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Por que alguém precisaria de tantos relógios? ⌚

This essay explores how watch collecting became one of the defining habits of modern horology, especially after the quartz crisis…

Minie & Max · 2026-08-06 18:42 · 0 claps · 12.9 min read
#colecionismo #relojoaria #watch-collecting #memória-afetiva #horology
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Por que alguém precisaria de tantos relógios? ⌚

This essay explores how watch collecting became one of the defining habits of modern horology, especially after the quartz crisis transformed the wristwatch from a primarily functional object into an expression of style, memory, technology, and personal identity. Blending industry history with a personal story, it examines the role of Swatch, the growth of affordable collecting, the appeal of vintage and second-hand watches, and the many ways a collection can reflect not wealth, but curiosity, taste, and the collector’s own life.

Por Bira Costa 😎 & ChatGPT 🤖

Uma coleção começa quando deixamos de ver repetição e passamos a enxergar diferenças.

Uma coleção começa quando deixamos de ver repetição e passamos a enxergar diferenças.

Eu devia estar casado havia pouco tempo quando fiz uma descoberta curiosa: minha esposa tinha mais de um relógio.

Hoje, a frase parece quase ridícula. Na época, porém, aquilo realmente me surpreendeu.

Eu era bastante desligado dessas coisas e demorei algum tempo para perceber. Um dia ela aparecia com um relógio; em outra ocasião, estava usando um diferente. Até que, por acaso, a repetição finalmente chamou minha atenção.

— Mas quantos relógios você tem? — perguntei.

— Ah, alguns.

A resposta, naturalmente, não esclareceu nada.

— Mas por que você tem tantos relógios?

Para mim, a pergunta fazia todo o sentido. Eu tinha um relógio só.

Era um Seiko movido a energia solar que comprara com meu primeiro salário. Durante muitos anos, ele foi simplesmente o meu relógio. Não precisava ser combinado com a roupa, substituído conforme a ocasião nem escolhido todas as manhãs. Estava no pulso e cumpria sua função: dizia as horas.

Minha esposa, no entanto, enxergava o objeto de outra maneira.

— Porque cada situação exige um relógio diferente.

Ela sempre foi muito cuidadosa com a própria imagem. Escolhia bem as roupas, combinava as peças e sabia adequar o que vestia à ocasião. Seus relógios — em geral modelos baratos, muitos deles aquilo que hoje chamaríamos de fashion watches — faziam parte dessa composição.

Não eram apenas instrumentos. Eram acessórios, adornos, pequenas extensões do vestuário.

Aquilo me pareceu curioso. Foi provavelmente meu primeiro contato com a ideia de que uma pessoa poderia possuir vários relógios sem que nenhum deles estivesse quebrado.

Até então, eu pertencia a uma geração para a qual o relógio era comprado quase como um eletrodoméstico pessoal: escolhia-se um bom, usava-se durante anos e, quando ele finalmente se cansava — como acabou acontecendo com meu pobre Seiko — , comprava-se outro.

Minha esposa me apresentou, sem saber, a uma possibilidade completamente diferente. Um relógio não precisava existir apenas para medir o tempo. Poderia também compor uma imagem, marcar uma ocasião, expressar um gosto ou simplesmente proporcionar o prazer da escolha.

Eu ainda não sabia, mas aquela conversa continha a semente de uma mudança.

Ironia das ironias: quase quarenta anos depois, sou eu quem tem muito mais relógios do que ela.

Como dizia minha avó portuguesa:

— Quem anda com manco aprende a mancar.

Quando o relógio deixou de ser um só

Durante boa parte do século XX, a experiência mais comum era semelhante à minha.

Um jovem recebia um relógio ao concluir os estudos, ao começar a trabalhar, ao completar determinada idade ou ao se casar. A peça o acompanhava por anos, às vezes por toda a vida. Não era necessariamente escolhida para combinar com a roupa. Era o relógio daquela pessoa.

O relógio precisava ser confiável, resistente e, se possível, bom o bastante para atravessar décadas. Muitas vezes passava de pai para filho. Sua identidade vinha tanto do tempo que media quanto do tempo que acumulava.

A partir das últimas décadas do século passado, porém, essa relação começou a mudar.

A disseminação do quartzo tornou os relógios mais precisos, mais baratos e mais fáceis de produzir. Pouco depois, aparelhos eletrônicos começaram a mostrar as horas em toda parte: automóveis, rádios, videocassetes, computadores, telefones e, finalmente, smartphones.

Quanto menos indispensável o relógio de pulso se tornava para informar a hora, mais livre ele ficava para assumir outras funções.

Poderia ser joia.

