Pré-história do racionalismo frio 2 (Mark Fisher, 2004) — Nenhum Agora; Gozo do proletariado; Não…
Tradução de quatro textos publicados por Mark Fisher no blog k-punk em 2004 (26/02, 29/02, 22/07, 29/07). Os originais estão disponíveis…
Pré-história do racionalismo frio 2 (Mark Fisher, 2004) — Nenhum Agora; Gozo do proletariado; Não é suficiente dizer que sou masoquista; De popista para papista e além
Tradução de quatro textos publicados por Mark Fisher no blog k-punk em 2004 (26/02, 29/02, 22/07, 29/07). Os originais estão disponíveis aqui, aqui, aqui e aqui.
Este é o segundo de dois posts que compõem a série “Pré-história do racionalismo frio”. A primeira parte pode ser lida aqui.
Nenhum Agora

Kubrick.
CCRU: a sizígia 7+2 é regida pelo demônio Oddubb, cujas associações com duplicações [N.T.: doublings] hipersticiosas reforçam seu caráter gêmeo [N.T.: twin character].
Fascinante este sobre pop, jazz, tempo e honestidade. Phil distingue duas sensibilidades e temporalidades distintas: uma estética do ‘jazz’ — baseada na reprodução fiel da performance ao vivo, e uma estética do ‘pop’ — centrada num ‘eterno Agora’. A estética do jazz é movida por profundas ansiedades acerca de fidelidade e honestidade. Nenhuma dessas preocupações existe para o pop.
Não poderíamos reverter essa relação? A indiferença do pop em relação a tocar ao vivo, sua dependência em overdubs e sua predileção por gerar sons que só poderiam existir no estúdio, significa que, do ponto de vista da produção, nunca há um ‘Agora’ do pop. Certamente o pop é associado com momentos particulares no ponto de sua consumação (a visão de Phil sobre as compilações *Now!** mostra isso belamente). Em contraste, jazz é sobre um Agora (re)capturado, sobre o drama do desdobramento da performance na nossa frente, em tempo real.

Teo Macero.
Phil coloca as ‘gravações’ de Miles e Teo Macero do fim de 1960 e 1970 como uma linha diagonal entre as sensibilidades do jazz e pop. Parecem ‘negar explicitamente a existência de qualquer agora, ao menos enquanto concernente ao processo da gravação. Ele argumentou que, durante seu trabalho, os álbuns de estúdio não tinham nenhuma obrigação de replicar eventos reais que poderiam ser elaborados como construtos fiéis apenas à sua lógica interna’. Não obstante, dado a genialidade óbvia de Miles e Macero, é possível dizer que suas técnicas não eram tão revolucionárias quanto “o Jazz correndo atrás do pop” — uma troca do Agora do jazz pelo ‘não ao vivo’ [N.T.: unlife] do pop.
Phil caracteriza a postura de Miles e Marcelo como oposta a qualquer tipo de ‘honestidade. Pergunto-me se duplicidade não é um termo melhor que ‘desonestidade’. Duplicidade [[N.T.: duplicity] como oposta a ‘fidelidade’, com suas conotações léxico-semânticas de duplicação [N.T.: doubling] e dubbing. A versão não é uma reprodução desonesta da verdade: ela articula uma ontologia diferente, em que não há nem presente nem presença, em que não há nenhuma unidade original, mas apenas um tempo que é sempre (ao menos) dobrado [N.T.: doubled].
A ênfase em uma edição anterior ao processo real da produção — não como ‘finalização’, mas ato criativo essencial — evoca a afirmação de Kubrick que o aspecto mais crucial da direção de cinema acontece na sala de edição. A oposição entre filme e teatro dobra a relação entre pop e jazz. A tendência de Kubrick de fazer atores repetirem cenas ad nauseam não nasceu do perfeccionismo. Ao contrário, em várias vezes, porque em muitas das vezes Kubrick não sabia o que queria. O processo criativo real acontecia muito depois dos atores e componentes vivos [N.T.: liveware] terem partido. Kubrick não queria fazer nenhuma decisão precocemente, mas deixar o maior número possível de opções em aberto. O que Kubrick demandava dos atores não era uma performance unitária que poderia ser reproduzida em celuloide, mas uma paleta de potenciais a partir dos quais ele poderia construir a performance no ecrã, depois do fato, na sala de edição. A metodologia anti-humanista de Kubrick tratava os atores como Macero tratava sons: traços manipuláveis.
Gozo do proletariado
Esta citação de Lyotard (encontrei minha cópia de EL [N.T.: Economia libidinal] debaixo de uma pilha de coisas):
A morte não é uma alternativa a isso, é parte disso, atesta ao fato de que há jouissance na morte. Os ingleses não empregados não se tornaram trabalhadores para sobreviver, eles — se segure e cuspa em mim — gozavam com a exaustão histérica, masoquista, ou qualquer que fosse o tipo de exaustão de estar nas minas, fundições, fábricas, no inferno — gozavam com a destruição louca de seu corpo orgânico que era imposta a eles, gozavam com a decomposição de sua identidade pessoal, a identidade construída pela tradição camponesa — gozavam com a dissolução de suas famílias e vilas — e adoravam a nova anonimidade monstruosa de seus subúrbios e os bares na manhã e entardecer.
— Libidinal Economy, p. 111.
De popista para papista e além (do princípio do prazer)

