De onde vem o sotaque paulistano?
Das diferenças na pronúncia dos ‘erres’ aos posts em redes sociais sobre ‘faria limers’, ele tem gerado memes e debates

De onde vem o sotaque paulistano?
Das diferenças na pronúncia dos ‘erres’ aos posts em redes sociais sobre ‘faria limers’, ele tem gerado memes e debates
Kenji André Salazar Medrano
São Paulo, a maior cidade do Brasil e a quinta mais populosa do mundo, é um verdadeiro polo cultural. Com mais de 11 milhões de habitantes e pessoas vindas de todas as partes do País e do mundo, a metrópole abriga uma enorme diversidade de sotaques e gírias. No entanto, se perguntarmos a um paulistano se ele tem sotaque, muitos dirão que sim e outros que não, que São Paulo não tem sotaque. E quem estará dizendo a verdade?
A cidade é um dos maiores centros urbanos do Brasil, e a diversidade é um dos seus pontos mais marcantes. Graduada em Fonoaudiologia pela Universidade de São Paulo e especialista em Voz pelo Conselho Federal de Fonoaudiologia, Zuleica Camargo explica que “a língua é um sistema vivo, que varia de acordo com correntes migratórias, fluxos culturais e movimentos sociais”. E isso aconteceu também em São Paulo: ao longo dos anos, as ondas migratórias que chegaram à cidade vindas do interior e do exterior deixaram suas marcas na fala paulistana, resultando em uma impressionante gama de sotaques.
Um dos traços mais marcantes do sotaque paulistano está relacionado à pronúncia do “erres”. Na cidade, existem duas formas principais: o “R” retroflexo, também chamado de “R caipira”, e o “R” gutural, típico da região metropolitana.
O “R” retroflexo é uma característica fonética que veio do interior do Estado, sendo muito comum entre famílias que migraram para São Paulo ao longo do século 20, de acordo com Amadeu Amaral no livro O Dialeto Caipira de 1920.
Palavras como “porta”, “termômetro” e “quarto” são exemplos típicos onde o “R” retroflexo se destaca, sendo pronunciado com a língua mais próxima ao céu da boca. “Acho que o sotaque caipira que a gente tem é puxar o R quando fala ‘porta’ e palavras desse tipo. Acho que é esse sotaque que a gente tem, eu acho bem perceptível”, diz Pedro Colevati, morador do Capão Redondo, bairro da região sul da cidade.
A variação do “R” nas diferentes regiões do Brasil tem sido amplamente discutida por linguistas renomados. Segundo estudo de Maria Helena de Moura Neves no livro A Língua Portuguesa: Desafios e Conquistas, o “R” gutural em São Paulo, assim como em outras grandes cidades brasileiras, reflete a influência das línguas estrangeiras, como o francês e o alemão, além da migração interna ao longo do século 20, especialmente com a chegada de imigrantes de diferentes partes do mundo. A autora também destaca que o “R” gutural está relacionado à urbanização e à evolução do português no Brasil, sendo uma característica distintiva da fala paulistana.
Um exemplo claro dessa diferença pode ser ouvido na palavra “rua”. Em São Paulo, o “R” tende a ser mais forte, com o som [ʁua], enquanto em cidades do interior, como Campinas, o som do “R” é mais suave, com a pronúncia [ɻua].
Um sotaque que tem chamado a atenção é o de pessoas que frequentam a região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, popularmente conhecido como o “sotaque Faria Limer”.
“Eu acho que o sotaque de Faria Limer é muito por conta das pessoas com quem eu convivo, né? Como meu pai sempre trabalhou em banco nessa área, eu sempre tive muito contato com esse tipo de pessoa que fala com esse sotaque. Então acho que acabou pegando um pouco. Foi a convivência que moldou o sotaque”, afirma Pedro Venell, que se identifica com esse tipo de sotaque.
Nasalizado, o “sotaque Faria Limer” adiciona o “i” após o “n” de algumas palavras, como “entendeindo” e “fazeindo”. Nos últimos anos, essa forma de falar também tem ganhado destaque nas redes sociais, tornando-se motivo de memes.
Humoristas como Fausto Carvalho, que acumula mais de 4 milhões de seguidores em suas redes sociais, popularizou imitações exageradas do sotaque com seu personagem Jorginho e ficou famoso ao ironizar não apenas a maneira de falar, mas também o estilo de vida dos “Faria Limers”.
Esse tipo de sotaque também foi amplamente comentado nas redes sociais após participantes do programa Casamento às Cegas 4 se tornarem memes. Patrick e Marília chamaram a atenção pelo jeito único de falar, especialmente em uma cena em que Patrick pronuncia de forma exagerada o número trinta e “sêttte”. Essa pronúncia, com forte ênfase no “t” e na vogal, gerou uma onda de piadas, destacando uma característica “engraçada” do sotaque da Faria Lima.
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Essa diversidade linguística vai além das conversas cotidianas e é celebrada de maneira interativa na cidade. Uma excelente oportunidade para explorar esse meio é a exposição “Fala, Falar, Falares”, aberta no Museu da Língua Portuguesa no dia 28 de março de 2025. A mostra convida os visitantes a conhecer sobre o sotaques não só de São Paulo, mas de todo o Brasil, além das palavras que formam nossa identidade linguística e suas origens, proporcionando uma imersão completa no universo da fala no País.


Ambientes da exposição no Museu da Língua Portuguesa. Fotos: Kenji Salazar e Wellington Almeida/ Divulgação
Serviço
Museu da Língua Portuguesa: Praça da Luz, s/ nº Horário de funcionamento: terça a domingo, das 9h às 16h30
Kenji Salazar Medrano é aluno do 5º semestre de Jornalismo da FAAP
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