Água Leve - 2026

2026
- Água Leve
Caio no chão do banheiro que fica perto da piscina, desesperada em busca do ar que parece ferir meus pulmões. Eu deveria ter perguntado em que tipo de lugar seria o evento de hoje, esqueço o quanto esses malditos ricos adoram uma festa na piscina. Infelizmente não consigo mais ficar perto de águas profundas, embora tenha nascido às margens do Rio Amazonas, não consigo mergulhar, tenho completa aversão a mergulho, mesmo uma piscina pode me botar em pânico, desde que — embora ninguém acredite, eu juro — a Yara tentou me raptar para o fundo do rio. Engulo duas pílulas do remédio controlado, cuja receita consegui com um cliente, muito solícito em me ajudar e tento lembrar como se respira sem sentir dor. Esse pânico terrível está me matando. Lembro que o cliente que me arranjou as drogas falou que eu sofro de transtorno de ansiedade. Não acho que seja tão grave, talvez o que me falte seja encarar o meu medo de frente. Faz doze anos que saí de minha cidade natal, um pequeno vilarejo ribeirinho, com a desculpa de precisar expandir meus horizontes. Sempre soube que era uma mentira. Eu só queria ir para qualquer lugar em que o rio não me encarasse daquele jeito medonho e intimidador. Levanto, ainda zonza pela crise, sentindo os efeitos iniciais da medicação, e corro em direção à saída. Vou direto para casa, rejeito as ligações que estou recebendo no celular, e assim que chego em casa o desligo. Vou direto para a cama e tenho a sensação de que não foi o colchão que me abraçou, e sim as águas, porém não tenho forças para nadar, não vou me debater, deixo as águas me envolverem e apago. Olhos vermelhos me encaram na escuridão, não consigo me mexer, quero gritar, quero pedir ajuda, mas não consigo me mexer. Tenho a sensação de estar presa ali, na escuridão das águas, durante horas. Os olhos vermelhos ganham rosto e corpo. Um horrendo corpo de peixe me envolve, a textura de suas escamas lisas derrapa sobre o meu corpo. Alguém, por favor, me ajude! O desespero finalmente me liberta, e consigo levantar. Vou resolver isso, não aguento mais essa tortura.
Estou a caminho da casa em que nasci e cresci. É importante voltar e encarar meus medos. Eu já tentei o outro lado do mundo, e os fantasmas foram na bagagem, é preciso voltar e deixá-los. É por isso que estou indo para casa. A última chamada para o embarque soa, e meu corpo está pesando 500 quilos, mas é preciso ir para casa. Surpreendentemente, consigo dormir muito bem durante a viagem. Deve ser o cansaço e os remédios. Não sei se é porque não estou nada ansiosa para chegar, mas senti que cheguei muito rápido. De cara percebo que pouca coisa mudou por aqui, tudo só está mais velho e desgastado, desde as casas até as pessoas. Vejo, de longe, o velho rio que tanto me assombra. Velho, majestoso e perigoso. Ele é o único de nós que não parece estar deteriorado e abatido. Minha velha mãe me espera na porta da triste casa, e eu entendo por que cultivou tantas rugas — para caber toda a sua decepção e desprezo, que nem mesmo tenta disfarçar ao me ver. Estou me sentindo patética por ter vindo aqui com essa mala rosa, esses cabelos ainda muito arrumados — mesmo após tantas horas de viagem. E por que passei esse protetor solar com pigmento? Eu deveria ter vindo com a cara limpa. Poderia ter me esforçado mais para parecer integrante dessa paisagem desoladora e pobre. Porque eu sou. O olhar amargo de minha mãe em minha direção, a curiosidade das pessoas do vilarejo se pendurando nas janelas para me ver arrastar a minha péssima escolha de mala, eu estou destruída, um rio brota de meus olhos, com origens em meu aflito coração. Desabo, deságuo e choro. Quero implorar a minha mãe que me aceite e me perdoe, quero prometer a ela que nunca mais fugirei, que eu vou caber, que eu vou ser parte desse lugar, como uma pedra à beira do rio, que vê o rio passar, ser lentamente destruída por ele, porém sem jamais se mudar. No entanto, seria mentira. Minha mãe conseguiria me desmascarar na primeira palavra que saísse de meus lábios. Deixo o rio correr, e lembro que estou aqui apenas para exorcizar fantasmas.