Francis Bacon. Estudo após Retrato de Velázquez do Papa Inocêncio X, 1950.
Simon sobre prazeres culposos [N.T.: guilty pleasures]: eu apoio o apelo de Simon para uma cultura da vergonha [N.T.: shame]. Isso é o que eu estava tentando dizer nos comentários da thread. Mais vale o ódio injusto e sem justificativas [N.T.: unreasonable] do punk que o laissez-faire bem ajustado do popismo (ou do poptimismo): o ecletismo — se é bom, não importa em qual categoria vai — ou o ‘vale tudo’ ou o ‘respeito’ e reverência à la Jools/Q*. Ambas atitudes são intrinsecamente contra o excitamento/libido: o primeiro porque transcendentalmente o veta (o contrário de ‘há música boa todos os anos se você buscar’ é ‘nunca há nada de especialmente excitante’); o segundo porque o ‘respeito’ mata a cultura à pedrada. As proscrições gerais do punk ao menos significavam que as longas faixas de disco/funk deveriam ser renegociadas e que, consequentemente, sua reinclusão significava algo: não eram parte de uma névoa benevolentemente opressiva que retirava a intensidade e sabor [N.T.: flava] de rupturas culturais singulares as incorporando em um pot-pourri* popista brando e sem graça.
Em qualquer que seja o caso, a relação entre uma Cultura da Vergonha [N.T.: shame culture] e Prazeres Culposos [N.T.: guilty pleasures] é uma dialética, e não diretamente uma de oposição. Apenas com uma cultura da vergonha (aos menos residual) é possível sentir qualquer excitação culposa quando experimenta (o que é reconhecido como) proibido. Existe algo de católico nisso, como Eppy diz. Mas, em vez de um lapso do catolicismo, é um lapso para dentro do catolicismo — onde seu culto mórbido, como Eppy estabelece, coloca a culpa como prazer e o prazer como culpa. Mas tudo isso pressupõe a reforma puritana/protestante iniciada pelo punk.
Zizek explica a cumplicidade entre o prazer e a culpa adaptando um dos exemplos de Kant. N’A Fundação da metafísica dos costumes — salvo engano — Kant refuta a ideia de que há alguma compulsão sexual por perguntar como nós devemos esperar que alguém aja se lhe dissessem que poderia ter o objeto de todos os seus desejos, mas apenas se se submetessem à forca imediatamente após a cópula. Kant conclui que a suposta compulsão da pessoa seria dissolvida sem muita espera. Mas Zizek, sempre lacaniano, diz que isso ignora a quantidade de pessoas que necessitam do equivalente de uma forca para sentirem prazer. Apenas quando o prazer é proibido ou quando há risco de punição que o gozo pode ser apreciado.
Certamente, há um desmantelamento fascinante do prazer (Foucault), desejo (Deleuze) e gozo (Lacan) a ser tomado. Nesse espírito, estas notas extraordinariamente íntimas e revelatórias por Deleuze sobre seus problemas com a noção de Foucault do prazer são um ótimo recurso.
Não é suficiente dizer que sou masoquista, e popistas sádicos. Isso seria bom, mas não verdade

