O presente
Eusébio caminhava pelas ruas de São Paulo com um volume na mão. Era um presente (claro, olha o título deste conto) que queria dar para uma…
O presente
Eusébio caminhava pelas ruas de São Paulo com um volume na mão. Era um presente (claro, olha o título deste conto) que queria dar para uma pessoa muito especial na sua vida. Seus longos cabelos pretos e lisos esvoaçavam por causa do vento que soprava na capital paulista. Seus olhos verdes claros prestavam atenção no movimento da calçada. Poucas pessoas andavam pela rua, pois já era tarde da noite, por volta de 23 horas. É perigoso andar nesse bairro a essa hora da noite, pensou Eustáquio (sim, o narrador não sabe se o nome do personagem principal é Eusébio ou Eustáquio, na dúvida chamarei por qualquer um dos dois).
Eusébio, depois desse pensamento, começou a ficar mais desconfiado dos poucos pedestres que passavam. Teria pego um Uber para casa para presentear a pessoa muito especial, pela qual faria tudo por ela. Mas, infelizmente, seu celular tinha descarregado. Mas que pessoa suspeita, melhor desviar o caminho, pensou Eustáquio. E assim nosso protagonista atravessou a rua e foi para a outra calçada, sempre com o volume na mão do presente para uma pessoa muito especial (e que pessoa especial, leitores, é realmente algo único que une Eustáquio a essa pessoa).
Olhou para a pessoa suspeita e viu que estava do outro lado da rua, andando em sentido oposto ao seu. Era um jovem branco e mal encarado, usando uma calça jeans azul e uma camiseta preta. Eusébio viu que o perigo passara, rapaz já estava se afastando. Suspirou aliviado até que, de repente, ouviu os passos de alguém correndo e percebeu, para sua surpresa, que o jovem se aproximava dele correndo.
— Perdeu tio, vai passando tudo que você tem, a começar por esse embrulho aí.
Eustáquio ficou estarrecido. O embrulho era muito valioso, não podia entregá-lo para este ladrão. Tentou argumentar.
— Pegue minha carteira, pegue meu celular, pegue minhas roupas, mas deixe o embrulho comigo. É um presente para uma pessoa muito especial.
— Passa tudo coroa, inclusive esse embrulho. Tenho aqui uma faca. Vai se arriscar por um presente qualquer?
— Não é um presente qualquer, eu já disse que é para uma pessoa muito especial.
Eustáquio/Eusébio avaliou bem a situação. Poderia entregar o presente e sair ileso ou arriscar-se. O presente era muito especial e para uma pessoa mais especial ainda e foi muito difícil conseguir ele, era importado e era único! Pena que o seu celular descarregou, senão teria pedido um Uber. Eusébio pensou também que tinha uma vantagem, a surpresa. O malandro sacara sua faca assim que mencionou ela. Portanto tinha uma visão clara da arma.
— Tudo bem então, vou te dar o presente.
O jovem relaxou e fez gestos com a mão para agarrar o presente. Nisso Eustáquio soltou o presente e deixou cair no chão e enquanto o jovem se distraia com isso foi direto para a faca dele. Segurou os seus pulsos e tentou desarmá-lo com as duas mãos. O jovem desferiu um soco bem dado na cara de Eusébio, mas ainda assim o protagonista continuou segurando os pulsos do bandido e conseguiu, com muito esforço, desarmá-lo. Eusébio agora empunhava a faca ameaçando o meliante. O jovem esbugalhou os olhos e olhou assutado para o adulto que sustentava uma faca apontada para si. De repente viu o pacote de presente e teve uma ideia, fingiu que iria pegá-lo, o que imediatamente fez Eustáquio ir em direção ao presente. Aproveitando a distração, a ladrão foi firme na faca de Eusébio e se enfolfinhou com ele. Ambos caíram no chão e ficaram lutando pela faca. De repente o jovem se afasta do local da luta e Eustáquio está pasmo, olhando para a sua barriga, onde a faca está enfiada e de onde jorra rios de sangue. O meliante sai correndo da cena, não sem antes pegar o embrulho de Eusébio. Um transeunte que estava por perto corre para socorrer Eusébio. Liga para uma ambulância e os enfermeiros correm com a sua maca para socorrê-lo. Eustáquio desmaia e quando acorda está na cama de um hospital. O primeiro pensamento que tem é onde está o embrulho de presente. Olha para o lado e percebe sua esposa, sua bela esposa, a destinatária do presente, com expressão preocupada e ansiosa.
— Eustáquio, o que aconteceu, por que você não ligou e por que você não pegou um Uber para casa?
— Meu celular descarregou amor.
— Você sabia que correu risco de vida, meu bem? Tiveram que fazer uma cirurgia às pressas em você.
— Isso não importa, o que importa é o meu presente para você, é algo muito especial e único. Mas eu perdi o presente, acho que vi o ladrão levando ele.
— Eustáquio, não interessa esse presente. A sua saúde é mais importante. O presente da sua presença é o presente mais importante para mim.
Eusébio concordou.
메타데이터
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