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Por onde andam os monstros da América?

Monstro, no dicionário: “Ser de proporções descomunais que, com os mais variados aspectos e formas, tem sua origem em mitos ou na fantasia…

Ygor Pontes · 2023-11-25 10:25 · 2 claps · 6.2 min read
#futebol #historia #monstro #libertadores-da-américa
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Por onde andam os monstros da América?

Monstro, no dicionário: “Ser de proporções descomunais que, com os mais variados aspectos e formas, tem sua origem em mitos ou na fantasia, geralmente trazendo consigo um comportamento violento e ameaçador.”

Durante as expedições colombianas na recém invadida “América”, uma dúvida acompanhava os colonizadores; Ao passo que adentravam o território e descobriam o Novo Mundo, suas riquezas, e o diferente se apresentava, uma voz intrusiva ressoava insistentemente:

“- Será que aqui encontraremos monstros?”

A resposta, aos poucos, parecia cada vez mais evidente a eles; ainda que a ideia do convívio com outras perspectivas de ser e estar no mundo lhes assustassem, não era esse o tipo de monstro que pensavam encontrar pelas bandas de cá. Portanto, os quatro cantos do continente foram invadidos, saqueados, suas populações dizimadas, e… nenhum monstro?

Algo que pudesse fazer-lhes voltar uns aos outros com expressões lamuriosas, as calças borradas e terços à mão, e então só conseguissem pensar em zarpar fora?

Bom, nada que seus limitados olhos puderam ver os demoveram da empreitada colonial.

No entanto, já no tempo dos “Libertadores da América”, eu, caro(a) leitor(a), posso garantir: os monstros existiam, eu vi com os meus próprios olhos.

Como o destino, eles têm seu tempo próprio. Surgem e desaparecem, mudam de lugar. Têm características únicas que os diferenciam entre si, mas comum a todos eles um único poder: A capacidade de gerar calafrios, assustar; e caso deixar-se golpear por algum deles, acabar com sonhos que fazem a vida verdadeiramente parecer um inferno sem fim. Terrível.

Mas eles andam sumidos.

Não que eu ache que eles se ausentaram definitivamente, longe disso, sigo vigilante na espreita. Porém, ao vivenciar no início do século XXI seus tempos de terror no continente, fico descrente quanto aos volumes de suas aparições mais recentemente.

O que eu sei é que eles têm um dia e um horário favorito, que mais parece um local e se chama: “quarta-feira às vinte e uma e quarenta e cinco.” E o espaço físico de sua aparições, mais propriamente dito, tem nome e sobrenome: Estádio de Futebol.

Antes que o(a) amigo(a) leitor(a) faça protestos ao passo que eu apresente alguns dos mais abomináveis que já conheci, alerto que falo aqui exclusivamente de monstros. Nada de imperadores, reis, príncipes, sheiks, mestres, magos, guerreiros, bruxos, santos, bobos-da-côrte, fenômenos, ou até mesmo cometas. Eu falo do medo.

E também, ainda que eu possa me esquecer de tantos outros que pelas Américas assombraram, os apresentados certamente causaram tanto terror por aí quanto as pernas trêmulas e o bater de dentes podem recordar.

Vamos a eles…

Na ordem cronológica, o primeiro que lembro de ver. Imponente, titânico. Incrivelmente paradoxal, pois ao mesmo tempo que tinha um olhar perfurador e um semblante irredutível, possuia traços angelicais, além de ser incrivelmente afetuoso juntos aos seus; fiel.

Capaz de feitos incríveis e inesperados, sobretudo com a sua perna sinistra, afinal uma loucura única lhe pertencia. O seu assombro era incontrolável, e ao ve-lo, julgo impossível ficar indiferente. Sua potência advinha da sua forma, apesar de vez ou outra utilizar diferentes armas para aterrorizar por aí.

Fonte inesgotável do que chamam brio. Caso você se perdesse à noite, como um colosso, passaria por cima de ti sem nem perceber sua suposta relevância. E confirmo, muitas foram as dolorosas noites que ele, sem pena, o fez.

Certa feita, em uma das suas grandes jornadas, foi visto por muitos olhos do outro lado do mundo causando furor e pânico, e como se pode imaginar, saindo satisfeito. Afinal, é isso que os monstros fazem.

O inebriante rugir.

O inebriante rugir.

Martín Palermo, você é pantagruélico.

O que vem a seguir, meu(minha) amigo(a), é parte das mais macabras estórias do folclore latino-americano. Este ser, como um mau-presságio, já adentrava no mais íntimo dos pensamentos somente ao ser mencionado. Mãos juntas, palmas coladas, testa na ponta dos dedos: sob o suor frio é hora de pedir clemência.

