Voltar a morar com vovó depois que virei fã da Bjork é uma experiência e tanto — para não dizer…
“Oi, vó. Quarta-feira eu volto a morar com a senhora”, foi o que eu disse quando o contrato saiu. Ela, como sempre indulgente e…
Voltar a morar com vovó depois que virei fã da Björk é uma experiência e tanto — para não dizer esquisita
“Oi, vó. Quarta-feira eu volto a morar com a senhora”, foi o que eu disse quando o contrato saiu. Ela, como sempre indulgente e autocrítica, respondeu “do luxo ao lixo. A casa da sua avó não tem conforto nenhum, mas venha, meu ‘fih’, as portas estão abertas”. Que doce de pessoa é vovó.
Me lembro que uma vez, numa aula de catequese, a catequista fez uma daquelas dinâmicas emocionais que só católicos sabem fazer. “Fechem os olhos e imaginem a pessoa que você mais ama feliz da vida no lugar mais bonito do mundo”, a minha mente automaticamente, sem hesitação alguma, foi direto à minha avó sorrindo e pulando ondas em uma praia digna de uma daquelas pinturas famosas de um artista famoso que a gente logo esquece o nome. Feliz de um jeito que só ela sabe ser. O macete da dinâmica estava na revelação final: depois de um monólogo feito para emocionar, eles nos mostravam um espelho e diziam que naquele reflexo se encontrava a pessoa que estávamos pensando. Um jeito fofo de fazer alguém perceber que se importa consigo. Entretanto, eu imediatamente discordei. Era a minha avó em minha mente. Eu nunca fui a pessoa que mais amei, esse posto sempre foi dela. Minha querida avó, sempre velhinha e sempre amorosa demais. Boa demais para esse mundo. Boa demais para mim, que sempre fui tão mimado e arrogante.
Sempre imaginei minha vida com vovó por perto. Não possuo ilusões, sei que a morte virá, mas gosto de imaginar que ela não a alcançará e que ela estará aqui até o fim dos meus dias. Um pouco egoísta, eu sei. Afinal, ela não fica mais jovem, o corpo dela já não responde da mesma forma, nem a razão. E olha que ela está inteirinha, viu!
Mas deixemos a morbidez de lado, afinal, voltei. E morar com vovó depois que passei a escutar Björk é uma experiência engraçada. Não que minha avó saiba quem é Björk, tampouco a Bjork tem a ver com esse fato. Acontece que quando eu saí daqui para ir morar em Brasília para cursar Filosofia na UnB, eu era diferente. Minha banda favorita era Legião Urbana e eu ainda não era marxista, tinha resquícios do catolicismo na minha personalidade e não tomava remédio para ansiedade, a calvície ainda não tinha descampado o topo da minha cabeça e eu era bem mais magro. Hoje, tudo mudou. Sou outra pessoa, com outras perspectivas de mundo. Já vovó, continua a mesma coisa. Por isso é estranho voltar. Não me reconheço direito nas coisas que deixei. Tudo ficou estático, enquanto eu me transmutava e metamorfoseava. Outra coisa. Ainda o “Dani” — como vovó gosta de chamar –, mas um Dani diferente.
O quarto que ficou, ainda tem os rabiscos que fiz na parede. Frases de Kant e de Padre Pio se misturam e se confundem. Cartazes de animes espalhados por todo o lado — eu adorava Naruto e Fairy Tail na época. Dentre os livros que deixei, temos uma edição bem meia boca da Crítica da Razão Pura, as edições antigas da editora Leya das Crônicas de Gelo e Fogo, a coleção completa do Guia do Mochileiro das Galáxias, uma edição desgastada de Harry Potter e as Relíquias da Morte, dois livros do Padre Fábio de Melo e, para o meu desgosto, a obra Manual do Guerreiro da Luz de Paulo Coelho. Saber, ou melhor, rememorar, que já li Paulo Coelho assustou-me um pouco. Não que haja problema, certo? Mas a pessoa que sou hoje, jamais leria Paulo Coelho. Mas notem que, apesar de tudo, foi a obra de Paulo Coelho que me espantou e não do Padre Fábio de Melo. Curioso.
Seja como for, mudei, mas o lugar de onde saí, não. Nem o espaço nem as pessoas. Digo, envelheceram. Vovó, agora, possui pressão alta, por exemplo. Fruto da idade. A cachorrinha, D. Cleusa, é nova, não existia há cinco anos atrás. Já a gata, Louise, ainda está aqui com suas três patinhas — ela perdeu uma acidentalmente –, porém, por já ser uma gatinha idosa, caminha lentamente e até seu miado, que antes era audível, agora é mirrado, quase não sai. A casa de vovó continua quente e cheia de coisas. Dona Diva (vovó) tem problemas sérios de acumulação. Somente sofás eu contei cinco, o restante nem vou citar a quantidade de unidades, mas existem muitas cadeiras, muitos copos, algumas geladeiras (?), alguns tantos armários, uns poucos guarda-roupas etc… etc… etc. Contudo, é aconchegante. Me sinto confortável aqui. E, acreditem ou não, escutar Bjork aqui no Lago Azul é legal. Não combina, mas Bjork raramente combina com alguma coisa (não é uma crítica).
É divertido voltar.
Percebi, então, que as coisas não mudaram, só envelheceram. Há uma contradição aí, eu sei. Afinal, envelhecimento implica mudança, toda passagem de tempo implica mudança. Mas vejam bem, desde que eu me entendo por gente que vovó é velha. Desde sempre teve o rostinho enrugado, a voz mais rouca e jeitinho de idosa (seja lá o que isso for). Na minha percepção, não mudou nadinha. Fui eu quem envelheceu. Não estou velho, envelheci no sentido de saí dos dezenove para os vinte e cinco (quase vinte e seis). Digo, há uma mudança, nem sempre gradual, de pensamento de uma idade à outra. Acho que descobri, ao menos minimamente, o que gosto e o que não gosto, portanto, me conheci um pouquinho mais. Fiz até terapia nos últimos anos. Além disso, me apaixonei, fiz amigos que, hoje em dia, são tão importantes quanto vovó, odiei um bocado de gente e amadureci meu pensamento político. Fico feliz em perceber que fui movimento. Mas tudo que se movimenta necessita de uma desaceleração. E tem lugar melhor e mais idílico que a casa de vovó para voltar a si, perceber quem se tornou e o que deseja se tornar, revisitar memórias e descansar? Respondo por mim: não há.
Estou bebendo água de um filtro de barro. Por cinco anos não fiz isso. A água tem gostinho de casa de vó, e a canção Possibly Maybe, da Björk, tem o som da UnB. Coisa doida e meio besta é a memória… E coisa mais besta ainda é a mudança, que só existe porque, em algum momento, fomos algo. Ninguém muda a partir do nada. É preciso um primeiro motor para se movimentar, e ao mover-me, notei que gosto muito, ao menos de vez em quando, de retroceder. Voltar a ser o que se foi não é ruim, é só uma forma diferente de avançar. Estou indo mas, dessa vez, a Björk vai comigo. O que virá depois? Quem virá depois?

메타데이터
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