A invenção da mente e da subjetividade
e outras canetadas que serviram cunt

A invenção da mente e da subjetividade
e outras canetadas que serviram cunt
Sempre fui muito grato pelos professores incríveis que tive por toda minha formação (alguns foram só amassados pelo fato de como a docência é horrível), não só no ensino superior, mas na educação formal também.
Em 2010, no primeiro semestre de Psicologia, na disciplina de Fundamentos Históricos de Epistemológicos: Enfoque Psicodinâmico (Epistemologia e Psicanálise), um desses professores incríveis, disse algo sobre os três grandes cortes na vaidade do homem: 1ª Galileu, que tirou o homem do centro do Universo; 2ª Darwin, que tirou o homem do aspecto de criatura divina e 3ª Freud, que mostrou que o homem não é senhor em sua morada. Que fala essencialmente de não sermos o centro do universo, não sermos criados a imagem e semelhança de deus e que há aspectos do psiquismo que nos formam e não controlamos.
Mas aí em 2011, no segundo semestre de Psicologia, na disciplina de Fundamentos Históricos e Epistemológicos: Enfoque Comportamental (Behaviorismo Radical), veio o professor que me tornou no behaviorista radical inveterado que sou e trouxe num dos textos que a mente é uma invenção. E cara… volta e meia ainda fico embascado com o brio de alguns autores, até mesmo porque — o cara teve que pensar e escrever aquilo, eu só tenho que entender — como é o caso com Michel Foucault e B. F. Skinner.
No mestrado em Psicologia esse mesmo professor foi meu orientador, e dando continuidade para mexer com o que eu acreditava enquanto ciência e formação teórico conceitual ele meteu que o comportamento também é uma invenção para explicar alguma coisa. Uma sacada meio Thor em Vingadores — Guerra Infinita, com ele fazendo o mega tratado de línguistica, dizendo que todas as palavras são inventadas.

E existem meus três cortes epistemológicos, como não poderia ser diferente. (1) nós não somos senhores e nossa morada; (2) a mente é uma invenção e (2) a subjetividade é fabricada. Lógico, daí pro conceito de ficção explicativa minha cabeça gira sem parar fritando na epistemologia.
Como disse ali em cima, existem autores que me marcaram profundamente. No primeiro caso, Foucault, é usual que um estudante de humanas em algum momento ou vá citá-lo ou estudá-lo, e prestar determinada homenagem, é praxe babar ovo dele. Ok, merecido, irmão você já leu Nascimento da Biopolítica? As palavras e as coisas? Mas no segundo caso é bem menos frequente e bastante mal visto você falar das canetadas incríveis do Skinner. Mas existem três textos que abrem nossa cabeça num sentido absurdo: What’s wrong with everyday life in the western world? Nenhum escorpião negro e The operational analysis of psychological terms.
Costumeiramente, em humanas, desde muito cedo há um hábito de se focalizar em determinados paradigmas e direcionamentos epistemológicos e seguir essas coisas tal como se fossem time de futebol ou religião. Pesquisadores um pouco mais experienciados conseguem aproveitar essa pluralidade de conhecimentos — sem, claro, perder a dimensão epistêmica de cada um. Esse texto sequer tenta advogar naquela máxima besta de pegar o que funciona em um caso e em outro, afinal de contas, por vezes aqui estamos falando da própria concepção de sujeito, que muda radicalmente.
Mas por que eu disse especificamente de Skinner e Foucault? Os dois não tem absolutamente nada a ver uma coisa com a outra, seja em método, seja em construção teórico conceitual, seja em visões filosóficas: nada. Em já escrevi antes aqui sobre como ser um behaviorista radical que estudou Foucault modificou e refinou em muito as capacidades de análise que tinha. Pesquisadores analistas do comportamento se enveredam pelos estudos marxianos ou marxistas como uma forma de suporte para dimensões do que seu aporte não dá conta. E confia, sua linha teórica favorita não da conta de tudo.

Comigo, ter essa cabeça dividida funcionou pra entender a fábrica dos discursos sobre o fenômeno de nossa existência: a mente é uma invenção, a subjetividade é uma invenção, e essas duas afirmações servem propósitos muito específicos em relação a construção do saber e as relações de poder.
A visão liberal da dominância do homem da sua natureza, da modificação da natureza precisa ser explicada não é? O que esse animal que é mais ou menos mediano em tudo tem de diferente? Nosso córtex pré frontal? O fato de que ficamos em duas patas? Ou algo mais, algo intrínseco, que precede a materialidade?
Constantemente na ciência somos tirados de nosso posto de donos e domadores da natureza para sermos apenas mais um organismo; como toda espécie temos alguma coisa que foi selecionada ao longo de milênios, que para o bem ou para o mal — e recentemente mais mal do que bem, vide os últimos 200 anos — fez sermos o que somos hoje. Mas essa coisa não é pelo fato de sermos criados a imagem e semelhança de Deus, de termos uma mente. Bem não só isso, nossa subjetividade não é um átomo indivisível, ela é construída e acima de tudo, ela é material. Quem nós somos está atrelado ao nosso contexto socioeconômico, cultural, etc.
Foucault constrói toda uma discussão acerca de que somos assujeitados a sermos como somos, nossos corpos são construídos e elaborados de uma forma que é mantida e atravessada por relações de poder vigente. Skinner vai chamar isso de macrocontingências, aspectos sociais de nosso tempo, exercem controle na formação de sujeitos. E aqui, o discurso é importante: para Foucault essa sociedade do controle vai governar esses corpos por meio do exame, da disciplina, da inspeção, do discurso da saúde, para Skinner o nome disso é agência de controle.
Aquilo que você genuinamente é, é algo que é seu, no sentido de que anos de seleções de contingências fizeram ser quem você é. Foucault afirma também isso numa expressão lindíssima do fim de sua vida: o objetivo de cada um de nós e nos tornamos arte. Ser quem nós somos para além do controle e dos papéis sociais é um empreendimento similar a produção de uma obra de arte. Isso é ética, o cuidado de si.
메타데이터
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