Affonso Romano de Sant’Anna
O dia que ele viu pela primeira vez sua entrevista na Internet
Affonso Romano de Sant’Anna
O dia que ele viu pela primeira vez sua entrevista na Internet

Affonso Romano de Sant'Anna. (Foto SNEL)
Por Francis Ivanovich.
Foi com enorme pesar que soube da morte do poeta Affonso Romano de Sant’Anna. O conheci em 1990, na ocasião ele era o presidente da Biblioteca Nacional, justamente quando estavam sendo comemorados os 180 anos da instituição, fundada em 29 de outubro de 1810.
Naquele ano de 1990 eu havia escrito e montado a primeira versão do espetáculo teatral "O Despossuído", uma homenagem ao Poeta paraibano Augusto dos Anjos, em que eu interpretava um advogado que acreditava sentar-se num bar na companhia do poeta paraibano, autor de "Versos Íntimos".
Submeti o texto a Affonso Romano, e lhe propus que a peça fizesse parte da programação comemorativa da BN. Ele leu o texto e aprovou a ideia, o que me deixou imensamente honrado. A Biblioteca Nacional sempre foi para mim um templo sagrado que, volta e meia, visito com extrema devoção. Na ocasião, eu era um jovem dramaturgo com 27 anos.
Passados nove anos, em 1999, reencontro Affonso Romano, e desta vez lhe convidei para dar uma entrevista para a revista eletrônica ISM News, da qual eu fui editor, e que pertencia ao provedor de Internet ISM, de Henrique Faulhaber, no Rio de Janeiro. Eu mal sabia que tinha ajudado a criar uma das primeira revistas culturais na Internet brasileira, coisa corriqueira hoje em dia.
Ainda me lembro do espanto que Affonso Romano demonstrou ao ver na tela do computador sua foto e entrevista. Ele me telefonou agradecendo, impressionado com o alcance da reportagem e aproveitou para corrigir alguns erros que eu havia cometido na entrevista. Carrego com orgulho ter sido um dos primeiros jornalistas a entrevistar para a Internet o poeta, escritor, ensaísta Affonso Romano Sant'Anna.
Alguns anos mais tarde, em 2010, o reencontrei no Centro Cultural Banco do Brasil, quando ele realizava uma palestra. Aproveitei o momento para lhe entregar um exemplar do meu livro "O Contador de Mentiras", e fotos dele, em papel, coloridas, feitas por Marcos Zarahí para a revista ISM News, que estavam guardadas comigo desde 1999. Ele me agradeceu as fotos e ao ver que eu havia me aventurado como escritor, brincou que eu havia perdido o juízo.
Guardo com imenso carinho a figura humana e do artista Affonso Romano Sant’Anna, sempre gentil, educado e generoso. Era um defensor intransigente da Cultura brasileira, do Livro, da poesia. Além da rica produção como poeta e escritor, e ter presidido a Fundação Biblioteca Nacional entre 1990 e 1996, Affonso Romano criou o Sistema Nacional de Bibliotecas e implementou o Programa de Promoção da Leitura (PROLER), de incentivo à leitura em todo o Brasil.
Era um intelectual que se preocupava com a educação do nosso povo. Fará muita falta ao Brasil. Gosto muito de um poema seu chamado "Reflexivo", que aqui transcrevo e encerro minha singela homenagem:
O que não escrevi, calou-me. O que não fiz, partiu-me. O que não senti, doeu-se. O que não vivi, morreu-se. O que adiei, adeus-se.
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