Leopold von Sacher-Masoch.

Marquis de Sade.
Aviso: haters de teoria [N.T.: theory haytaz] não terão muito prazer com esse post.
Como modo oblíquo de lidar com algumas questões levantadas com a discussão sobre popista/papista, ofereço essa citação de Deleuze (das notas de Foucault citadas anteriormente).
(Aliás, não tenho certeza se gostaria de me categorizar como anti-popista [enquanto eu com certeza me associaria ao anti-rockismo sem mais questões])
De qualquer maneira, o que Deleuze diz aqui destaca algumas dificuldades com o que eu considero como popismo. Em certo sentido, isso repete o improviso sobre plaisir/jouissance que Simon fez em Blissed Out. Mas talvez Deleuze possa oferecer mais. Deleuze e Guattari viram sua tentativa de dar ao desejo um sentido puramente positivo (desejo sem aspiração: ele não ‘deseja’ nada que não possui [D/G]). Enquanto eu frequentemente me questiono se o termo ‘desejo’ pode abalar as conotações de falta que D/G tão assiduamente buscam remover, ainda acredito que o que disseram com ‘desejo’ — um estado além do prazer e da falta — é essencial. Passando para Deleuze:
Eu não consigo atribuir nenhum valor positivo ao prazer, porque o prazer me parece interromper o processo imanente do desejo. O prazer parece estar ao lado do strata e da organização; é pelo mesmo movimento que o desejo é apresentado como internamente submetido à lei e externamente interrompido por prazeres. Nos dois casos, há negação do campo de imanência próprio ao desejo. Digo para mim que não é por acidente que Michel [Foucault] dá uma certa importância a Sade que dou para Masoch. Não é suficiente dizer que sou masoquista e que Michel é sádico. Isso seria bom, mas não verdade. O que me interessa em Masoch não é a dor, mas a ideia de que o prazer vem a interromper a positividade do desejo e a constituição de seu plano de imanência (como, de outro modo, no amor cortês: a constituição do plano de imanência ou de um corpo sem órgãos onde o desejo não sente falta de nada e se reserva o quanto for possível dos prazeres que poderiam vir e interromper seu processo). O prazer me parece ser o único meio pelo qual uma pessoa ou sujeito pode “se encontrar novamente” em um processo que as sobrecarrega. É uma reterritorialização. E, a partir do meu ponto de vista, é do mesmo modo que o desejo se relaciona para a lei da falta e a norma do prazer.
Notas
[] N.T.: referência à série de coletâneas Now That’s What I Call Music!*
[*] N.T.: referência à revista britânica Q* e ao apresentador Jools Holland.
메타데이터
- post_id
- 2a68fea8f277
- slug
- pré-história-do-racionalismo-frio-2-mark-fisher-2004-nenhum-agora-gozo-do-proletariado-não-2a68fea8f277
- url
- https://medium.com/lysergic-inhuman/pr%C3%A9-hist%C3%B3ria-do-racionalismo-frio-2-mark-fisher-2004-nenhum-agora-gozo-do-proletariado-n%C3%A3o-2a68fea8f277
- canonical_url
- https://medium.com/lysergic-inhuman/pr%C3%A9-hist%C3%B3ria-do-racionalismo-frio-2-mark-fisher-2004-nenhum-agora-gozo-do-proletariado-n%C3%A3o-2a68fea8f277
- author_url
- https://medium.com/@chenos
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-15 20:49:13