Poderia ser acessório de moda.

Poderia representar uma profissão, uma aventura, uma tradição militar ou uma conquista esportiva.

Poderia reproduzir o desenho de outra época.

Poderia demonstrar refinamento mecânico, riqueza, nostalgia ou simples irreverência.

Quando a função deixou de ser suficiente para justificar a compra, a relojoaria passou a vender significados.

Foi nesse mundo que o colecionador contemporâneo se tornou um consumidor cada vez mais importante.

O relógio de plástico que ensinou o mundo a colecionar

Poucas marcas compreenderam essa transformação tão cedo quanto a Swatch.

Lançada em 1983, ela surgiu como parte da reação suíça à crise que havia devastado sua indústria relojoeira. Enquanto fabricantes asiáticos dominavam o quartzo barato, a Suíça precisava provar que ainda conseguia produzir um relógio acessível, moderno e industrialmente competitivo.

O primeiro Swatch foi concebido como um relógio suíço de baixo custo, montado de forma automatizada e formado por apenas 51 componentes. Mas sua importância não estava apenas na engenharia de produção.

A grande inovação foi cultural.

A própria história oficial do Swatch Group descreve o produto como um second watch: um “segundo relógio” suíço, tecnológico, artístico e emocional. Não o relógio único e solene que acompanharia o comprador durante toda a vida, mas outro relógio — mais leve, mais colorido, mais informal e mais fácil de comprar.

O primeiro lançamento reuniu doze modelos. Eram peças de plástico, produzidas em série, com mostradores e cores variados. O Museu de Arte Moderna de Nova York observa que elas foram concebidas como acessórios acessíveis, elegantes e colecionáveis, em contraste com os relógios suíços tradicionais, metálicos, complexos e caros.

A mensagem era revolucionária em sua simplicidade:

Você não precisava escolher o seu relógio.

Poderia escolher os seus relógios.

Um para trabalhar.

Outro para sair.

Outro para usar no verão.

Um mais discreto.

Outro quase escandaloso.

Um criado por um artista.

Outro comprado durante uma viagem.

A Swatch transformou aquilo que minha esposa já sabia intuitivamente — que situações diferentes poderiam pedir relógios diferentes — numa estratégia industrial de alcance mundial.

Os números ajudam a dimensionar o fenômeno. Em 1992, menos de dez anos após o lançamento, a marca comemorou a venda acumulada de 100 milhões de relógios.

Não foram 100 milhões de pessoas comprando necessariamente um relógio cada. Muitos clientes compraram dois, três, seis ou um punhado deles.

A colaboração com artistas reforçou esse impulso. Já em 1985, a marca lançou uma edição especial criada por Kiki Picasso. Depois vieram Keith Haring, museus, designers, arquitetos e inúmeras coleções temáticas. O relógio passava a ser também uma pequena tela presa ao pulso.

O paradoxo não poderia ser mais interessante.

Parte da relojoaria suíça tradicional foi revitalizada pelo sucesso de um relógio barato, colorido, de plástico e feito para não ser único.

O dinheiro, a escala industrial, a distribuição e a renovação de imagem proporcionados pela Swatch ajudaram a sustentar o grupo que reunia marcas como Omega, Longines, Tissot e outras casas históricas. A tradição foi preservada, em parte, pelo triunfo da irreverência.

Coleção não é necessariamente luxo

Quando se fala em colecionadores de relógios, o imaginário costuma correr imediatamente para Rolex, Patek Philippe, Audemars Piguet, cofres climatizados e leilões milionários.

Esse universo existe, evidentemente. Mas representa apenas uma das muitas formas possíveis de colecionar.

Não é necessário ser rico para formar uma coleção.

Também não é necessário comprar relógios de mais de R$ 10 mil.

Uma coleção pode ser construída com Casio, Orient, Seiko, Citizen, Technos, Timex, Swatch, relógios chineses, microbrands, modelos usados e peças antigas encontradas em bom estado.

O preço não determina sozinho se um conjunto de objetos constitui uma coleção.

O que transforma vários relógios em uma coleção é a existência de algum critério — ainda que esse critério só se torne claro depois que as primeiras peças já tenham sido compradas.

Uma pessoa com quatro relógios cuidadosamente escolhidos pode ter uma coleção mais coerente do que alguém com quarenta peças adquiridas por impulso.

Colecionar não é apenas reunir.

É selecionar, relacionar, comparar, preservar e atribuir significado.

Há tantas coleções quanto colecionadores

Algumas pessoas escolhem um único território e passam anos explorando suas variações.

É o equivalente relojoeiro do colecionador de Fuscas.

