As tensões entre natureza, indústria e tempo
A velhice, que antes era lugar de sabedoria, hoje é tratada como algo a esconder ou medicar.
As tensões entre natureza, indústria e tempo
Antes o velho era o guardião das histórias, aquele que sabia como o tempo passava. Hoje é visto como o que “atrapalha o ritmo”, o que “não entende o aplicativo”, o que “repete histórias”.
A casa de Efigênia tem cheiro de vida antiga; um aroma que mistura café coado, broa de milho, sabão em pedra. No fim de semana fomos à sua casa e à de Balica, ambas irmãs da minha avó Amélia. Balica tem noventa e sete anos. Mora com duas filhas, o genro e os cães que parecem compreender o ritmo mais lento daquela rotina: o tempo ali não passa — ele se senta conosco, pega uma cadeira e observa.

Parentela
Fiquei pensando em como ela atravessou quase um século de transformações. Quando nasceu, o rádio ainda era um luxo; hoje, o mundo cabe em uma tela que ela não usa. Seus olhos enxergam pouco, mas ainda brilham quando lembram da minha avó Amélia, sua irmã, e do meu avô Ângelo, que partiu aos oitenta e sete.
Esses quase cem anos de vida e lucidez da Balica não vieram embalados em cápsulas nem em dietas com nomes estrangeiros. Vieram do feijão de cada dia, da comida de quintal, das frutas que amadureciam no tempo certo. O corpo dela foi construído sem rótulos, sem corantes, sem prazo de validade. Hoje, nós vivemos o contrário: precisamos ler os ingredientes para ter certeza de que algo ainda é comida. Os mais velhos de hoje, como Tia Balica, cresceram numa época em que a comida vinha da horta ou da feira livre. Açúcar era raro, refrigerante era festa. A geração posterior passou a se alimentar de produtos com prazo de validade e potes cheios de siglas incompreensíveis. Em 1950 o consumo de alimentos ultraprocessados no Brasil era praticamente inexistente; hoje, segundo a Fiocruz e o IBGE, eles já representam mais de 20% das calorias ingeridas diariamente. Esses idosos que beiram os 100 anos têm o corpo moldado por outra química — a da terra, da gordura natural, do trabalho físico. Enquanto isso, os de agora vivem em meio a suplementos, “light”, “zero” e remédios que compensam o que a pressa da vida tira.
A expectativa de vida no Brasil saltou de cerca de 45 anos em 1950 para 75,5 em 2024 (IBGE). Mas a expectativa de vida saudável — o tempo que se vive com autonomia e boa saúde — é cerca de 65 anos. Ou seja, passamos uma década ou mais vivendo com limitações; talvez tenhamos perdido alguma inteireza nesse processo. Porque, ao mesmo tempo em que a ciência nos prolonga a pressa nos consome. Ao mesmo tempo em que a medicina nos salva a indústria farmacêutica se fortalece. A longevidade virou uma meta de marketing, uma promessa em cápsula.
As conquistas da Saúde Pública são inegáveis — vacinas, antibióticos, transplantes, cirurgias minimamente invasivas. Mas a indústria farmacêutica também se tornou um império econômico. Segundo relatório da IQVIA (2023), o setor global movimenta mais de 1,4 trilhão de dólares por ano, e cresce justamente com o envelhecimento populacional. Há remédio para quase tudo, e também para o medo de morrer. O envelhecer virou mercado: pílulas para dormir, para acordar, para esquecer e para lembrar. Enquanto isso, pouco se fala sobre o direito de envelhecer com dignidade e não com dependência. A medicina que antes salvava hoje também administra a sobrevivência.
Paradoxalmente quanto mais velhos temos menos os escutamos. O velho, que era o guardião das histórias, virou obstáculo para o ritmo moderno. Balica fala devagar em meio a um mundo que responde rápido. E nesse desencontro, a sabedoria dela parece sumir no barulho dos diversos voos que sobrevoam a sua casa, próxima do aeroporto.
Com sorte todos nós envelheceremos. Talvez a velhice tenha se tornado resistência, quando deveria ser descanso, honra. Resistência a um mundo que acelera enquanto ela apenas respira. Resistência a uma época que não tolera o silêncio, nem o limite. Que tipo de vida estamos construindo para os nossos 90 anos? Que legado deixaremos para os que virão? Talvez a resposta esteja em ouvir mais os que já viveram tanto e em buscar equilíbrio entre o moderno e o natural, entre o viver e o viver bem, afinal, nossos parentes mais longevos não comeram uma alimentação industrializada com tanta química e agrotóxico, mas hoje temos um avanço considerável da medicina e Saúde Pública… ao mesmo tempo que tanto ganho se conflita com os interesses da indústria farmacêutica.
메타데이터
- post_id
- 2b71ee8e01db
- slug
- as-tensões-entre-natureza-indústria-e-tempo-2b71ee8e01db
- url
- https://medium.com/@brenocustodio/as-tens%C3%B5es-entre-natureza-ind%C3%BAstria-e-tempo-2b71ee8e01db
- canonical_url
- https://medium.com/@brenocustodio/as-tens%C3%B5es-entre-natureza-ind%C3%BAstria-e-tempo-2b71ee8e01db
- author_url
- https://medium.com/@brenocustodio
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-16 06:26:22