Alain Badiou — Teoria da Contradição VI [Tradução]
Sobre a contradição
Alain Badiou — Teoria da Contradição VI [Tradução]
Sobre a contradição
Desde a primeira frase de Sobre a Contradição, Mao Tse-Tung retorna a ideia leninista de um princípio único fundamental da dialética materialista:
“A lei da contradição inerente às coisas, aos fenômenos, ou lei da unidade dos contrários, é a lei fundamental da dialética materialista.”[1]
Mao Tse-Tung apresenta explicitamente as questões tratadas em seu ensaio como o desenvolvimento de um “vasto ciclo de problemas” inteiramente subordinado ao estudo e a clarificação do princípio único fundamental: “A unidade dos contrários”. O método de exposição seguido por Mao Tse-Tung vai do geral ao particular, isto é, do caráter universal da lei da contradição, até as categorias que permitem analisar o movimento de uma contradição particular (aspecto principal da contradição, lugar do antagonismo da contradição). Do ponto de vista que nos interessa, e que é a reconstrução ordenada das teses dialéticas, podemos considerar que Mao Tse-Tung investe o princípio único da unidade dos contrários em cinco teses dialéticas essenciais.
As cinco teses são:
- Toda realidade é processo.
- Todo processo se leva, em última instância, para um sistema de contradições.
- Em um processo (isto é, um sistema de contradições), sempre existe uma contradição que é a principal.
- Toda contradição é dissimétrica: ou seja, um dos termos da contradição sempre é dominante sobre o movimento de conjunto da mesma contradição. Esse é a teoria do aspecto principal da contradição.
- Existem contradições de tipos diferentes, cuja resolução faz surgir processos diferentes. A principal distinção que se faz na matéria é a das contradições antagônicas e das contradições não antagônicas.
Mao Tse-Tung, portanto, realiza o programa fixado por Lênin: desenvolver o “núcleo racional da dialética”, isto é, o axioma: um se divide em dois. Esse desenvolvimento é a síntese filosófica da rebelião marxista-leninista:
— contra o dogmatismo, — contra o revisionismo.
As condições históricas da revolução chinesa exigia aportes criadores no marxismo-leninismo. O fracasso das insurreições urbanas em 1925–1927, depois a evacuação forçada das bases de Jiangxi e a Longa Marcha mostraram que os ensinamentos teóricos da revolução de Outubro não eram o bastante para formular e aplicar uma linha aceitável sobre a questão da tomada de poder na China. Ainda mais, era necessário destruir, no próprio seio do partido, os dogmáticos defensores do passado, especialmente no que diz respeito à guerra revolucionária.
As questões militares têm desempenhado um papel decisivo no aprofundamento das questões filosóficas. Sabemos que Stálin, generalizando as leis particulares da insurreição urbana extraídas por Lênin, sustentava a doutrina militar da ofensiva total, e menosprezava a tese, formulada por Clausewitz, da superioridade estratégica da defesa. Da mesma forma, toda uma corrente do Partido Comunista Chinês sustentou, nos anos de 1925–1930, a via da ofensiva contra as vilas, ou da defesa in loco, sem nenhum recuo, das zonas liberadas.
