Daseinsanalyse — Um Modo de Ser
Sobre escuta, criação e o que nos faz infinitos

Autorretrato, agosto de 2017
Daseinsanalyse — Um Modo de Ser
Sobre escuta, criação e o que nos faz infinitos
por Roberto Cruz
Em suas Cartas a um Jovem Poeta, publicadas postumamente em 1929, Rainer Maria Rilke reúne correspondências que enviou entre 1903 e 1908 a Franz Xaver Kappus, um jovem aspirante a escritor. Em uma delas, ele escreve:
“Há apenas um meio. Volte-se para si mesmo. Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele se estende até as raízes mais profundas do seu coração. Confesse a si mesmo: se lhe fosse proibido escrever, você morreria?”
Essa pergunta ecoa além do campo literário. Vocês morreriam se fossem impedidos de atender? Vocês morreriam se a clínica lhes fosse interditada? Acredito que apenas esse trecho já baste para provocar reflexões profundas sobre o que fazemos e sobre nossas paixões.
Me perguntaram esses dias o que faz um bom analista, e eu nunca soube responder isso com propriedade. Mas suspeito e sustento que o campo de formação é a prática. Existem pessoas que se destacam não pela sua inteligência, mas pela sua sensibilidade e respeito ao fenômeno como ele se apresenta. Pessoas que, assim como o jovem poeta, precisam aprender e se perguntar sobre o âmago dos seus desejos, pois isso será confirmado, alterado e desafiado ao longo de todos os atendimentos.
Seja com Binswanger, Boss ou Kunz, é inegável que o lugar onde eles mais travam brigas é no campo intelectual. Um bom daseinsanalista não levanta bandeiras nem evita se sentar com o estranho ou o inimigo — ele até os cultiva, pois entende que a vida pode ser assim. E por que não, afinal?
Martin Heidegger, em A Origem da Obra de Arte, nos lembra que a obra é o lugar em que a verdade do ser se põe em jogo. Não se trata de representar algo, mas de abrir um espaço onde o mundo e a terra possam se confrontar, e algo se revele. Talvez na clínica aconteça o mesmo: não é sobre impor interpretações, mas sustentar um campo de abertura. O analista, como o artista, se coloca diante do mistério e aprende a esperar. Aprende a não fugir diante do que ainda não tem nome.
Essa postura de escuta e presença aparece também em Rick Rubin, no livro O Ato Criativo. Para ele, o artista é alguém que sintoniza uma frequência que já está no ar, alguém que não cria do nada, mas que se alinha com o invisível. Pensar a clínica por essa via é perceber que atender alguém não é aplicar um método, mas entrar numa afinação delicada com o que ali emerge. E isso exige mais silêncio do que fala, mais presença do que técnica.
Para além das complexidades teóricas que o título deste ensaio sugere, o que permanece é a reflexão constante sobre nossa própria posição. A diferença entre um bom analista e um ruim nunca me parece clara, mas é curioso como a frase “existem infinitos maiores do que outros” faz sentido aqui. Podemos entender que, embora seja fundamental respeitar as limitações de um analista, também é preciso olhar para aquilo que transborda e nos torna infinitos — aquilo que não pode ser ensaiado, o que emerge da fenda que rasga e cria mundo no gesto poético, aquilo que, afinal, só pode ser um modo de ser.
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