breves comentários sobre Ringue
Ao contrário do que diz a mídia burguesa, o esporte sempre foi um ato político. Das histórias de superação que inúmeros atletas…
breves comentários sobre Ringue

capa de Ringue, publicado pelo Estúdio MolotovHQ
Ao contrário do que diz a mídia burguesa, o esporte sempre foi um ato político. Das histórias de superação que inúmeros atletas protagonizaram antes dos pódios até seus posicionamentos e ações após se tornarem pessoas públicas, a história da prática do desporto sempre foi marcada por episódios de contestação à ordem social que estrutura as opressões que seus povos sofreram ou ainda sofrem. Um atleta palestino segurando a bandeira de sua nação nas Olimpíadas de 2024, por exemplo, diz muito mais sobre nosso mundo do que qualquer coletiva de imprensa. No entanto, as últimas décadas têm sido marcadas por um esforço cada vez maior dos grandes meios de comunicação em apagar esse caráter questionador do esporte, tentando resumi-lo à mera busca para descobrir “o mais rápido, mais alto e mais forte”. Batendo de frente com essa tendência, temos “Ringue”, de Victor Zanellato, Diogo Mendes e Fernando Dias.
Em seu único volume, temos a história de Luis, um trabalhador de Guaribas (PI) que decide levar sua filha para São Paulo para que, assim, ela tenha a chance de “sonhar em ser o que quiser”. Durante o caminho, ele não consegue nenhuma oportunidade de emprego, se vendo na necessidade de conseguir dinheiro em um ringue de boxe clandestino em um latifúndio, como forma de alcançar a cidade grande. Sem nenhum atributo especial, além da própria resistência do corpo, Luis vai sendo exposto a uma série de violências físicas e psicológicas por parte de quem aposta em suas vitórias, algo que inevitavelmente resultará em tragédia.
Como é perceptível, a obra faz um paralelo com a história dos milhares de migrantes que se deslocaram para São Paulo, em busca de melhores condições de vida, mas que ficaram no meio do caminho. Os próprios autores, inclusive, são descendentes de trabalhadores nordestinos, e há um esforço ativo dos mesmos em localizar a comunicação dos personagens que acompanham as lutas de Luis. Ainda assim, há algo de interessante na escolha do boxe como pano de fundo para a história, já que por muitos anos esse esporte foi um dos que melhor encapsulou a luta dos oprimidos em ascenderem socialmente, sem se deslumbrar com essa mesma indústria que os jogou na marginalidade, inspirando obras de alcance mundial como “Ashita no Joe” (1968) e “Rocky O Lutador” (1976). Importante destacar que o boxe também possui um estreito laço com a luta antirracista, tanto pela atuação de atletas como Muhammad Ali ou Mike Tyson como pelas muitas academias autônomas que educam e protegem a juventude negra das periferias.
De volta à análise do enredo, o que mais prende a atenção do leitor é a relação entre Luis e Fernanda, sua filha, já que a dor da garota é justamente o quanto nossos pais ou responsáveis são forçados a se sacrificarem para que nós, a futura geração, tenhamos alguma perspectiva de futuro; e se nós não deveríamos aceitar o pouco que temos para impedir que eles sofram ainda mais. Um questionamento difícil, e que muitas vezes denuncia as violências que não tivemos que ver ou sentir na pele. Luis pode parecer um tanto plano em sua convicção de continuar lutando, mesmo percebendo o abismo de poderes presente no latifúndio, mas é basicamente a jornada de um trabalhador apostando todas as suas fichas na única porta que foi aberta para sua filha, sem chance de voltar atrás. É como se ver no espelho de toda a nossa classe.
A arte do projeto também é digna de nota, em especial pelo contraste das expressões faciais de seus protagonistas, cuja inocência vai se tornando mais difícil de preservar a cada pancada. Apesar das lutas serem rápidas, os ferimentos conseguem transmitir o desgaste de Luis, conforme percebe o baralho de cartas marcadas onde se viu preso. Isso contribui para os momentos finais da última luta, onde até os espectadores já se vêem incrédulos diante da violência que eles próprios são cúmplices. Como o quadrinho também aborda a luta pela terra, era natural que a arte desse destaque aos luxuosos aposentos do Coronel, afinal seu antagonismo nasce justamente do período colonial, se perpetuando através dos latifúndio e dos ataques à quilombos e assentamentos rurais, algo que também é utilizado na caracterização de outro dos vilões do enredo.
Encerrando as últimas páginas, temos um gancho interessante com Fernanda refletindo sobre essa sociedade que permite injustiças como a que sua família sofreu, e decidindo seguir o caminho revolucionário através do estudo. A partir daí, muitas portas se abrem, se considerarmos que essa também é a história de muitos dos militantes e lutadores sociais que nasceram em nosso país. Em todo caso, temos uma narrativa muito bem autocontida, capaz não apenas de expor a brutal desigualdade que também sabemos existir no interior dos nossos estados, mas também de resgatar o caráter classista do esporte, fora do formalismo, dos contratos milionários e dos holofotes do individualismo.
A quem possa interessar, você encontra Ringue e outros trabalhos do MolotovHQ em: https://www.instagram.com/molotovhq/
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