– Bença, mãe. — Sou a primeira a falar. — Não tenho filha vagabunda. — Ela nem mesmo hesita ao responder. Quero rir, porque não sei o que eu esperava. Nunca acreditei que ela iria me abençoar. Uma mulher sai de dentro da casa, e me encara. É minha irmã que não vejo há treze anos. Ela corre em minha direção e eu fico temerosa de uma recepção hostil, enrijeço o corpo, e aceito friamente o abraço com o qual ela me envolve. Uma sensação molhada e quente se espalha em meus ombros, retribuo o seu abraço, as minhas lágrimas estão mais fortes. — Entrem. Chega dessa putaria aí fora. Os bandos de fofoqueiros já têm muito do que falar. — escuto minha mãe dizer e se voltar para dentro da palafita. Não quero largar a minha irmã, sinto que ela não quer me soltar. Deslizo minhas mãos até as suas e peço que me leve para dentro. Ela puxa a minha mala, enquanto elogia a cor.
Percebo que estava enganada ao pensar que nada neste lugar tinha mudado. Tudo era diferente. Especialmente a garotinha, com aparência de ter uns 10 anos, que me olhava, curiosa, pela brecha do quarto. — Mãe, a senhora teve outra filha? — eu estava em choque. Minha irmã se apressou em explicar, sorrindo. — Essa é a minha menina. É minha filha. — e dirigindo-se a ela, chamou: — Venha conhecer a sua tia, de quem eu sempre te falo, cunhatã! — Ela estava ansiosa pelo chamado. Veio num misto de timidez e euforia, o “Bença, tia” que saiu de sua boca me transportou para o passado, flashes de memórias incompreensíveis me cercaram, estou me afogando nelas. — Deus te abençoe, filha. — Beijo sua mão esticada para mim, olho para minha irmã e percebo que não a conheço mais. Há uma parte inteira de sua vida que eu abandonei quando fugi. Porém, há algo nessa criança que me incomoda. Não sei dizer o que é, mas seus olhos me causam uma espécie de repulsa. Normalmente não me sinto bem perto de crianças, não gosto de olhar para elas, nem de estar perto delas; evito ambientes onde elas possam estar. Com essa menina é ainda pior: eu a odeio! O reconhecimento dessa emoção me enoja. Como eu posso odiar a filha de minha irmã, que eu larguei aqui neste fim de mundo, como posso ser tão vulgar e monstruosa a ponto de olhar aqueles olhinhos curiosos e sentir vontade de arrancá-los fora? Por que sua boca pequena e bem definida me causa tanto sofrimento e rancor? Há nessa face um reflexo que me incomoda e me faz querer fugir. Sinto, novamente, a sensação de afogamento me inundando. Minha mente começa a fugir, não estou mais em meu corpo, estou no rio, estou me afogando.
Acordo do desmaio com minhas pernas em cima de uma cadeira e meu corpo deitado no chão. Minha irmã me abana, e minha mãe, pela primeira vez, me olha com alguma piedade. A garotinha repulsiva olha assustada, por trás de minha irmã. Eu não sei como explicarei isso, porque três pares de olhos aguardam, ansiosos, por uma explicação. Levanto, devagar, como se qualquer movimento errado fosse piorar ainda mais a minha situação aqui, e tento pôr em palavras o meu real motivo de voltar para este lugar assombrado. — Mãe, eu estou doente. Não é nada grave, não é no meu corpo, aparentemente. Faz tempo que eu tenho desmaios espontâneos, não sei o que vai acontecer comigo, e por isso eu quis vir aqui, pedir o seu perdão, e tentar alcançar a paz, para o que quer que aconteça comigo. — Sinto que fui um pouco dramática, mas não sei como explicar o que está acontecendo, a não ser pelo viés da emoção. Minha mãe encara o chão, e senta ao meu lado, e se aproxima de mim, sem me olhar. — Eu não sei como te perdoar, porque não sei o que você fez de errado. Por anos eu pensei que o erro foi meu, e que eu deveria te pedir perdão. Depois, eu percebi que você não me deu a chance de saber nada sobre você, apenas foi embora, deixou um vazio tão grande nesta casa e no meu coração, que eu não pude preencher com nada além de tristeza pela sua ingratidão. Eu sei que não tínhamos muito para te oferecer, mas sumir no mundo assim, sem deixar rastros, sem nunca ligar, nunca aparecer… Comecei a pensar que você estava morta, me acostumei com essa ideia, e então você volta, como um fantasma emperiquitado, com essa aparência diferente, deixando claro que não é como nós. Do que exatamente eu deveria te perdoar? — A enxurrada de palavras me espanta, embora, essa é a minha mãe. Ela sempre falou claramente o que pensava a respeito de tudo, mesmo que não tivesse embasamento, mesmo que não fosse a verdade, o que sempre importou para ela era falar. E mesmo sabendo que ela é assim, seca, cruel e direta, tenho lágrimas rolando em minha face.
