o que não anula a meditação). o forasteiro estava claramente desconfortável com a proximidade, havia se mantido em cantos e sombras e subitamente estava metido num cobertor grosso e barulhento de lona, espremido entre as pessoas de quem passara as horas desdenhando silenciosamente.

quando todos já estavam fora do porão, os equipamentos soltaram o container com um barulho estridente, porém grave, que pareceu assentar parte da poeira. a nuvem de nicotina estava quase dissipada, mas ainda formava uma camada azul insistente por um largo pedaço de céu.

“estou suando.” anunciou dona rose, meio de repente, a voz trêmula. “por que estou suando se está um frio de doer os ossos?”

“deve ser o choque, rose…” contrapôs juninho, querendo beijá-la agora que podia enxergar seus belos olhos repuxados.

“não, junior.” ela rebateu, um pouco brava. “eu não suo quando estou nervosa. suo quando tenho calor, oras!”

“muita gente sua quando está nervosa…” juninho tentou novamente, sem sucesso:

“alguém mais está com calor?!” dona rose bradou, em alto e bom som. silêncio. de novo o maldito silêncio.

“eu estou.” o forasteiro anunciou, e tomou a liberdade de desfazer o amontoado, saindo do cobertor. rapidamente um bombeiro-nuclear se aproximou.

“ei, ei, volte para lá. vocês precisam se aquecer e ficar longe da radiação.”

“eu estou bem aquecido, meu chapa. o senhor não está suando um pouco nessas roupas pesadas?”

“é, agora que você fala… ô, pedro! vem cá, vem cá.” ele gesticulou para um colega, que veio a passos largos.

“fala, chefe.” pedro se apresentou, ofegante.

“você está com calor, pedro?”

“eu.. sim, chefe, estou.”

“vá conferir os outros. use o dosímetro, pedro.”

“sim, chefe.” pedro deu as costas, tirou o dosímetro do cinto e o bip-bip-bip começou a ecoar pelas ruínas do bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus.

poucos minutos depois, os bombeiros-nucleares estavam congregados numa roda aparentemente muito séria de conversa, o grupo os encarava de rabo de olho e tentavam coletivamente se aproximar (ainda estavam enrolados na lona). os bombeiros também olhavam para eles, claramente através dos movimentos das máscaras, e voltavam a conversar. conforme as vozes subiam, também gesticulavam, ansiosos.

“pessoal, olha!” alertou gustavo, apontando para um pequeno vão onde o container deveria estar prensado. “ainda está saindo fumaça…” do buraquinho subia constantemente uma fina porém potente fumacinha, bem cinza mesmo, e cheirava a alcatrão.

aos poucos, o céu que estava claro escureceu, as nuvens brancas do inverno nuclear foram ofuscadas pela enorme massa cinzenta que era a nuvem de fumaça-malboro, saindo aos poucos dessa fresta no bar Café, Bar e Padaria Santa Teresinha do Menino Jesus. gustavo olhou para cima, a vista agradecendo a iluminação escurecida, sentou-se numa cadeira de plástico (duas haviam sobrevivido). ele arranhou a borda plástica da cadeira vermelha na parede gasta e empoeirada, rachada, quase-caindo e acendeu um cigarro.


메타데이터
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