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Entrevista DOP: Susana Nunes

Bailarina, professora e manager, Susana Nunes é um dos nomes de destaque nos últimos anos na Dança Oriental na Área Metropolitana de…

Dança Oriental Portugal · 2026-04-23 23:06 · 0 claps · 9.4 min read
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Entrevista DOP: Susana Nunes

Direitos: Sara Filipe Photography

Direitos: Sara Filipe Photography

Bailarina, professora e manager, Susana Nunes é um dos nomes de destaque nos últimos anos na Dança Oriental na Área Metropolitana de Lisboa. Com uma formação diversificada que passa pela Dança Oriental, ballet, danças latinas e sociais e actualmente a ensinar e a actuar regularmente em bares e restaurantes de Lisboa, destaca-se pela valorização do contexto cultural e pelo compromisso com a divulgação da Dança Oriental em Portugal. Nesta entrevista, partilha connosco o seu percurso, inspirações, visão crítica sobre concursos, método de ensino e reflexões sobre os desafios e o futuro da Dança Oriental no nosso país.

Como surgiu a tua paixão pela Dança Oriental?

Sempre estive muito ligada à dança em geral; foi sempre algo que fez parte de quem sou e da forma como me expresso e processo as minhas emoções. A minha paixão pela Dança Oriental surgiu de forma bastante natural, como consequência do meu gosto pela dança e também do meu fascínio pelo Antigo Egipto — ambas presentes desde que me conheço. Posso dizer que literalmente tropecei na Dança Oriental por acaso… e apaixonei-me de imediato.

Quem são as tuas maiores referências artísticas?

Esta é, sem dúvida, uma das perguntas mais difíceis de responder. Ao longo dos anos, as minhas referências foram-se transformando à medida que fui alargando horizontes e aprofundando o meu percurso.

Quando comecei a estudar Dança Oriental, a minha primeira professora foi a minha maior referência. Mais tarde, inspirei-me nas Bellydance Superstars e na nossa bailarina nacional **Paula Dahab**.

Actualmente, inspiro-me em muitos artistas de diferentes áreas — bailarinos, músicos e também no cinema. Acompanho de perto várias bailarinas que trabalham nos países árabes, especialmente no Egipto, e encontro nelas uma enorme fonte de crescimento enquanto bailarina no contexto do entretenimento.

Entre as referências que mais me marcaram e continuam a marcar, destaco: Miriam Nieli (infelizmente falecida no ano passado), minha professora de Tango Argentino e um exemplo de força, resiliência e humanidade; Mahaila El Helwa, pelas suas extraordinárias competências enquanto coreógrafa e pela sua didáctica exemplar; e Jilina Carlano, que será sempre uma referência pelo dinamismo e inovação que trouxe à Dança Oriental, nomeadamente com a criação de espectáculos como o Bellydance Evolution.

Fora do universo da Dança Oriental, Pierre Dulaine é uma referência pela forma como utiliza a dança como ferramenta de transformação humana e social. O pensamento humanista de Carl Rogers, em particular a obra Tornar-se Pessoa, influencia de forma significativa a maneira como encaro a comunicação na dança, sobretudo em contextos de bares e restaurantes. A noção de presença, congruência e respeito pelo outro reflecte-se na forma como comunico com o público e na postura que assumo em palco, entendendo-a como um elemento essencial na dignificação da Dança Oriental, mesmo em contextos de entretenimento.

Para além da Dança Oriental, em que te especializas, passaste por aulas de ballet, latinas, kizomba. Qual o impacto que esta formação teve na tua dança?

As outras danças tiveram um impacto profundo no meu repertório, na consciência corporal, na preparação física e na compreensão de diferentes técnicas, o que me tornou uma bailarina mais versátil e uma professora com mais ferramentas pedagógicas.

As danças sociais, em particular, ajudaram-me a explorar a minha sensualidade de forma consciente e sem preconceitos. Dançar socialmente implica desenvolver respeito por nós próprios e pelo outro, compreender limites — sobretudo no toque e na proximidade — e encarar a dança como arte e expressão, não como um instrumento de sedução.

Arrisco-me a dizer que estas experiências me tornaram uma bailarina melhor, sobretudo no contexto do entretenimento, onde a proximidade e a interação com o público são constantes.

Direitos: Sara Filipe Photography

Direitos: Sara Filipe Photography

Como tens visto a evolução da Dança Oriental na Margem Sul do Tejo desde que começaste, em 2007?

Desde 2007 houve uma evolução muito significativa da Dança Oriental a nível global e nacional. Foi interessante assistir ao crescimento da comunidade, ao aumento da visibilidade e ao surgimento de mais oportunidades.

Na Margem Sul, este desenvolvimento foi uma consequência natural desse crescimento: mais professoras, mais espaços para atuar — impulsionados também pelo aumento da comunidade árabe em Portugal — e o surgimento de festivais e projectos como a primeira edição do Zayan, o AlmaFusion, o Maktub Dance Festival (actualmente em standby) e iniciativas como o Palco Aberto do Montijo e de Setúbal.