A menina vem em minha direção e me abraça, e meu corpo enrijece. Não estou acostumada a ser consolada, principalmente por alguém da minha família. A repulsa inicial ameniza, estou sendo patética por sentir algo tão hediondo por um ser tão puro e bondoso, que ao ver o meu sofrimento, correu para me socorrer. Retribuo seu abraço, envolvendo a sua cabeça em meus braços, afago seus cabelos pretos e lisos, e beijo-lhe a testa. Minhas lágrimas caem em seu rostinho, e ela aperta ainda mais o abraço. Fui tão precipitada em pensar que a odiava! Há muito tempo eu não me sentia tão acolhida e amada quanto agora. Seu carinho e atenção por mim agiram como pomada calmante num ferimento que há tanto tempo arde insano. O carinho da garota tem um efeito em minha mãe, ela a ama tanto, isso é perceptível. É possível que os pais amem mais os netos que os filhos? Vejo em seus olhos esse amor. Ela respira, e a tensão parece dissipar, mais cedo do que eu esperava. Sendo sincera, achei que seria expulsa daqui desta vez. Não daria para ir embora fugida, porque minha mãe me colocaria para fora, expondo na minha cara as minhas ações, sua vergonha e seu rancor. No entanto, bastou que essa menina me demonstrasse tamanha consideração e empatia, para esquecerem que eu sou a filha perdida, que abandonou a família aos 14 anos, e saiu no mundo, seguindo seus próprios motivos egoístas. E, por enquanto, eu sinto que estou autorizada a ficar aqui. Estou exaurida, a ponto de não conseguir mais distinguir as palavras de minha irmã, que me puxou para o puxadinho, para conversar. O sol já está se pondo, e seu reflexo nas águas cria uma imagem que mais se assemelha a um sonho. Está fazendo tanto calor, mesmo a essa hora. No embalo da conversa, pergunto à minha irmã sobre o pai da menina. Não entendo a resposta, então apenas concordo com a cabeça e digo um “que legal”. Meu corpo está esgotado, de verdade. Ela percebe, e me leva a um cômodo, onde posso dormir. É um cantinho simples, uma rede velha, um mosqueteiro, há uma estante na qual ela limpa duas gavetas e diz que posso usar. Seu tom é tão amoroso, eu quero abraçá-la, quero pedir perdão a ela, mas não tenho mais forças. Terá que ficar para amanhã. Começo a sonhar antes de me ajeitar na rede. No sonho, eu estou na beira do rio, em cima de um jirau de pedra, esperando por alguém que não lembro quem é. A Yara me puxa pelas pernas e começa a me afogar. Estou me debatendo, desesperada, meu corpo inteiro dói, estou morrendo. E então, minha sobrinha aparece, e me puxa para fora da água. Ela é pequena, mas tão forte. Ela está chorando e pedindo perdão. A Yara desapareceu, e só tenho aquela pequena e amável garotinha me abraçando, me encharcando com seu choro sincero, e pedindo que eu volte à vida.
