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Eu, como muitas outras crianças, tive minha introdução à leitura por meio de histórias em…

Milena · 2026-06-16 07:04 · 0 claps · 2.4 min read
#life #depression #manga
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Eu, como muitas outras crianças, tive minha introdução à leitura por meio de histórias em quadrinhos. Com uma família próxima e estendida composta por muitos professores, era natural que esse hábito fosse incentivado numa frequência maior que a média. Aprendi a ler antes da alfabetização, "criança prodígio" Na época, com 4 anos, acumulavam-se as revistas da turma da Mônica e com os anos passando, às vezes, uma cobiçada revista Recreio aparecia nas pilhas junto a várias outras revistinhas. Esse hábito acabou sendo um pouco substituído por outras coisas, como, por exemplo, jogos eletrônicos e filmes, com a chegada dos DVD piratas e das locadoras.Mas apesar disso, dos 13 aos 14 anos em diante, até o final do ensino médio, meu interesse por histórias em quadrinhos volta a aparecer com mais frequência com a popularização dos animes e mangás na cultura pop adolescente. Então, assim que eu consegui meu primeiro contrato fixo e remunerado, decidi que compraria um livro assim que eu recebesse meu primeiro pagamento. Passeando então pela extinta livraria Saraiva, um livro de cores que quase não andam juntas me chamou a atenção: O homem sem talento, em capa dura, verde e rosa. Yoshiraru Tsugue, o autor de nome japonês aparecia logo abaixo do título. Naquela mesma semana eu li a história inteira quase que sem parar, do início ao fim. E ainda muito jovem e sem saber o que eu ia fazer dali para frente, já que há mais de um ano depois de me formar no ensino médio e sem saber qual o próximo passo, eu inevitavelmente me identifiquei com o homem. Eu também me sentia sem talento, sem motivo e sem utilidade. Eventualmente, alguns anos depois, mesmo sempre gostando de coisas ligadas a desenho, arte, música e cinema, optei por seguir uma faculdade que, na época, fazia sentido para conseguir ter um trabalho e uma forma de renda que seria, de acordo com os mais velhos "garantida". Recentemente, aos 25, eu reli O Homem sem Talento, escrito e ilustrado em 1985 mas que segue relevante até demais. A sociedade o vê o protagonista como um peso morto, alguém que não conseguiu encontrar seu lugar na engrenagem produtiva. E ele é, de fato, um homem comum, sem brilho, que se apega a projetos mirabolantes como as pedras “únicas” que ninguém quer comprar. A insistência de dele em se reinventar tem um quê de trágico, mas também de ridículo: ele representa a crença moderna de que basta “seguir a paixão” para alcançar sucesso. O mangá desmonta essa fantasia ao mostrar que, para a maioria, a paixão não se converte em sustento e que o mercado é cruel com quem não se encaixa. Ele não apenas fracassa profissionalmente. Ele se torna invisível até para a própria família, que o vê com um misto de pena e vergonha. Porém a melhor parte na minha opnião é a ironia na leitura do mangá no contexto atual. Enquanto o homem fracassa por não se adaptar, o discurso contemporâneo tenta ressignificar o fracasso com mantras de “resiliência” e “aprendizado”, como se cada tombo fosse um degrau. Yoshiharu Tsuge não oferece esse consolo: nem todo fracasso gera crescimento, nem toda insistência leva à superação. Há vidas que simplesmente não encontram lugar no mundo do trabalho e talento. Não se trata de um olhar externo sobre “os perdedores”, mas de um relato que brota de dentro da experiência de se sentir inútil. É exatamente esse olhar que falta em muitas narrativas atuais sobre produtividade: a voz de quem não venceu, de quem o “propósito” nunca apareceu, de quem não transformou dor em conteúdo. O Homem sem Talento pergunta: e se não houver talento nenhum? E se a vida não for um projeto a ser gerenciado? Talvez a única saída, seja parar de medir a existência pela régua da utilidade ainda que o mundo à nossa volta insista em fazer exatamente o contrário.


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