Não há segredo, sua origem é denunciada em seu rosto, em sua pele e nas suas escolhas. Repare. Você que acreditava que monstruosidade e força correspondem à megalomania, perca sua fé. Deixe que a sua figura lhe espante no encontro; Antecipe seu julgamento e o amanhã não mais existe.

Chutes? inesperados e precisos como a flecha de um guardião guarani. Força? Onça pantaneira. Tem por hábito ser preciso ao escolher suas vítimas. Implacável. E não é uma, nem duas, muito menos três. Sua fome é proporcional à sua capacidade.

Inteligência sobrenatural para a criatura bestial que era. Aterrorizava, parecia, por puro deleite. Bailava desferindo golpes e gerando murmúrios chorosos. Até o fim.

Como se não bastasse, chegava a ser irônico. Feito o encontro, e a menos que você não lhe fosse interessante o suficiente (ou digno), não haveria saída. Ao correr em círculos, se debater e chamar por seu salvador, ele subitamente apareceria com um sorriso no rosto e as palavras nos lábios:

“ — Estoy aquí.”

O macabro sorriso do adeus.

O macabro sorriso do adeus.

Salvador Cabañas, você é amedrontador.

Hora de lembrar do tempo. Uma das variáveis da equação da velocidade. A depender, de acordo com o espaço percorrido e aceleração, é variável. Agora faça as contas: primeiro, some a confiança inabalável de um ser-monstro que sabe o seu lugar no mundo com a leveza de um ataque voraz, porém sereno, que antevê o que vai alcançar. Logo em seguida, divida o resultado com a tranquilidade do pertencimento à estória maquiavélica que será infindáveis vezes contada. Quantos quilômetros por hora? Quanto tempo o tempo tem?

Indiscutivelmente imensurável. Seu ímpeto de ferir e estraçalhar é verificável à medida que o espaço ao seu redor cede para receber o seu peso. Viajante da malha física para a dimensão metafísica. O início e o fim estão ali, juntos, grudados.

Não é surpresa encontrar na natureza o guepardo como sinônimo de velocidade; o prefixo chama. Ao ver esse monstro no seu habitat natural, é compreensível que haja a imediata associação, vista a sua desenvoltura em alta performance. Nada é páreo, nada chega. Se por ventura ousar em interromper seu ataque, golpe fatal, as consequências certamente não serão felizes. A crueldade vem à galope.

Por favor, silêncio! Respeite a sua unicidade. Não é preciso que ele mais nada faça ou diga, não apareça aqui e ali, lá e acolá. Até por que mesmo que aparecesse, suas incapazes vistas não lhe alcançariam. Ele passa, a dor não.

Shhh! Nada diga, sinta a queda.

Shhh! Nada diga, sinta a queda.

Joffre Guerrón, você é destruidor.

Imagine por um instante… deixa, você ainda não entende. Com tudo que eu já trouxe você ainda não percebeu? Mesmo que as características individuais estejam associadas à qualidades, não é disso que se faz a monstruosidade do monstro. No intrínseco é o elemento místico. Ele não precisa ter isso ou aquilo, “performar” assim ou assado; Ele é ou não é. E sem muitos floreios, este também é.

Engraçado que diferentes de outros, este aparece sempre igual…mas diferente. Esclareço: ainda que seu semblante seja visto até mesmo no escuro, e portanto inconfundível, seus mantos e adornos diferem de aparição em aparição. Constante serviçal da maldade, muitas vezes só é percebido no ato final. Ele já estava presente; tu, teimoso, até mesmo sentiu um arrepio que comunicou a má sorte, e ainda assim escolheu não dar ouvidos ao que importa.

Intuição. Não são todos que a tem, e dos que tem, nem todos dão valor. Este ser não titubeia. Tal qual entre as divindades e os homens messiânicos dá-se uma confusão, muitas das vezes acreditou-se que ele seria a encarnação da premonição (e não sou eu que vou dizer que não é). A verdade é só uma: desde antes ele já sabia, estaria ali pra fazer o que devia ser feito.

E na prevista despedida, quase como em um ato de bondade, faria questão de acarinhar-te e dizer:

“- Ouve teu daemon!

Fora de hora: A mensagem foi passada.

Fora de hora: A mensagem foi passada.

Santiago Silva, você é infernal.

Como anteriormente fiz questão de colocar, não que eu não saiba da existência de mais deles, mas estes, sem sombra de dúvidas, foram criaturas frutos dessa terra que tudo dá. E como em tudo está inscrito: também dá assombro, dá trauma.

Ei, psiu! Também você que sai daqui com que é nosso, cuidado…perceber não é o seu forte. O padrão é julgar a sua crença como parâmetro, certo? Acontece que a realidade se sobrepõe à sua ideia, e a sensorial desatenção do início cobra, cobrou, e cobrará caro.

Por isso e por tudo que vi, ao mudar o tempo verbal reafirmo:

Não queira encontra-los, mas…

Monstros existem!

Ygor Pontes


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