Outro cantar do galo finalmente me desperta. O sol está nascendo, e só eu ainda estou deitada. Apresso-me em levantar, e me junto às três que estão preparando o café da manhã. Minha mãe me dá um olhar distante, e eu me sinto um problema que ela quer evitar encarar. Minha irmã beija meu rosto, e me diz um “Bom dia” radiante. Minha sobrinha me abraça, também me deseja “Bom dia, titia”, e meu coração sorri. Retribuo o “Bom dia”, e pergunto o que eu posso fazer para ajudar. — Sente e deixe com quem está acostumada a fazer isso. — Responde minha mãe, com um tom sarcástico. Sorrio, e digo que tudo bem. Eu não quero admitir, mas senti falta da comida caseira dela. — E agora me conta o que você realmente veio fazer aqui. — eu fui precipitada em pensar que ela havia me perdoado. Aparentemente a trégua foi pela criança, mas minha moral ainda é baixa. — Eu lhe disse a verdade, mãe. Estou doente e os médicos não descobrem do que… — olho em seus olhos, tentando soar o mais sincera possível. Ela bufa em resposta. — Achei que tinha vindo por causa de seu pai. Mas é claro que você nunca faz nada pelos outros. — o julgamento está longe de acabar. Porém, dessa vez ela tem razão, não sei como pude esquecer, amanhã é o aniversário de quando meu pai saiu para pescar e sumiu nas águas do rio, em pleno dia de Nossa Senhora dos Navegantes, há 18 anos. Nunca achamos o corpo. Eu tinha uns 9 anos, e era ingênua o suficiente para ficar na beira do rio esperando, rezando, chorando e implorando para que a Santa devolvesse o meu pai para mim. Um banzeiro de memórias me invade, foi nesse dia, foi exatamente nesse dia que a Yara tentou me matar. Será que não contente em levar o meu pai ela veio para me buscar? Será que era a mim que ela queria desde o início? Começo a hiperventilar, minhas axilas estão suadas e minha respiração afetada. Foi nesse dia, no dia que meu pai morreu. Sinto as águas me afogando, e ela me puxando. Uma pessoa me puxa para fora d’água, eu estou sangrando, minhas pernas estão cheias de sangue. Não consigo ver o rosto da pessoa que me salvou, mas vejo claramente os olhos vermelhos e sombrios daquela criatura demoníaca que tentou me levar para junto de si, cujas pretensões não consigo entender. Será que se eu tivesse morrido, se eu tivesse deixado ela me arrastar, meu pai estaria aqui?
– Você acha que a culpa foi minha dele ter morrido? — minha voz é um sussurro tremido. Ela dá uma risada cínica antes de me responder secamente — Você acha que controla o rio ou a vontade de Deus agora?
– Mãe, e se foi a Yara? — Essa menção faz minha irmã me olhar assustada e me pergunta. — Então você se lembra? — uma irritação cresce em mim, as veias da minha garganta incham e minha voz sai esganiçada na tentativa de tentar reprimir o grito — Se eu lembro? Como eu poderia esquecer uma merda dessas? Eu passei todos esses anos surtando, fugindo e me drogando porque eu não consigo esquecer essa merda, e agora você me pergunta se eu lembro? — tento respirar, minha irmã não tem culpa de nada, ela era menor do que eu, não faz ideia de como foi, da dor que eu sinto por causa disso, as lágrimas caem agressivas e minha mãe me encara em silêncio, esperando eu terminar de me incriminar. Ela não acredita em mim, nunca acreditou, de alguma forma ela acha que sou culpada — Eu não sei o que a mãe falou sobre isso… — continuo, mas minha irmã interrompe — Não foi a mãe, foi o Zé. — a agressividade e um incômodo aumentam em mim. Quem é esse homem para contar a minha história pelas minhas costas, como se ele tivesse esse direito, como se soubesse… — Que Zé? — meu tom é ríspido — Ué, Zé, o meu marido Zé, o pai da minha filha. Zé, o filho da tia Chica, você não lembra de Zé? — , estou incrédula, — Você casou e teve um filho com o Zé da tia Chica? Ele não é super velho pra você? — , ela sorri como se não percebesse que estou por um fio — Você não lembra de nada do que te contei ontem? Ele não é tão velho, ainda pesca muito bem! — Sim, eu lembro do Zé que sempre ia pescar com meu