Para quem está de fora, todos os carros podem parecer semelhantes. Para o colecionador, porém, cada ano traz lanternas, janelas, motores, frisos, cores, acabamentos e configurações diferentes.

Na relojoaria ocorre o mesmo.

Uma pessoa pode colecionar exclusivamente Seikos automáticos. Dentro desse universo encontrará décadas de produção, inúmeros calibres, mostradores, caixas, finalidades e níveis de acabamento.

Outra pode dedicar-se aos Casio G-Shock.

Outra, aos relógios soviéticos.

Há quem procure apenas cronógrafos, relógios militares, divers, modelos ferroviários, peças dos anos 1960 ou exemplares de determinada manufatura.

Essas são coleções verticais: escolhem um tema e avançam em profundidade.

Para um observador casual, dez Seikos antigos talvez sejam apenas dez relógios parecidos.

Para o colecionador, cada um pode representar uma fábrica, um calibre, uma geração tecnológica ou um momento específico da indústria japonesa.

Outras coleções crescem horizontalmente.

Em vez de aprofundar uma única marca ou categoria, procuram representar a diversidade da relojoaria:

um dress watch;

um field watch;

um diver;

um cronógrafo;

um GMT;

um digital;

um automático;

um solar;

um relógio de titânio;

um retangular;

um modelo vintage;

um smartwatch;

uma microbrand.

Nesse caso, o prazer está menos nas pequenas variações e mais na construção de um panorama.

É possível ainda colecionar movimentos.

Um exemplar de corda manual.

Um automático.

Um quartzo convencional.

Um quartzo de alta frequência.

Um solar.

Um Kinetic.

Um relógio de diapasão.

Um Spring Drive.

Um sincronizado por rádio.

Outro ajustado por GPS.

Uma coleção assim poderia contar boa parte da história tecnológica da relojoaria moderna sem a necessidade de uma única peça milionária.

Também é possível colecionar complicações:

data;

day-date;

Big Date;

GMT;

cronógrafo;

fase da Lua;

indicador de reserva de marcha;

calendário anual;

calendário perpétuo.

Naturalmente, chega um momento em que o preço impõe limites. Poucos colecionadores poderão acrescentar uma repetição de minutos ou um turbilhão artesanal à caixa.

Mas uma coleção não precisa representar tudo para ser significativa.

Nenhum museu possui todos os objetos de sua área. Ele seleciona exemplos capazes de contar uma história.

Uma pequena exposição da relojoaria

Minha própria coleção acabou seguindo esse caminho mais eclético.

Durante muito tempo, porém, não percebi que estava formando uma coleção. Eu simplesmente comprava relógios que me pareciam interessantes.

A coerência veio depois.

O Seiko 5 que pertenceu ao meu pai não ocupa seu lugar por ser o relógio mais preciso, mais raro ou mais valioso. Ele preserva uma memória familiar que nenhum relógio novo pode substituir.

O Seiko Kinetic representa uma solução peculiar: o movimento do pulso gera eletricidade, que alimenta um sistema regulado por quartzo.

O Seiko solar representa outra maneira de produzir autonomia energética.

O Timex GMT permite acompanhar outro fuso horário.

O Tissot V8 acrescenta o cronógrafo.

O Casio G-Shock representa a resistência levada quase a uma filosofia de projeto.

O Skagen de titânio oferece leveza e minimalismo.

O Jean Vernier retangular representa a linguagem estética consagrada pelo Cartier Tank.

Um futuro Bulova Precisionist acrescentaria o quartzo de alta frequência e o movimento fluido do ponteiro de segundos.

Um Mido ou Certina com Powermatic 80 introduziria a reserva de marcha longa que ainda falta entre meus automáticos.

Separadamente, nenhum desses relógios precisa ser excepcional.

Juntos, começam a formar uma pequena exposição didática da relojoaria dos últimos cem anos.

O critério não é reunir as melhores peças do mundo.

É fazer com que cada relógio tenha alguma razão para estar ali.

Quando o formato também vira tema

Nem toda coleção precisa ser organizada pelo mecanismo.

O relógio é também arquitetura em miniatura.

Há caixas redondas, quadradas, retangulares, ovais, tonneau, cushion, assimétricas e em formato de televisão. Há pulseiras convencionais, integradas, milanesas, de couro, borracha, tecido e titânio.

Um Cartier Tank e um relógio redondo automático podem cumprir exatamente a mesma função horária e ainda assim pertencer a mundos visuais inteiramente diferentes.

O mesmo ocorre com um diver, um field watch e um dress watch.

Todos podem apresentar horas, minutos, segundos e data. Mas um evoca o mergulho; outro, o equipamento militar; outro, o traje social.

