O Vício Elegante
Eu tinha medo de tirar da dor o seu sentido. Porque me parecia que, se a dor não tivesse sentido, o mundo não o teria. — Clarice…
O Vício Elegante
Eu tinha medo de tirar da dor o seu sentido. Porque me parecia que, se a dor não tivesse sentido, o mundo não o teria. —Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.
Você está sendo enganado. Não por mentira, mas por ornamento.
Conheço um homem que escreve bem sobre a própria desgraça. Não é qualquer desgraça: é aquela calibrada, articulada, que tem ritmo e metáfora. A dor dele tem estilo. Os leitores pausam, comentam, compartilham. “Que texto potente!”, dizem. E ele descobriu, com horror, que isso é um problema.
Porque entre sentir e escrever, instalou-se um terceiro movimento: o cálculo estético. Ele começou a avaliar a própria vida pelo quanto ela rendia literariamente. Um domingo tranquilo virou desperdício de material. A felicidade, quando veio, pareceu rasa demais para o texto.
Ele estava viciado. Não em sofrimento, mas em sofrimento elegante.
É uma cilada refinada. Porque ele não está mentindo. A dor é real. O texto é honesto. Mas a experiência bruta virou sempre rascunho, e só a versão escrita merecia ser chamada de real. Um domingo tranquilo virou desperdício de material. Uma conversa leve, mero interlúdio entre crises. O que não dava texto não merecia atenção. E o pior: o que dava texto bom merecia ser prolongado.
Quem convive com ele percebe. Aquele olhar de quem já está editando enquanto a vida ainda acontece. Como se a experiência bruta fosse sempre rascunho, e só a versão escrita merecesse ser chamada de real. Ninguém quer competir com a própria versão literária. Ninguém quer ser interlúdio.
Não conscientemente, claro. Ninguém acorda e decide: “hoje vou cultivar minha angústia”. Mas o mecanismo é sutil. Quando a dor é recompensada (com elogios, com leituras atentas, com aquele silêncio respeitoso de quem acabou de ler algo “forte”), ela ganha razão de ser.
E o homem, sem perceber, passou a precisar daquela dor.
Virou um diálogo torto: ele escreve para suportar a dor, mas só suporta a dor porque ela alimenta a escrita. É como beber para esquecer que se bebe. Um círculo vicioso com verniz intelectual.
Pior ainda: ele começou a desconfiar da própria alegria. Quando algo bom acontecia, vinha logo a suspeita: “será que é real ou é superficial?”. Como se a felicidade fosse, por definição, menos verdadeira que o sofrimento. Como se só a dor tivesse profundidade.
Seria uma forma de soberba, no fundo? A ideia de que sofrer bem é mais nobre que viver bem. Que a inteligência se mede pela capacidade de articular a própria ruína. Que ser profundo é ser triste.
Há uma teoria psicanalítica sobre como escrever pode sublimar o sofrimento. Donald Winnicott fala em sublimar: fazer a dor subir, dissolver-se no ar como gelo seco que vira vapor sem passar por líquido. Você escreve, a dor evapora, você fica mais leve.
Mas ele não sublimava. Ornamentava.
Não dissolvia a dor; a embalsamava. Não a deixava evaporar; a destilava, concentrava, engarrafava em parágrafo bem feito. A escrita não era evaporação, era taxidermia. Ele estava empalhando sentimentos.
Porque sublimar implica perder. O gelo vira gás e se vai. Você não segura vapor na mão. Mas ele queria segurar. Queria a dor transformada sem ser perdida. Queria o texto bom e o sofrimento preservado. Como quem guarda a carta de término para reler nos aniversários.
“Eu não sou eu nem sou o outro, Sou qualquer coisa de intermédio: Pilar da ponte de tédio Que vai de mim para o Outro”. — Mário de Sá-Carneiro, Lisboa, fevereiro de 1914
Escrever é uma forma mais profunda de sono, portanto, de morte. — Franz Kafka, Cartas a Felice
A diferença é sutil, mas mortal. Na sublimação verdadeira, você escreve e a dor se esvai, ou diminui. Alivia. Você termina o texto três quilos mais leve, como quem fechou um ciclo. Já na ornamentação, você escreve e a dor aumenta. Fica mais nítida, mais definida, mais sua. Você termina o texto confirmado: “sim, eu sou aquele que sofre assim”.
Foi quando ele percebeu (com aquele horror lúcido de quem se observa fazer exatamente o que sabe que não deveria) que estava cultivando a ferida. Não para curá-la. Para fotografá-la bem. Para que, quando mostrasse aos outros, dissessem: “que ferida bonita”.
Seria um tipo especial de narcisismo? Não o narcisismo do belo, mas o narcisismo da ruína. Ele não se achava bonito, na verdade nem pensava sobre isso. Achava-se interessantemente destruído. E há uma diferença entre “estou sofrendo, preciso de ajuda” e “estou sofrendo de um jeito que merece ser lido”. Perguntei a Ovídio se havia nome para isso nas Metamorfoses, a transformação de um homem em sua própria ferida exposta, mas o poeta romano, com aquela discrição dos imortais diante dos vexames alheios, preferiu não me responder.