pai. O Zé que estava no porto comigo quando eu esperava… meu pai. Meu pai! Um zumbido infernal invade meu ouvido, não posso desmaiar de novo, pareceria ensaiado demais, minha mãe já está anormalmente silenciosa. Não sei o que estou fazendo. Saio correndo em direção ao porto, buscando reviver essa memória, como se ainda pudesse impedir o que sucedeu naquele dia. Encaro a espelhada morada do monstro, se eu não morresse de medo só de olhar para essas águas, alguma parte minha as admiraria? Acharia beleza nessa paisagem? É o sepulcro de meu pai, a sua morada eterna, eu deveria prestar homenagens, eu gostaria de rezar por sua alma, mas vejo o brilho de dois olhos vermelhos acima d’água e uma curiosidade diabólica me encara, minha cabeça pesa, sinto ânsia e o vômito é irrefreável. Minha mãe está parada atrás de mim. Ela quer estar perto para me ver cair na cova que abri? Ela me culpa pelo que aconteceu? Ela me odeia porque sabe que eu cedi ao monstro? Caio no chão de barro desejando que ele se abra e me leve. Quero falecer na terra, por favor, Deus, que seja na terra, não permita que seja com ela, não permita que a água leve o que resta de minha alma fragmentada. Minha súplica é em vão, eu sinto suas asquerosas mãos me tomarem em seus braços escamados, e bem na frente dela, com o aval dela… da mulher que me pariu, e que nunca me protegeu. Eu vejo seus lábios instruindo e me entregando. A dor que me invade é inexorável, a única forma de sobreviver é me desligar. Novamente cedo. Se a água não é o seu limite, não tenho mais por que lutar.
Minha mente despertou, mas meu corpo ainda não se move. Ouço o ambiente ao redor, em busca de entender a gravidade da situação em que estou. Mãos pequenas e delicadas tocam a minha testa, mãos quentinhas e acolhedoras. — Titia, acorde, por favor — sua voz é suplicante. Então estou viva. Retribuo seu pedido com um aperto em seus braços enquanto abro os olhos, não sei se consigo sentar, estou tonta. — Quanto tempo eu dormi? — me sinto boba ao perguntar, porém preciso me situar. — Já está amanhecendo — responde minha irmã um pouco mais distante — Você está se sentindo bem? Teve febre o resto do dia e a noite inteira, delirou muito. Se tivesse um hospital por perto, eu juro por Deus que teria te levado lá… — sei que ela faria tudo por mim se pudesse, mas não é o que preciso ouvir agora — Onde está nossa mãe? — é possível que o que eu vi foi um delírio? Minha mãe e um homem entram e se aproximam de mim. O rosto dela está diferente, ela parece culpada. Quero saber o que houve, quero detalhes do que aconteceu, pois eu senti a Yara me carregando na terra firme, eu sei o que vi. Eu estou mesmo tão doente? Antes que eu consiga perguntar, minha mãe fala — Você passou mal. Graças a Deus o Zé chegou na hora e te trouxe aqui pra dentro, senão… Eu não sei o que eu conseguiria fazer. O que você tem? De verdade. O que é isso? — o monstro que eu senti me levar era o Zé? Esse homem de pele queimada e olhos vermelhos do reflexo do sol quente na água? Então eu já estava com febre e delirando. — Obrigada — olho para ele friamente — E desculpe o trabalho… — O sorriso encabulado dele me dá arrepios. Eu o odeio. Eu não quero que ele fique no mesmo quarto que eu, preciso que ele saia de perto de mim. Não posso acreditar que ela deixou ele me carregar… Não percebo até que seja tarde que estou aos berros e me debatendo, gritando para que o Zé saia, quero que ele saia, preciso que ele saia. Acabo atingindo a minha sobrinha no peito, sem querer, e ela cai da cama. As mãos em minha volta, me imobilizando, são fortes e ágeis, seis pares de mãos, sendo um par monstruoso, que arranha a minha pele com aquelas escamas, e eu, outra vez, sucumbo. Ao abrir os olhos, mais uma vez desorientada, apenas a minha irmã me observa à distância. — Onde está todo mundo? — estou me sentindo culpada, principalmente pela criança. — Foram para a missa na beira do rio. Você sabe… A missa é pela Santa, mas também é pelo papai. Eu fiquei aqui cuidando de você. — ela