Laroiê, seu Osíris: Um Deus Egípcio numa Gira
Calma! Não é nenhuma tentativa de fazer uma Kimbanda Kemética. Mas onde duas ou mais culturas convivem é normal uma tentar entender a outra…
Laroiê, seu Osíris: Um Deus Egípcio numa Gira

Calma! Não é nenhuma tentativa de fazer uma Kimbanda Kemética. Mas onde duas ou mais culturas convivem é normal uma tentar entender a outra com suas chaves e, quem nasce imerso nelas, junta todas para entender a realidade. Aliás, quaisquer religiões, sistemas místicos e mágicos absorvem influências de outras culturas, vide a Árvore da Vida hebraica vinda do Neoplatonismo, Catolicismo absorvendo o paganismo, os Pergaminhos Gregos Mágicos refletindo o caldo multicultural do Mediterrâneo e da Ásia Menor e Aloizio Fontinele associando os mortos com espíritos infernais do Grimorium Verum. O processo sincrético ocorre espontaneamente seja por associação intelectual, seja por fatores intuitivos como epifanias. Aqui tratarei do segundo caso: uma experiência pessoal onde o deus egípcio do mundo dos mortos deu as caras em uma gira de quimbanda.

Estava em uma casa de quimbanda para uma cerimônia quando em consulta com o chefe da casa, Seu Tranca-Ruas, ele perguntou-me se gostaria de saber qual era o meu exu. Concordei e falou o nome (é da linha da Calunga). Quando começou a gira em si, ele tentou fazer baixar a entidade: colocou o seu chapéu na minha cabeça e balançou-me — necessário dizer que já havia bebido bastante com ele. Eu estava na mentalidade de não segurar, mas também de não forçar. Não deu em nada, mas quando tirou o chapéu da minha cabeça eu assumi, involunta-riamente, a clássica posição de múmia: braços cruzados em cima do peito e pés unidos. Imediatamente, ouvi na minha cabeça: “Osíris”. A gira seguiu normal sem acontecimentos destoantes. Na hora achei estranho, óbvio, tipo um gringo sambando: quer participar, mas não está se mexendo da maneira correta. Bem, não é preciso ser gênio para perceber que um deus dos mortos em cerimônia de culto aos mortos combina. E como Thelema é a minha linha iniciática e que esta carrega forte relação com mitologia egípcia, também não tem nada dissonante Osíris fazer-se presente. O interessante é que esse deus não goza, digamos, de “boa imagem” no pensamento de Aleister Crowley. É símbolo de um período da história a ser superado e muitas vezes utilizado de forma negativa, ainda que represente um processo pelo qual todo iniciado deva passar. Não é um vilão, que seria Seth, mas é pai do herói, Hórus — “vilão” não seria a referência adequada, pois símbolos tratam de conceitos, no caso, destruição, que é parte da vida.

Para dar um colorido aqui, preciso falar de mim: nunca tive especial fascínio pelos mitos egípcios em especial, mesmo sendo thelemita; era mais um como outros de valor. Aliás, sempre achei o Egito antigo superestimado, por ser alvo de especulações idiotas e projeções sem pé nem cabeça. Porém, isso mudou em 2018 quando visitei o Museu Britânico. Ao chegar no espaço chamado “After Life”, onde vários sarcófagos egípcios estão reunidos, bateu algo diferente. Uma coisa é ver algo por foto, mesmo video, outra é ao vivo. Passaram várias coisas pela minha cabeça dentre elas como tratamos mal a morte. A forma como faziam os sarcófagos, arte, pintando dentro com simbologia religiosa e outros detalhes acendeu algo em mim. Percebi que certas referências thelê-micas (por consequência da Golden Dawn) possuem mais coerência e signi-ficado do que pensara. A minha quase indiferença foi sendo substituída por admiração e respeito. Voltando a Osíris: uma experiência espiritual possui camadas de compreensão, internas de quem passa por ela e externas que servem a todas as pessoas. Aqui cabe uma externa que será sobre o deus.