Embora Montijo e Setúbal não sejam exatamente Margem Sul, considero-os parte da periferia de Lisboa e deste ecossistema artístico. Sinto-me muito grata por poder testemunhar esta evolução.

Costumas participar em concursos em festivais nacionais e internacionais de Dança Oriental, como o Bellyquality, GoDance Festival, Raks Noor. Qual a tua opinião sobre os concursos em festivais de Dança Oriental?

Acredito que os concursos são fundamentais no desenvolvimento das bailarinas, especialmente das profissionais — não pela competição em si, mas porque nos obrigam a sair da zona de conforto, testar limites, estabelecer novas metas e criar oportunidades para mostrar o nosso trabalho. Hoje existem alternativas como o Open Stage ou o Palco Aberto, que permitem apresentar trabalho sem a pressão da avaliação. Ainda assim, considero que é precisamente essa pressão que, quando bem enquadrada, nos pode levar mais longe, desde que o foco esteja no auto-desenvolvimento. Saber dançar sob pressão é uma competência essencial para uma bailarina profissional. No entanto, é crucial existir uma boa rede de apoio — professoras e colegas — , pois a experiência pode ser emocionalmente exigente, sobretudo no momento do feedback. O mindset com que se entra numa competição é determinante para que esta seja uma experiência construtiva e não destrutiva.

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Actualmente ensinas no BeiraMar Atlético Clube (Almada). Quais os motivos que te levaram a enveredar pelo ensino da Dança?

Comecei a dar aulas há alguns anos e gostei particularmente de acompanhar a evolução das alunas e o seu desenvolvimento ao longo do tempo. Infelizmente foi um projeto curto, levando-me a fazer uma pausa no ensino e a focar-me no meu desenvolvimento enquanto bailarina solista antes de decidir regressar.

Retomei agora o ensino pelos mesmos motivos: o gosto por ensinar e por partilhar conhecimento, permitindo que outras pessoas construam o seu caminho na dança. Volto também com uma maior maturidade artística, que me permite transmitir não apenas técnica e coreografia, mas também contexto cultural e experiência. A Dança Oriental é uma arte com uma história extensa e múltiplas nuances, e o estudo contínuo revela sempre novas áreas de aprofundamento. Valorizo especialmente o facto de as minhas alunas demonstrarem interesse não só pelos movimentos, mas também pelo contexto cultural em que a dança se desenvolve.

Podes falar-nos um pouco sobre as características do teu método de ensino?

A Mahaila é uma grande referência para mim no ensino e sigo, em parte, a sua metodologia.

Nas minhas aulas exploramos técnica, musicalidade, expressividade, comunicação e contexto cultural. Não faz sentido, para mim, ensinar Dança Oriental sem uma base teórica que nos permita compreender a razão dos vários estilos de dança existentes dentro da Dança Oriental e a forma como esta se vai diferenciando de país para país. Sem essa contextualização, como distinguir um Baladi de um Shaabi, ou as danças egípcias das danças do Golfo?

O meu método inclui também uma preparação física cuidada, com foco em alongamentos específicos, reforço muscular e prevenção de lesões.

Nos últimos anos, temos assistido ao surgimento de vários grupos coreografados por bailarinas em Portugal. Tu própria tens integrado alguns deles — como o Grupo Internacional Mahaila El Helwa, o Projeto Coreográfico Nur Zahira e a Companhia Raks Noor. O que te motiva a participar nestes grupos e que vantagens encontras nessa experiência?

Embora o meu percurso recente se destaque mais enquanto solista, sempre adorei dançar em grupo. A partilha dos ensaios, a conexão entre colegas e a energia colectiva em palco são experiências profundamente enriquecedoras.

Adoro conhecer novas pessoas, que na sua esmagadora maioria se tornam inspirações para mim, com as suas histórias e personalidades. Aprendo sempre imenso com as colegas nestes grupos.

Além disso, é um enorme desafio técnico e artístico: interpretar a visão de outra coreógrafa, dançar como nos é pedido, com um styling específico que não é o nosso ou com combinações que podem tirar-nos da zona de conforto, para mim são sempre oportunidades de aprendizagem e de crescimento.

Dançar em grupo é deixar de pensar no “eu” e pensar no sucesso do todo — tens de pensar no teu espaço, ver o desenho coreográfico pelos olhos do coreógrafo e ajudar a tornar essa visão realidade — uma responsabilidade exigente, mas extremamente gratificante.

És bailarina e também gestora de bailarinas que actuam em bares de Lisboa, como o Cinnamon (Cais do Sodré) e o Layali Alsham (Alvalade). Na tua perspetiva, que qualidades e competências uma bailarina deve desenvolver para atuar nestes contextos?

Para actuar de forma regular e com sucesso, há dois fatores que considero fundamentais: versatilidade e comunicação/conexão.

São trabalhos fisicamente exigentes, em que normalmente fazemos 4–5 entradas que têm de ser de estilos diferentes para captivar a audiência, com diferentes níveis de energia e sem nunca esquecer a comunicação com o público.

Nestes espaços em concreto, é extremamente importante conhecer a cultura e compreender o contexto cultural em que os diferentes estilos se inserem.