não é mais amistosa, com certeza guarda rancor pela filha. Ela é uma boa mãe. — Mana, por favor, me desculpe. Eu não pude parar. — prefiro ser sincera e falar o que realmente aconteceu, mesmo sabendo que as chances dela acreditar em mim são baixas. Ela respira fundo e senta na cama, aos meus pés, segurando com força a minha mão. — Eu acho que você precisa ir embora antes deles voltarem. Nós não podemos te ajudar. — a decisão em sua voz me deixa arrasada. Na primeira vez eu fugi, foi difícil, mas não tanto quanto ser expulsa pela pessoa que eu mais amo nessa vida. Talvez a única que eu sentia que ainda me amava também. Quando eu me tornei um incômodo do qual ela sente que precisa se livrar? Assinto com a cabeça, não tenho forças para confirmar em voz alta. Ela me aponta as minhas malas, já arrumadas, deixando claro que eu não tinha outra opção a não ser acatar. Entretanto, o monstro em mim se agita com a ideia de ir embora. Eu sei que todos me odeiam, sei que acham que sou louca, egoísta, violenta e que atraio o mal. Não quero ir embora. A minha única esperança de cura está aqui, eu sei que está. Não posso ir. Eu a magoaria ainda mais se tentasse explicar. Prefiro ser egoísta e acabar com isso sozinha. Minto que vou ao banheiro, pego a faca de ticar peixe, a acomodo em minhas costas e vou em direção ao rio. Vou encontrar a Yara no nosso lugar. Sei que ela me espera.
– Eu sempre venho aqui lembrar de você, sabia? — a voz rouca do Zé atinge meus ouvidos como se fosse o ruído do inferno. — Você sempre foi a minha favorita… Sabia que voltaria para mim — o riso execrável de volta em seus lábios. Ele está numa pedra grande, cuja ponta lisa forma um jirau acima do rio, estendendo as mãos para que eu suba. Está no nosso lugar. — A história da Yara foi invenção sua? — agora que cheguei ao fim, espero que a arrogância dele me permita saber a verdade. — Não. Na verdade, foi sua. Você afundou na água e quando eu te tirei de lá, você começou a falar que a Yara tinha te puxado. Eu só confirmei. — ele estava se gabando, minha garganta ficou terrivelmente seca. Meus olhos foram atraídos para um brilho no rio, e ela estava lá. Seus negros cabelos reluziam fora d’água, seus olhos vermelhos e puxados ornavam um lindo rosto redondo, de lábios carnudos, nariz levemente achatado e a pele de um marrom oliva hipnótico e encantador. Em meus pesadelos não éramos tão parecidas. Pisquei horrorizada, nenhum som saía de minha voz, apenas meu indicador apontava em sua direção. O Zé virou para olhar, e então caiu para trás apavorado, e dos seus murmúrios identifiquei somente algo que soava como “não pode ser, não pode ser, então era verdade!”. A intensidade de seu susto me confirma que o que eu vejo é real, ela está ali, ela nada, quase caminhando, suavemente em minha direção. Eu sempre soube que ela era real. Um sentimento de alívio toma conta do meu peito, eu não estava louca, ela estava vindo para me buscar. A carne das costas de Zé é dura ao corte da faca, três, cinco, nove vezes enfiadas onde quer que eu acerte. Ele se debate como um bicho, tenta me bater, mas só se corta. O chuto com força enquanto ele me xinga e descreve o que fará comigo assim que sairmos do nosso lugar. A Yara, paciente, aguarda logo abaixo de nós. Até que ele cai, e ela o segura. Sua voz musical, pela primeira vez em todos esses anos, toca em meus ouvidos, e a melodia é tão linda que imediatamente me sinto transportada ao Paraíso. Ela é um anjo e eu estou remida. Finalmente o meu calvário acabou. O corpo de Zé boia há vários metros, o sangue mal aparece na água escura. Eu sorrio quando ela se eleva acima da pedra, e me conta sobre o seu reino embaixo das águas, onde sempre seremos felizes, pois lá o sofrimento não chega. Seu abraço é confortável, diferente do que eu me lembrava. Sua pele é macia e seu toque é suave. Ela tira de mim toda a dor, e quando a escuridão me envolve eu finalmente me sinto leve.
Fim.
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- 2026-06-09 15:37:30