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Qual o problema do Brasil?

12 de março de 2025

Filipe Pereira Mauricio · 2025-03-12 19:57 · 1 claps · 3.7 min read
#brasil #curtas #literatura #literatura-brasileira #nação
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Qual o problema do Brasil?

16 de março de 2025

Fundação de São Vicente, Benedito Calixto, 1900

Fundação de São Vicente, Benedito Calixto, 1900

Vez ou outra tal questionamento me surge. Incomoda-me, na verdade. A pergunta parte do pressuposto de que, necessariamente, algum problema há com o Brasil. Indiscutível. Há um problema. Há vários. Mas como em toda operação que visa o conhecimento, por um recurso de economia do espírito conjugado com os princípios da filosofia, sempre tentamos encontrar aquilo que é mais fundamental, o essencial. O problema. Um único. Que exige, por sua vez, uma única resposta. Um por um, simplificado, sem proposição de um grande esquema de problemas que demanda uma solução holística.

Qual, então, é o problema do Brasil?

Da terra mais fértil que se pode encontrar neste mundo, brotam e crescem vigorosamente seres de uma grandeza de espírito comparável à daqueles homens de gênio que foram responsáveis por marcarem épocas. Indivíduos verdadeiramente investidos nas preocupações mais universais e primeiras e que, por isso, dignaram-se a deixar sua frase no diálogo histórico das grandes questões da humanidade. Entretanto, tão logo produzem seus frutos do conhecimento, esses gênios brasileiros começam a perder suas energias, sua vitalidade, uma vez que se deparam com inúmeras ervas-daninhas aos seus pés. Parasitárias do solo que nutre os grandes, essas pequenas se disseminam em uma velocidade verdadeiramente assustadora. A consequência imediata é o desânimo, a diminuição daquela força com a qual antes os grandes floresciam, e a consequência mediata, a morte, o completo exaurimento do ânimo.

Isso sem mencionar as saúvas, que dilaceram o que encontram pelo caminho, seja grama, erva-daninha, muda, árvore, tiririca, etc.

O problema do Brasil seriam as ervas-daninhas e as saúvas? Bem que nos avisou Saint Hilaire!

Talvez o problema do Brasil não seja as ervas-daninhas ou as saúvas. Talvez o solo todo tenha piorado exponencialmente de alguma forma. Talvez falte minerais e nutrientes, e sobre veneno. O veneno só dá espaço de crescimento para o mais resistente à torpeza e para aquele que é ele mesmo torpe. O máximo ou o mínimo. Pouco tudo e muito nada. Esses são os frutos oferecidos pelo Brasil à humanidade.

Há quem ache que isso não é grande coisa. Há quem advogue para a compreensão de que as coisas realmente são assim. O bem sempre perde para o mal, a inteligência, para a ignorância. Ignorância impiedosa e brutal. A história dos grandes homens de gênio é sempre a história dos mártires. São, necessariamente, produzidos em pequena quantidade e sempre se opõem à maioria. São sempre Sócrates que não podem fugir do tribunal e, consequentemente, da cicuta.

Talvez seja assim e, portanto, o problema do Brasil talvez seja o mesmo do restante do mundo.

Por que, então, nos aparenta essa inferioridade? Ela existe de fato? Parece-me que a proporção de gigantes é ínfima se comparada à proporção de pequenos. E não me acuse o leitor de ter “complexo de vira-lata”. É honrável reconhecer limitações e inferioridades, e deprimente se demonstrar convicto e orgulhoso de uma superioridade inexistente. O que acredito querer dizer é que o Brasil, dentre todos os países do mundo, deveria ser um nascedouro abundante de grandes figuras. Grandes escritores, intérpretes, cientistas, políticos, pessoas de cultura e que criassem sua própria cultura e a espalhasse aqui e mundo afora.

Sempre carreguei comigo a opinião de que o Brasil é um país destinado a um grande futuro. A esse grande futuro. De ilustres. Isso sempre se depreendeu, para mim, dos gigantes que, apesar das imensas adversidades, conseguiram galga-las e exibir seus dons e habilidades, provando para a sociedade brasileira que era possível transpo-las.

Existe uma passagem na obra “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto que, apesar de representar o sentimento que o personagem principal como indivíduo tem frente à sua relação com a sociedade mesma, pode ser utilizada para ilustrar o que foi dito acima.

“Olhei aquelas encostas cobertas de árvores, de florestas que quase desciam por elas abaixo até as ruas da cidade cortadas de bondes elétricos. Quantas flores já as cobriram – quantas formas já as não tinham pisado! Depois que a civilização viera, quantas vezes elas não tinham sido despovoadas, e perdido seu tapete de verdura?! E pelos séculos, apesar dos cataclismos, das evoluções geológicas, da ação do homem, nem uma só vez aquela terra deixara de fazer surgir, plenamente, com as ramagens das árvores e com as plumagens do passaredo, a energia vital que estava nas suas entranhas!

Precisa e linda metáfora que pode ser utilizada de forma analógica ao assunto do qual se trata esse texto. Entretanto, a beleza poética não esconde a tristeza da situação, que, aparentemente, piora de maneira exponencial. A ação do homem, da saúva, da erva-daninha tem acabado com tal energia vital.

O sucesso, a vitória do Brasil sempre esteve ali, na próxima página do livro da História. E parece-me que sempre faltou algo. Sempre falta alguma coisa. É esse o problema do Brasil. É essa falta. É a força que falta para virar a página da História, página essa que, em razão do peso que carrega exige muito de todo a nação.

E desvendamos o problema do Brasil! O problema do Brasil é uma falta!

Bom, mais uma vez não consegui descobrir o problema do Brasil. Não sou muito bom para essas coisas. Nesse assunto, meu temperamento se concentra mais no lamento do que na diligência da resolução. Fica a seu encargo, leitor, descobrir o problema do Brasil. E se descobrir, não esqueça de me contar. Daremos cabo dele.


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