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Ainda há esperança para este país

200 mil votos são razão para preocupação. Mas há algo de positivo a retirar: o combate ao Chega a nível local está a dar resultado.

Cada um fala por si. · 2021-09-27 10:00 · 0 claps · 4.0 min read
#andré-ventura #chega #extrema-direita #autárquicas-eleições
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Ainda há esperança para este país

As sondagens autárquicas não foram particularmente famosas para o Chega. Nos grandes centros, andou sempre à volta dos 2–3% em Lisboa, não mais do que 1–2% no Porto. Ainda assim, no final, Nuno Graciano conseguiu 4,41% dos votos (terminando a corrida eleitoral à frente do candidato da Iniciativa Liberal, que foi penalizado pelo voto útil — esta análise fica para outra ocasião) e António Fonseca não foi além dos 2,93%, terminando a noite a desvincular-se do Chega, partido a que se tinha juntado nem há dois meses.

À partida para estas eleições, o consenso na opinião publicada era a de que um resultado abonatório seria expectável para o Chega, que iria capitalizar o sentimento generalizado de descontentamento e eleger vários autarcas, de norte a sul do país. Depois de ter dito que não se candidatava às autárquicas, André Ventura concorreu a Mora — concelho onde bateu Marcelo Rebelo de Sousa nas presidenciais em duas freguesias — precisamente para mostrar a força do Chega no Alentejo, o bastião comunista.

Não foi o que aconteceu. Conhecidos os resultados finais, importa tentar perceber o que correu mal para o Chega e o que correu bem para a nossa Democracia.

Há uma dependência muito grande da imagem de André Ventura. As considerações de que é um partido unipessoal não são infundadas. O líder do Chega apareceu em todos os cartazes para dar notoriedade aos candidatos, calcorreou o país inteiro, suspendendo até o mandato de deputado para ajudar as candidaturas.

Mas o discurso que o Chega adopta a nível nacional não resolve os problemas locais. Sim, há corrupção em Portugal. Sim, há corrupção também — arrisco a dizer principalmente — no poder local. O recente caso de Margarida Martins, em Arroios, é apenas um exemplo. Mas agitar a bandeira da luta contra a corrupção sem grandes ideias para solucioná-la — a transparência que anda na boca de tanta gente não é um fim, mas um meio para atingir objectivos — pode atrair votos, mas não é o caminho a seguir se não se for consequente. E a ideia com que ficamos é que o grande propósito do Chega é substituir os corruptos incumbentes pelos corruptos da casa.

As eleições autárquicas são um acto eleitoral marcadamente mais próximo dos cidadãos. Vale mais o candidato do que propriamente o partido, justificando que a estratégia do Chega para estas eleições tenha passado muito pela narrativa de que “quando fores votar, olha para o candidato, não olhes para o partido”. Daí a aposta em candidatos mais conhecidos pela sua notoriedade do que propriamente pelo seu pensamento político.

Com estes resultados, os eleitores mostraram um grande nível de maturidade democrática, ao repudiar esta estratégia oportunista, o que demonstra que, apesar de tudo, ainda há esperança para este país.

Um desses oportunistas foi Nuno Graciano. Com uma campanha vazia de ideias, acções e eventos, apareceu nos debates entre os candidatos a Lisboa sem qualquer preparação. Não tem ideias, não conhece a cidade. Tem uma série de chavões que vai atirando para o ar. Precisou, em duas ocasiões, de ler de um papel para tentar verbalizar um raciocínio. O próprio reconheceu, num dos debates, que no seu programa não tem números. Não tem, sequer, qualidade para ser candidato autárquico ou para estar num debate para a maior autarquia do país. Seria um verdadeiro erro de casting se o objectivo do Chega fosse discutir Lisboa.

No primeiro debate, ao habitual estilo do Chega cunhado por André Ventura, “sacou” do Correio da Manhã para atacar o incumbente, mas não teve a presença de espírito para mostrar a primeira página do jornal cá para casa. Nem com a ajuda de Clara Ferreira — que lhe pediu para ler a manchete do diário — conseguiu marcar o ponto que queria. Antigo apresentador de televisão que é, devia saber que a câmara que está no ar é a que tem a luz vermelha acesa.

A terminar o vazio de ideias, Nuno Graciano dedicou o minuto final desse debate para dedicar-se à grande prioridade do seu programa que são as ciclovias. O antigo apresentador atirou-se, principalmente, à ciclovia da Avenida Almirante Reis. Sim, precisa de ser reformulada, mas não sabe Nuno Graciano que é uma das mais utilizadas de Lisboa porque no programa, lá está, não tem números.

O Chega está a debater-se com os mesmos problemas com que o Bloco de Esquerda se tem deparado em autárquicas que, ao fim de 20 anos de existência, ainda não conseguiu implantação local.

Antes destas eleições, confiantes no crescimento, a estratégia do Chega para de alguma maneira sair vencedor destas eleições era a de contar o número de votos conquistados, em vez do número de mandatos, porque só assim se consegue comparar com o número que André Ventura conseguiu nas presidenciais de Janeiro deste ano e dar continuidade à dinâmica de crescimento que lhes interessa publicitar.

Só que o Chega não cresceu. Arrecadou pouco mais de 200 mil votos — nem metade daquilo que André Ventura conquistou em Janeiro deste ano e que era a base de referência e o ponto de comparação propostos -, conseguiu eleger 19 vereadores e mais de 170 deputados municipais. Um resultado muito curto para um partido que avançou para mais de 200 concelhos. Por isso, o Chega virou o discurso contra o Bloco, para mostrar que teve um melhor resultado na estreia do que os bloquistas aquando do seu primeiro acto eleitoral. Para quem queria ser a terceira força autárquica em Portugal, é manifestamente muito pouco. Mas chega para deixar satisfeitos os eleitores do partido, que aceitam sem questionar tudo o que André Ventura e o partido lhes dizem.

Sim, 200 mil votos são razão para preocupação. Mas há algo de positivo a retirar deste resultado: o combate ao Chega a nível local está a dar resultados. É preciso fazê-lo ainda melhor e a nível nacional, sendo que todos os partidos, da esquerda à direita, têm o dever de participar nessa luta pela Democracia, combate para que Marcelo Rebelo de Sousa também está convocado.


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