Osíris (grego de “Wsir”) é rei do submundo, (Duat), onde a pessoa passa por uma provação moral onde vai para o Sekhet-Aaru, Campo de Juncos (o Paraíso egípcio) ou é devorada por Ammit deixando de existir. O seu mito é fundamental para a religiosidade egípcia: foi morto pelo irmão Seth, esquartejado e as partes espalhadas pelo Egito. Ísis, a esposa, conseguiu reunir todas, menos o pênis. Mas queria um filho: subiu no marido e, através de magia, concebeu Hórus. Ele, então, enfrentou Seth e vingou o pai, mas Osíris permaneceu governando o Duat. Porém, todavia, contudo, entretanto, uma divindade raramente surgiu como a vemos hoje. Zeus, Odinn e Jeová, por exemplo, nenhum deles caiu do céu pronto. Pode-se rastrear a construção. Camadas de significado de um deus têm vinculação, também, com as divindades que o compõe na formação indicadas pelos epítetos. Com Osíris é a mesma coisa. De modo geral, um deus arcaico originalmente associado à morte e ao reino dos mortos (possivelmente um deus chacal ou um rei morto) foi ligado à realeza (antropomorfizando-se através da identificação com o Rei morto) e absorveu características de deidades locais e conceitos cósmicos, resultando em um deus que oferecia a promessa de vida eterna. Começou a se consolidar no final da Quinta Dinastia (2.494 a 2.345 a.C.).
Deidades Locais:
-Khentiamentiu- divindade de Abydos, um centro religioso importante onde reis das primeiras dinastias foram enterrados;
-Sokar- deus funerário de Mênfis;
-Anúbis- o deus com cabeça de chacal. Realizava serviços para os mortos e concedia um bom enterro;
-Andjety- deus do baixo Egito. O cajado e o flagelo, tradicionalmente associados a Osíris são mostrados nos Textos das Pirâmides como insígnias de Andjety;
-Rá- divindade solar. Ligado como parte de um ciclo recorrente do nascente e poente. Os deuses se unem temporariamente a cada noite durante a passagem de Ra pelo submundo. Osíris pode ser o sol que ilumina o submundo assim como Ra brilha na terra dos vivos. Puxando uma interpretação contemporânea, Osíris é o sol interior, oculto, visível apenas aos iniciados*.
Atribuições:
-Deus dos Mortos e da Vida após a Morte;
-Rei, soberano e juiz — vide “O Livro Egípcio dos Mortos” no julgamento do morto, o processo de justificação ;
-Deus agrário- do ciclo da agricultura e a inundação do Nilo;
-Modelo de Ressurreição e Justificação- por morrer e renascer é um exemplo. Onde você já viu isso antes?
A pessoa no Duat passando pelo julgamento, era chamada de “Wsir NN” sendo “NN” o seu nome de vivo, ex: Wsir Pepi. Tratava-se de algo muito importante, pois era atribuição de um estado osiriano daqueles que receberam os ritos funerários adequados como mumificação e feitiços. A pessoa passava a ser subordinada ao deus ganhando privilégios como a imortalidade. Trocando em miúdos: tornava-se da falange de Osíris.

O capítulo 2 do Livro Egípcio dos Mortos, ao ser recitado, permitia ao falecido voltar ao mundo dos vivos sempre que quisesse. O nome era *“O capítulo da saída à luz do dia e da vida após a morte**”. Para os thelemitas, parte está no verso da Estela da Revelação de Ank-f-n-Konshu, a lápide desse sacerdote onde a esposa de Aleister Crowley identificou Hórus e iniciou o processo para a escrita de Liber AL vel Legis em 1904. O texto foi ditado por um espírito chamado “Aiwass” e Crowley assinou como Ank-f-n-Konshu*. A publicação acadêmica incluindo tradução e explicação saiu apenas em 1968.