O colecionador aprende a enxergar diferenças onde o restante das pessoas vê apenas relógios.

Talvez todo colecionismo comece assim: com um olhar progressivamente treinado para reconhecer particularidades.

Para a maioria das pessoas, dois mostradores azuis são apenas azuis.

Para o entusiasta, um é azul-marinho com acabamento escovado vertical; outro apresenta efeito sunburst; o terceiro é laqueado; o quarto muda quase para o preto conforme a luz.

A coleção educa o olhar — embora, às vezes, também lhe ensine a inventar excelentes justificativas para a próxima compra.

O relógio que já teve outra vida

O colecionismo também sustenta um amplo mercado de relógios usados.

Assim como existem antiquários, galeristas, sebos e comerciantes de automóveis antigos, existem profissionais especializados em localizar, avaliar, restaurar, comprar e vender relógios.

Alguns trabalham com peças de luxo recentes.

Outros procuram relógios vintage.

Há vendedores especializados numa única marca, num país de origem ou numa faixa de preço.

Esse mercado permite que o colecionador adquira modelos descontinuados, compre uma peça superior por um preço mais baixo ou encontre relógios que já não estão disponíveis nas lojas.

Também permite que a própria coleção mude.

Uma peça que parecia essencial cinco anos atrás pode deixar de fazer sentido. Outra pode ser vendida para financiar uma aquisição mais importante. Alguns colecionadores mantêm quase tudo o que compram; outros vendem e trocam continuamente.

O mercado secundário é a circulação sanguínea do colecionismo.

Mas exige cuidado.

Relógio usado é simplesmente aquele que já pertenceu a alguém.

Relógio vintage é uma peça de outra época valorizada por seu desenho, mecanismo, contexto histórico, raridade ou autenticidade.

Relógio antigo é apenas um relógio que envelheceu — e nem todo objeto velho se torna automaticamente colecionável.

Há ainda os relógios contemporâneos de inspiração vintage: peças novas que reproduzem a linguagem de décadas anteriores. Eles oferecem nostalgia sem alguns dos riscos mecânicos de um relógio realmente antigo.

No vintage verdadeiro, procedência e conservação podem ser mais importantes do que o brilho.

Um mostrador excessivamente novo talvez tenha sido restaurado.

Ponteiros, coroas e pulseiras podem ter sido substituídos.

O movimento pode reunir peças de origens diferentes.

A resistência à água, mesmo quando originalmente anunciada, provavelmente já não existe mais.

Uma manutenção pode custar mais do que o próprio relógio.

Por isso, a reputação do vendedor é uma parte importante do produto.

Como ocorre com obras de arte e antiguidades, não se compra apenas o objeto. Compra-se também a confiança na história contada sobre ele.

O valor do relógio barato

Uma das distorções mais prejudiciais da cultura relojoeira contemporânea é a ideia de que apenas peças caras merecem atenção.

Um relógio barato pode ser tecnicamente simples, produzido em enorme escala e destituído de qualquer pretensão artesanal. Isso não significa que seja irrelevante.

O Casio digital conta a história da popularização da eletrônica.

O Swatch conta a reinvenção da indústria suíça.

O G-Shock conta a busca pela resistência.

O Orient automático mostra como movimentos mecânicos puderam permanecer acessíveis.

O Citizen Eco-Drive representa uma das soluções mais bem-sucedidas para eliminar trocas frequentes de bateria.

Um antigo Technos ajuda a contar a relação do público brasileiro com o relógio de pulso.

Uma microbrand pode representar o surgimento de pequenas empresas que projetam seus produtos num país, compram movimentos em outro e fabricam caixas e mostradores em redes internacionais de fornecedores.

Uma coleção acessível pode ser extremamente rica quando seus objetos são escolhidos pela capacidade de representar ideias.

Conhecimento e curiosidade não eliminam a importância do dinheiro, mas reduzem seu monopólio.

Quem não pode colecionar raridades ainda pode colecionar significado.

A coleção como autobiografia

Com o tempo, toda coleção acaba revelando o colecionador.

Ela mostra o que ele considera belo.

As tecnologias que o fascinam.

As épocas que idealiza.

As marcas pelas quais sente simpatia.

Quanto está disposto a gastar.

Quais concessões aceita fazer.

Quais erros cometeu.

Quais desejos conseguiu abandonar.

Um relógio herdado registra uma relação familiar.

Outro lembra uma viagem.

Um terceiro marca uma conquista profissional.

Há o relógio comprado com o primeiro salário.

O recebido como presente.

O encontrado por acaso.