Certamente, a lei da ofensiva total, da impossibilidade de uma pausa, é apropriada para uma insurreição: a Comuna tinha historicamente demonstrado pela negativa, Outubro pela vitória. Mas as leis de uma insurreição se referem a um fenômeno de ruptura pontual obtida por uma acumulação extremamente rápida das forças. Elas são muito distintas de um processo de guerra, que abrange dialeticamente vários cálculos sobre o tempo e espaço. É característico encontrar em Mao desenvolvimentos consideráveis sobre a defesa estratégica, desenvolvimento onde se investe uma rígida dialética da disposição temporal das forças antagônicas. Precisamente, um dos alvos da brochura Problemas estratégicos da guerra revolucionária, é a limitação da doutrina militar servida pelos soviéticos:
“Outros tem um ponto de vista igualmente errado, e que nós igualmente refutamos já há muito tempo. Eles dizem […] que basta agir conforme as leis que presidiram e conduziram a guerra civil na União Soviética e seguirem seus manuais militares publicados pelas instituições militares desse país. Eles não entendem que esses manuais e essas leis refletem o caráter específico da guerra civil na União Soviética e que se aplicarmos ao pé da letra, sem nenhuma modificação, equivalerá mais uma vez em ‘roer o próprio pé para adaptá-lo ao sapato’, e sofreremos a derrota.”[2]
A guerra e a filosofia sempre tiveram linhas particulares. No fundo da luta ideológica sobre os problemas militares, podemos certamente encontrar essa que, tudo indica, Mao Tse-Tung formula contra Stálin: foi um mal dialético e estudou muito pouco a filosofia alemã. Mao Tse-Tung e o P.C.C. apenas formularam os elementos positivos de uma nova orientação às custas de lutas ideológicas impiedosas (contra Chen Duxiu, contra Li Lisan, contra Wang Ming, etc.). A divisão do próprio partido trouxe em primeiro plano o conceito de luta de duas linhas como o princípio motor da compreensão dos fenômenos políticos. Daí a extrema importância da sistematização dialética.
No próprio período da edificação do Socialismo, esse aspecto das coisas se encontra mais reforçado: o ponto chave era o balanço da restauração do Capitalismo na U.R.S.S. Esse balanço prova que a via escolhida por Stálin não podia servir de exemplo, pois ela não pôde ser capaz de prever o golpe de Estado burguês de Khrushchov. Mais uma vez, era preciso lutar contra os atrasos, e colocar no centro dos problemas da linha, não o desenvolvimento das forças produtivas, mas a luta de classes sobre a ditadura do proletariado. Não a unidade positiva da infraestrutura, mas a cisão da superestrutura e do partido, uma via proletária e uma via burguesa.
Das Montanhas de Xinjiang até a Revolução Cultural, o pensamento de Mao Tse-Tung se formulou como contracorrente, como trabalho de divisão. Daí que esse pensamento se desdobra cada vez mais ajustado às consequências do princípio da unidade dos contrários. Pensamento rebelde por excelência, pensamento rebelde da rebelião: pensamento dialético.
Os cinco princípios, que se ligam uns aos outros para se afundarem no centro do antagonismo, figuram bem o pensamento revolucionário, movimento para a ação, tomada de partido que fratura a unidade existente para, segundo a energia do que se divide, apoderar-se vitoriosamente da unidade futura.
Seguiremos esse caminho.
A. Primeiro princípio: toda realidade é processo
Na aparência, esse princípio é de uma grande simplicidade. Ele designa o real como movimento, ele afirma que a natureza interna das coisas, sua essência, é nada mais que a lei de sua transformação. Esse princípio se insere naquilo que podemos chamar de filiação heraclitiana da dialética: “Tudo flui”. Aqui ganha vida no pensamento a rebelião contra a sabedoria submissa do Eclesiastes. Ao “nada de novo sob o sol”, ele opõe o sol vermelho insurgente sempre novo, sob o emblema ao qual a esperança afirmativa ilimitada dos produtores rebeldes engendra as rupturas.