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És UX Designer numa empresa multinacional. Existem semelhanças entre estas funções que desempenhas e a dança/ensino da dança? Se sim, quais?

Sim, principalmente na necessidade de compreender o público-alvo e as suas expectativas. Ajuda-me imenso compreender para quem estou a dançar e o que leva as pessoas a irem a um determinado bar/restaurante, o que esperam ver num show e o que mais apreciam. Enquanto manager no grupo Cinnamon, no qual se insere o Layali Alsham, as minhas competências enquanto UX designer ajudaram-me a investigar e compreender o que os clientes procuram, de forma a selecionar as bailarinas de acordo com essas expectativas.

Tanto na dança como no UX Design, trabalhamos sempre para um cliente, num contexto de negócio, no qual temos de estar atentas às necessidades do cliente e adaptar a oferta em função disso.

Podes contar-nos uma peripécia que te tenha acontecido no teu percurso?

Já me aconteceram várias, mas a mais engraçada foi ficar sem música a meio de um drum solo e transformar o público em percussionistas improvisados para terminar o espetáculo. Durante um minuto, todos foram músicos!

Ao longo do teu percurso, já tiveste algum período de desmotivação? Se sim, como o superaste?

Vários. A desmotivação é natural e, no meu caso, surge normalmente após períodos de stress ou cansaço excessivo.

Enquanto ex-enfermeira de Saúde Mental e Psiquiátrica, defendo a importância de ouvirmos o nosso corpo e entendermos a razão da desmotivação.

Falamos muito em disciplina e em rotina, e ambas são essenciais para reverter a desmotivação. Porém, esquecemos que disciplina também é encontrar tempo para descansar e para ter atividades de lazer ou hobbies, aliados a uma rotina de treino. Reencontrar este equilíbrio normalmente é o suficiente para voltar a recarregar as minhas energias.

Direitos: Sara Filipe Photography

Direitos: Sara Filipe Photography

O que achas que se pode fazer para a Dança Oriental se desenvolver mais em Portugal?

A Dança Oriental em Portugal tem percorrido um longo caminho e isso é visível pela quantidade de festivais existentes e também pelo reconhecimento que bailarinas nacionais têm tido fora de Portugal, como é o caso da Diana Costa, da Sara Salazar ou da Joana Coelho, mencionando aqui apenas alguns exemplos.

Existe uma maior procura por aulas teóricas e por conhecimento das danças folclóricas, revelando uma crescente preocupação por dançar de forma consciente e de valorização desta arte, porém ainda há um longo caminho a percorrer.

O maior desafio continua a ser o tamanho da comunidade e o preconceito em torno da dança. É preciso mais foco na dignificação da Dança Oriental, que eu acredito que também passa pela educação das próprias bailarinas: conhecendo melhor o contexto de cada dança e demonstrando esse conhecimento nos espectáculos.

Falamos muito do preconceito que o povo árabe tem relativamente às bailarinas de Dança Oriental e por vezes assumimos esta ideia como uma verdade absoluta e imutável. Isto leva-nos a ser portadoras deste mesmo preconceito cada vez que dançamos. É importante reforçar a nossa dignidade enquanto bailarinas e contribuir para quebrar este ciclo: a mudança começa em nós. Sozinhas não conseguimos mudar a visão de um todo, mas está ao nosso alcance mudar a visão de uma pessoa no público, o que seria uma grande vitória para a dança Oriental!

Podes dar algumas dicas às bailarinas que querem seguir a área da Dança Oriental de forma profissional?

Sejam versáteis, explorem o vosso potencial e não permaneçam demasiado tempo na zona de conforto. Invistam em conhecimento cultural e teórico — uma dança consciente é mais segura, mais responsável e mais única.

Podes nomear uma atuação de Dança Oriental/Fusão que te marcou? Quais as razões que te levaram a sugerir esta performance?

Destaco duas.

A primeira, uma atuação de palco da Jasirah em 2017 pela precisão da técnica, o storytelling e a musicalidade que demonstrou. Numa altura em que pertencia a um grupo em que o foco eram performances de fantasia, marcou-me muito pela sua criatividade.

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A segunda é da bailarina Marisel Murga, em 2024 no Nile Pharaoh Cruise. A sua interpretação de Batwanees Beek num contexto de entretenimento foi transformadora e mudou profundamente a forma como encaro a utilização de clássicos, aumentando o meu repertório neste tipo de actuações. Compreender o que se está a dançar, faz toda a diferença na confiança a actuar e vê-la ao vivo inspirou-me a encontrar a minha identidade enquanto bailarina.

Quais são os teus próximos projetos e objetivos profissionais? (O convidado pode divulgar as suas aulas regulares ou workshops vindouros nesta resposta.)

Continuarei a aprofundar os meus estudos em Dança Oriental, nomeadamente em Raks al Khawleya / Iraqi moderno, a aprender árabe e irei iniciar Dabke.

Vou manter as aulas regulares no Beira-Mar de Almada e os meus shows em bares/restaurantes. Há novidades previstas para 2026… mas, para já, ficam em segredo.

Segue a Susana Nunes aqui!

**Entrevista DOP — 8ªTemporada**

Abril de 2026 | Rita Pereira


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