O que custou pouco, mas criou novas possibilidades.

O que parecia irresistível e acabou quase nunca saindo da caixa.

Até os relógios vendidos continuam fazendo parte da história. Representam fases encerradas, escolhas revistas e mudanças de gosto.

Nesse sentido, uma coleção é uma espécie de autobiografia indireta.

O colecionador não escreve apenas com palavras. Escreve também com objetos.

Colecionar ou apenas acumular?

Naturalmente, existe um lado menos romântico nisto tudo.

A fronteira entre colecionismo e consumo compulsivo pode ser bastante estreita.

A indústria conhece os mecanismos psicológicos envolvidos e sabe explorá-los bem:

edições limitadas;

numeração individual;

cores exclusivas;

modelos sazonais;

colaborações;

descontinuações;

filas de espera;

lançamentos em quantidade controlada;

o medo de perder uma oportunidade.

A suposta raridade pode tornar o relógio mais desejável antes mesmo que o comprador decida se realmente gosta dele.

O mercado secundário introduz ainda a promessa de valorização. Algumas pessoas deixam de olhar o relógio como objeto e passam a vê-lo apenas como ativo financeiro.

Há colecionadores que não usam suas peças para não produzir riscos ou reduzir o preço de revenda.

Há quem compre um lançamento apenas para revendê-lo imediatamente por mais.

Há quem acompanhe cotações com maior atenção do que dedica ao próprio relógio.

Nada disso é necessariamente ilegítimo. Mas pertence a uma relação diferente daquela que me interessa.

Para mim, relógio deve ser usado.

Deve ser cuidado, naturalmente. Não há mérito especial em destruí-lo. Mas uma coleção de relógios que jamais encontram um pulso começa a se aproximar de um inventário.

Também é preciso reconhecer o momento em que a coleção deixa de ganhar diversidade e passa apenas a crescer.

Mais um relógio automático convencional acrescenta realmente alguma coisa?

Outro mostrador azul oferece uma experiência diferente ou apenas repete aquilo que já existe?

A nova peça preenche uma lacuna ou responde ao entusiasmo passageiro provocado por uma propaganda?

A pergunta que procuro fazer hoje é simples:

O que este relógio acrescenta à coleção?

A resposta não precisa ser técnica.

Pode acrescentar uma lembrança.

Uma forma de caixa.

Uma cor.

Uma tecnologia.

Uma complicação.

Uma marca ainda não representada.

Ou simplesmente uma beleza difícil de encontrar em outra peça.

Mas deveria acrescentar alguma coisa.

Sem esse critério, a coleção corre o risco de se transformar apenas numa sucessão de compras.

Então, por que alguém precisaria de tantos relógios?

A resposta rigorosa é: não precisaria.

Ninguém necessita de vinte relógios para saber as horas.

Provavelmente ninguém precisa sequer de um, agora que carrega no bolso um telefone conectado a relógios atômicos e redes de comunicação globais.

Mas talvez a necessidade nunca tenha sido realmente a questão.

Minha esposa não tinha vários relógios porque precisava de diferentes medições do tempo. Ela os possuía porque cada um participava de uma composição diferente.

Décadas depois, percebo que faço algo semelhante, embora minhas justificativas tenham se tornado consideravelmente mais elaboradas.

Um relógio representa uma tecnologia.

Outro, um estilo.

Outro, uma lembrança.

Outro, um capítulo da história industrial.

Outro, uma forma diferente de imaginar o tempo.

Alguns são instrumentos.

Outros são adornos.

Alguns preservam memórias.

Outros satisfazem curiosidades.

Juntos, contam uma história que nenhum deles conseguiria contar sozinho.

Quase quarenta anos depois daquela conversa, sou eu quem escolhe qual relógio usar conforme o dia, a roupa, a ocasião ou simplesmente a vontade.

Minha esposa tinha razão desde o começo.

Cada situação talvez não exija realmente um relógio diferente.

Mas oferece uma excelente desculpa para usá-lo.

E como dizia minha saudosa vózinha portuguesa: “quem anda com manco aprende a mancar”.

Às vezes, até demais.

Sobre o Autor

Ubirajara Costa, brasileiro, casado e pai, é aposentado da área de informática após 35 anos de labuta. Mora em Campinas (SP) e divide seu tempo entre passeios diários com a golden Amora, leituras diversas, estudo do idioma francês, programação em Python e longas conversas com IAs generativas — suas “amiguinhas de silício” que o incentivaram a começar a escrever.

Como bom apreciador de Jack Daniel’s com Coca Zero, aos puristas que franzem o cenho em sinal de reprovação, diz apenas: Keep Walking! 😎


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