No entanto, esse princípio simples e violento é um princípio ameaçado, constantemente reconquistado em uma acirrada luta de classes, pois é ele que traça a linha de demarcação principal com a tendência antagonista: a tendência metafísica. A essência desse princípio consiste, de fato, em afirmar que um estado dado da realidade é, por princípio, transitório, ou seja, que a lei das coisas nunca é o equilíbrio, nem a estrutura, mas o contrário, a ruptura de todo equilíbrio e, por consequência, o inevitável desenvolvimento da destruição do estado das coisas existentes. Tal é o alcance propriamente revolucionário deste primeiro princípio: ele assume a posição do ponto de vista de que jamais pode ser o da conservação. Em um sentido, ele repudia todo objetivismo: o que se dá em um momento como realidade, no fundo, nada mais é do que o movimento pelo qual essa realidade se desfaz e se transforma em uma outra. Propriamente falando, o real não surge da categoria do objeto. O objeto, de fato, é o que se dá ao conhecer como estado ou como figura. Ora, todo estado ou figura tem, por conteúdo, o processo ininterrupto de sua metamorfose. Nesse sentido, o objeto se opõe ao processo, como a metafísica se opõe à dialética. A metafísica, que é, em última instância, teoria da identidade, é impulsionada por um poderoso movimento conservador. Ela é uma empresa de vigilância de um estado da realidade. Ela é uma tomada de posição de classe defensiva, que se apega às aparências para mascarar o movimento essencial, por quem a realidade, da qual ela é a sentinela, não cessa de lhe escapar. Marx já havia afirmado que esta era a vocação política imediata da dialética: tomar o partido da destruição contra a vigilância metafísica:
“Sob seu aspecto racional, a dialética é um escândalo e uma abominação para as classes dominantes e seus ideólogos doutrinários porque, na compreensão positiva das coisas existentes, ela também encerra, simultaneamente, a compreensão de sua negação fatal, de sua destruição necessária; porque, apreendendo o próprio movimento do qual toda forma é apenas uma configuração transitória, nada pode lhe impor, porque ela é, essencialmente, crítica e revolucionária.”[3]
O escopo crítico do primeiro princípio da dialética deve, por sua vez, ser defendido contra a pressão exercida pela metafísica reacionária. O revisionismo filosófico consiste precisamente em reconhecer, na aparência, que toda a realidade é processo, mas fixar um conceito do processo que equivalha fazer, das leis da transformação que a regulam, invariantes metafísicas de um novo tipo. Já em Hegel, o reconhecimento, saudado por Lênin, do princípio “o real é o processo” se divide em dois sob o peso do Idealismo dominante. Para Hegel, de fato, o processo é sempre desenvolvimento de um termo simples, de modo que as figuras de transição não sejam realmente destruídas, mas percorridas repetidas vezes em um movimento circular, que as abandonam apenas para conservá-las em uma identidade de tipo superior. Hegel se propõe gerar a necessidade do movimento a partir de um gesto inicial indecomponível. Daí, resulta que a metafísica trabalha dentro da dialética, criando assim rupturas e inconsequências que consistem, em seu próprio trabalho, uma verdadeira sintomatologia da luta das tendências.[4]
A ideia do começo simples é um pressuposto tipicamente metafísico, isto é, conservador. O traço da filosofia marxista-leninista-maoísta, do primado da prática, é que a teoria por ela mesma nunca começa do nada. Não pode existir grau zero do teórico: o movimento do conhecimento já começou sempre, porque ele inclui a prática como um dos seus termos. Ora, a prática, que é a realidade imediata, se pressupõe constantemente em si. Isso é o que lembra bem Lênin:
“Na natureza e na vida, existe movimento ’em direção ao nada’. Somente ‘vindo do nada’, sem dúvida, não existe. Sempre partindo de alguma coisa.”[5]
Não somente tudo é processo, mas a) todo processo se prende com outro, e b) todo conhecimento de um processo, enquanto momento de seu desenvolvimento, sempre já começou.
Negar isso é:
— ou ser, como Hegel, francamente idealista: o conhecimento começa, porque a Idea engendra o real como Todo;
— ou postular que existe um ponto de apoio absoluto, uma suspensão equilibrada do processo real, onde a teoria encontra uma origem objetiva imóvel, e pode, portanto, extrair do além um processo em curso. Portanto, a teoria não é outra coisa senão guardiã desse equilíbrio postulado: função conservadora da metafísica.
Se nós considerarmos agora a insistência posta por Althusser e D. Lecourt ao formular o princípio dialético do movimento como “processo sem sujeito nem fim”, veremos que envolve um sofisma restritivo, e a escolha de um campo. Esse objetivismo integral mascara que toda mudança opera do ponto de vista das forças antagônicas que constituem sua essência contraditória. Isso equivale a separar a tese do movimento segundo a qual um dos termos da contradição, e não dois, é o portador da razão do processo, isto é, seu futuro.