Quanto a possíveis comparações entre Osíris e Exus. Bem, há semelhanças, porém isso não implica, necessariamente, relação. É moda um universalismo, principalmente quando valem-se dos arquétipos junguianos — arquétipos são como minissaia, tem que saber usar e a maioria mostra a calcinha. Tipo, penduram tudo na Árvore da Vida, de Naruto a Turma do Chaves passando por Jornada do Herói. Quando tudo na magia e no misticismo encaixa-se racionalmente, tem erro. Chama-se no meio thelêmico de “Marretada Hermética”. No caso, um exu de calunga (cemitério) e Osíris dividem associação com a morte e vida após ela, mas as funções e a natureza diferem — além disso, dizem que certos exus em vida eram egípcios, mas isso é irrelevante aqui, pois é especulação além do que já está sendo feito. Em relação a certas funções de exu como guardião da fronteira entre os mundos dos mortos e dos vivos, auxiliando na passagem, outras divindades encaixam-se melhor, como Konshu* e Anubis. O primeiro concedia acesso aos justos e o segundo guardava as necrópoles (calunga*) e guiava os mortos no Duat. Osíris, sendo rei, gerencia e não realiza funções específicas — ***apesar destas comporem-no durante o processo de formação do deus.
Por outro lado, magia não possui fronteiras: deuses, espíritos e símbolos possuem maneiras próprias de funcionar variando de acordo com egregóra e com a configuração psico-física-iniciática do magista. No alto nível, as diferenças são apenas didáticas e metodológicas. Qualquer feiticeiro sabe que feitiços são inventados ainda que baseados em modelos .preexistentes. Não foi a primeira vez que algo assim me aconteceu: de Orixá aparecendo em trabalho thelêmico sem ser chamado a culto a Odinn indicado em jogo de búzios e depois em prática enoquiana. As possibilidades são infinitas. Se assim não fosse, não haveria novos sistemas nascendo, seja através de intercâmbio cultural seja por mudança na própria cultura local e na linguagem para o horror de certos “tradicionalistas” e “perenialistas” que evocam ignorância apontando apenas “grandes religiões” como legítimas vias .espirituais. Mas esquecem eles que tais foram formadas com diversas influências, inclusive de sistemas que renegam — é o bom e velho ego de reacionários em ação. Mas como saber quando esses cruzamentos são legítimos ou mera “viagem” do sujeito? Bem, a experiência ajusta a percepção para diferenciar as coisas, mas a melhor resposta vem de Aleister Crowley:
“Sucesso é tua prova.”
Publicado no Instagram
Notas:
-Konshu — deus do tempo; da cura; do parto e chegou a desempenhar papel de divindade liminar, responsável por abrir as portas para o mundo dos mortos. Seu nome significava “viajante” e também foi associado à lua. Sua forma mais comum é a infantil. Tive uma experiência astral com ele nessa forma, mas fica para outro post ;).
-Sol oculto — cabe “sol negro”, mas é um nome ligado a supremacistas raciais.
- “Sair à luz do dia” significava alcançar o estado de “akh” podendo caminhar no mundo dos vivos e dos deuses. O texto que chamamos de “Livro Egípcio dos Mortos” costuma ser traduzido, tecnicamente, como “Sair ao (à luz do) dia” cuja transliteração seria algo como “péret em réru”. As primeiras cópias conhecidas datam do Segundo Período Intermediário permanecendo em uso até o Período Ptolemaico.
-Por Abd el Hamid.
Bibliografia:
-“Following Osiris: Perspectives on the Osirian Afterlife from Four Millennia” — Mark Smith. 2017;
- “The Origins of Osiris and his Cult” — J. Gwyn Griffiths e Leiden E.J. Brill. 1980.
메타데이터
- post_id
- 2c7b4a8f41a6
- slug
- laroiê-seu-osíris-um-deus-egípcio-numa-gira-2c7b4a8f41a6
- url
- https://medium.com/@hermanfaulstich/laroi%C3%AA-seu-os%C3%ADris-um-deus-eg%C3%ADpcio-numa-gira-2c7b4a8f41a6
- canonical_url
- https://medium.com/@hermanfaulstich/laroi%C3%AA-seu-os%C3%ADris-um-deus-eg%C3%ADpcio-numa-gira-2c7b4a8f41a6
- author_url
- https://medium.com/@hermanfaulstich
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-06-24 04:09:36