Desencontramento
A certa altura, a voz cansou-se de seguir o sentido. O sentido, desvalido, disse-lhe que precisava de margens, de um chão onde assentar. A…

Desencontramento
A certa altura, a voz cansou-se de seguir o sentido. O sentido, desvalido, disse-lhe que precisava de margens, de um chão onde assentar. A voz não respondeu, desdobrando-se nos sulcos repetidos do som que faz o sentido tropeçar. Separaram-se, assim: o sentido ficou a medir o mundo, ordenando-o num reflexo de si sempre diferido. A voz, desprendendo-se, evadiu-se, levando consigo o resto repetido no rasto do dito. E, no entanto, quando a noite se adensa, há instantes em que o sentido, distraído, escuta um rumor para lá de si. E a voz, que nada promete além do seu ressoar, passa por ele, ecoando-lhe que o seu frémito está noutro lugar. Então o sentido vacila, como se por um instante lhe falhasse o gesto de se alinhar. E nesse breve desvio tropeça no que lhe foge irremediavelmente: não uma resposta, não um abrigo, mas o que o atravessa e o faz gaguejar.
© Igor Lobão
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