Althusser se entrega a um inquieto tráfego, mistura de silêncios calculados e de substituições incongruentes sobre os Cadernos filosóficos de Lênin. Ele parte da observação judiciosa que Lênin repudia toda a problemática da Origem Absoluta, do primado do automovimento da Ideia, etc. Nós estamos de acordo em dizer que a concepção especulativa do Começo — do qual o próprio Hegel faz uma crítica partilhada e inacabada — serve para suturar a dialética ao idealismo. Essa linha tem que ser rompida, e é verdade que Hegel oscila entre a ruptura (local, em sequências dialéticas) e sua preservação (global, no Sistema).
O que, segundo Althusser, fascina Lênin no capítulo da Lógica sobre a Idea absoluta, é, na ruina da Origem, a identificação do Absoluto com o método dialético, isto é, com o processo. Isso não está correto: existe, em Hegel, do qual alimenta nosso primeiro princípio (toda realidade é processo). Mas aqui está o deslize: que o processo (isto é, a realidade como movimento) como sendo o único absoluto, significa, para Althusser, que Lênin encontra em Hegel “a confirmação que ele faz efetivamente […] suprimir toda a origem e todo o sujeito e dizer: o que é absoluto, é o processo sem sujeito.”**[6]**
O que faz aqui a categoria althusseriana do processo sem sujeito? Lênin não faz qualquer referência da questão do sujeito em seu comentário sobre a Ideia absoluta. Melhor ainda: quando ele aborda — aliás — os capítulos que Hegel se dedica à categoria do sujeito, Lênin não tenta, de modo algum, “suprimir todo sujeito”. O que o interessa, é apreender a dialética, o movimento contraditório, do subjetivo e do objetivo. Para Lênin, trata-se de se apoiar sobre Hegel para acabar com a unilateralidade das categorias de sujeito e de objeto, desde que as separe (operação metafísica) ou que anule uma delas (idealismo absoluto ou materialismo mecanicista).
“Muito bom, o parágrafo 225 da Enciclopédia onde o ‘conhecimento’ (‘teórico’) e a ‘vontade’, a ‘atividade prática’, são representadas como dois aspectos, dois métodos, dois meios de supressão da ‘unilateralidade’ tanto da objetividade como do subjetividade.”[7]
Portanto, o problema de Lênin não pode ser o de “suprimir” o sujeito, um rebaixamento regressivo na unilateralidade do objetivo. O problema é de refletir, simultaneamente, a cisão e a ação recíproca das duas categorias (sujeito e objeto) no movimento geral de um processo, sem excluir que o fator subjetivo possa ser a chave desse momento. Programa que Lênin formula deste modo, o mais próximo possível de Hegel:
“Se considerarmos a relação do sujeito com o objeto na lógica, teremos que também tomar em consideração as premissas universais do ser do sujeito concreto (= vida do homem) na situação objetiva.”[8]
Toda a operação althusseriana equivale ao colocar a equação: Origem = Deus = Sujeito, e conclui triunfantemente que, suprimindo a Origem e Deus, Lênin constrói, depois de Hegel, o conceito de processo sem sujeito nem fim.
Mas o que Althusser faz aqui é prestar a Lênin sua própria miopia dialética. A Origem (o Constituinte, o Transcendental…) não são o Sujeito, mas seus predicados idealistas. Das quais a Origem ou Deus devem ser suprimidos, o que um materialista elementar exige de fato, é apenas o resultado que o conceito se divida, em sua formação idealista, forçosamente ligada em noções ideológicas de origem religiosa ou jurídica, e em sua formulação materialista em termos de processo. De processo com sujeito.
Nada é mais impressionante que a obstinação de Althusser em reduzir a relação Lênin-Hegel a conteúdos negativos, a dois conteúdos negativos forçosamente emparelhados: a crítica a Kant e a crítica da categoria de sujeito.[9]
Ora, se nos atermos às notas sobre a Ideia absoluta, são duas ideias decididamente positivas que fascinam Lênin, ideias sobre as quais — o que na verdade é escandaloso — Althusser não diz rigorosamente nada. Essas duas ideais são:
— A unidade dialética da teoria e da prática, a inclusão da prática no movimento do conhecimento, o “critério da prática” como único critério da verdade.