E o pior: ele tinha plateia.
Na espiritualidade, aprendeu a fetichizar o sofrimento: Getsêmani sem Pentecostes, cruz sem manhã de páscoa. O mártir virou modelo não pela fé, mas pela dor. E o homem, mesmo crente, caiu na mesma armadilha: confundiu profundidade espiritual com intensidade de angústia. Como se Deus morasse apenas nas cinzas, nunca na mesa posta.
Isso contaminou sua escrita. O que ele escreveria sobre graça? Graça não tem drama. Graça é silenciosa, desproporcional. Não rende parágrafo com gravidade. Então ele volta à culpa, à crise, ao deserto. Porque deserto tem narrativa. Graça é só luz; e luz não projeta sombra interessante.
Mas não era apenas cálculo literário. Era performance espiritual. Ele se tornara mais interessante no lamento que no louvor. A confissão de fraqueza rendia mais engajamento que o testemunho de provisão. E o público, cristão ou não, confirmava: comemorava o quebrantamento, ignoravam a restauração.
A literatura virou seu álibi. “Já estou elaborando”, dizia, quando alguém sugeria terapia ou mudança concreta. “Já escrevi sobre isso”, como se escrever fosse o mesmo que resolver. Mas não é.
Escrever sobre dor pode ser travessia ou pode ser decoração. Pode ser ponte ou pode ser mobília. Ele estava mobiliando o inferno, não procurando uma rota de fuga.
E o público era cúmplice. As pessoas gostam dos textos sobre sofrimento. Comentavam, compartilhavam, mandavam mensagens dizendo “me identifiquei tanto”. Ninguém comentava quando ele escrevia sobre vinho ou teologia. Mas quando era confissão, angústia, crise… aí sim, tinha audiência.
Porque o público não quer apenas ler sobre dor. Quer consumir dor alheia para validar a própria. Quer a confirmação de que não está sozinho na desgraça. É uma economia de miséria compartilhada: ele oferece sofrimento articulado, eles oferecem atenção e reconhecimento. Ninguém sai curado. Todos saem satisfeitos.
É vampirismo disfarçado de empatia. O leitor não diz “espero que você melhore”. Torce: “escreve mais”. Porque se ele melhorar, acabou o fornecimento. A identificação depende da ferida aberta. Então o escritor aprende: melhorar é trair o público. E o público aprende: exigir melhora é perder o espelho.
É simbiose de afogados. Ninguém puxa ninguém para fora. Apenas confirmam, um ao outro, que a água está fria para todos.
Mas ele percebeu que estava performando. Não mentindo, mas performando. A dor era real, mas a forma de apresentá-la estava contaminada pela expectativa de retorno. Ele não escrevia mais para si. Escrevia para ser visto sofrendo bem.
Ele distribuía textos em vez de se entregar. Mostrava a dor, mas não pedia ajuda. Porque pedir ajuda é vulnerabilidade nua. Já o texto é vulnerabilidade editada, controlada, embelezada.
Foi aí que entendeu a gravidade: ele não sabia mais ser interessante fora da própria desgraça.
A identidade tinha se fundido à ferida. Ele era o homem que sofria bem. Tire o sofrimento, e o que sobra? Tire a crise, e quem ele é?
Essa é a armadilha final: quando melhorar vira ameaça existencial. Porque se ele sara, perde o material. Se ele se cura, perde a voz. Se ele fica bem, fica quem?
É preciso CORAGEM para aceitar ser banal na felicidade. Talvez, admitir que a vida vai bem, obrigado! não gere grande literatura, mas gera vida. E que talvez (só talvez) viver seja mais importante que escrever sobre não conseguir viver.
Mas ele ainda não chegou lá. Ainda está preso. Porque largar a dor significaria largar a única forma de existir que parece digna de ser notada.
Ele sabe disso. Sócrates diria que é um bom começo.
E este texto? Este texto é mais uma dose.

Leitura recomendada: *O Brincar e a Realidade*, D. W. Winnicott. Estou lendo, ainda não terminei, mas já li o bastante para captar a ideia fundamental: toda experiência cultural (arte, religião, escrita, pensamento simbólico) nasce do brincar. Do brincar mesmo, aquele infantil, com alegria, não do lamber calculado das próprias feridas. A dor psíquica só vira coisa elaborada quando você tem espaço intermediário para criar, simbolizar, transformar experiência bruta em algo compartilhável. A arte é o brincar que sobreviveu à idade adulta. O dr. H., meu terapeuta, não sugeriu explicitamente que eu lesse Winnicott, mas deixou a ideia estrategicamente solta em três sessões consecutivas até eu captar a mensagem. Funcionou.

Nota: O que descrevi no texto acima foi o vício, o veneno. Winnicott prescreveu o remédio. Resta saber se o paciente vai engoli-lo ou se vai dourar a pílula até transformá-la em broche: bonito de ver, inútil para curar.
메타데이터
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