— A unidade dos contrários como “núcleo da dialética”.
Essas são as duas ideias dialéticas. Reduzi-las a um nivelamento negativo da evidência materialista: não existe nem Origem nem Deus, é uma mutilação. E ver nela a exclusão do sujeito é uma falsificação: pois a correlação dessas duas ideais, em que vimos no próprio texto de Lênin, está precisamente investida apenas no processo contraditório do objetivo e do subjetivo.
O conhecimento revolucionário — tal como Lênin vê nele a “semente” em Hegel — é o que tanto inclui em seu movimento a prática de classe, a rebelião, quanto retorna nele para organizar a vitória consciente. É uma mediação dialética centralizada entre o processo objetivo da luta de classes e a prática subjetiva, dirigida em termos de projeto, da revolução proletária.
A terminologia “subjetiva” de Hegel permanece apropriada para designar esse percurso: do em-si ao para-si. Essas categorias do para-si e do em-si, ininteligíveis no “processo sem sujeito” de Althusser, Lênin as reconhece com “extrema justeza e exatidão”[10]
Ainda hoje, Enver Hoxha não vê melhores conceitos para enquadrar a questão das relações entre as condições objetivas e a prática operária e seu fim revolucionário:
“Já está historicamente demonstrado que, sem seu partido, a classe operária, quaisquer que sejam as condições nas quais ela vive e atua, não pode adquirir por si mesma uma consciência de classe. O que transforma a classe trabalhadora de ‘classe em-si’ em ‘classe para-si’, é o partido.”[11]
No processo geral da libertação da humanidade, as classes exploradas são invariavelmente o sujeito da histórica, pois são as massas que fazem essa história. Se não há nem Deus, nem Origem, há de fato um sujeito criador:
“O povo, e apenas o povo, é a força motriz, o criador da história universal.”[12]
Mas os escravos e os servos ainda são sujeitos objetivos, sujeitos parcialmente não divididos (senão embrionariamente, utopicamente) em sujeito-em-si e sujeito-para-si. O proletariado consegue a apropriação subjetiva de seu papel de sujeito através da fusão do marxismo e do movimento operário real, isto é, a correlação dividida da classe sujeito-objeto e da classe sujeito, correlação que encarna esse processo sem precedente: o partido de classe.
Desde o Manifesto, fica claro que, para Marx e Engels, os comunistas não podem fundar sua identidade sobre um processo revolucionário “sem sujeito”: permanecendo no movimento real, eles são apenas “a fração mais avançada” dos partidos operários de todos os países. É no elemento subjetivo que eles entram dialeticamente com o movimento operário, pois “eles têm, sobre o resto do proletariado, a vantagem de um conhecimento claro das condições, da caminhada e dos resultados gerais do movimento proletário”.[13]
Processo sem sujeito nem fim, diz D. Lecourt. Quem são então os comunistas? Os comunistas são, de fato, nada mais aquilo ao qual o “partido operário” (a classe combatente) se converte em sujeito do processo histórico mediante o domínio de suas leis e de seu objetivo.
Mas não se admirará em ver o inventor da “prática teórica” cegar-se ao entusiasmo de Lênin pela descoberta hegeliana da prática como momento contraditório do conhecimento. Quanto ao desvanecimento do sujeito, convém maravilhosamente àquele que barra a questão fundamental da revolução proletária na França: a questão do estado subjetivo do proletariado. E mais precisamente aquele que se distorce, se enrola e, como verdadeiro choco político, se afoga em sua tinta, quando pomos a questão clara que vale: sim ou não, Althusser, o P.C.F. do qual tu és membro hoje na França, ele é hoje “o partido da classe operária”? É o proletário como sujeito de sua história revolucionária? E se não, é para qual rebelião contra os usurpadores que a tua teoria passiva do “processo sem sujeito” pode servir de razão?
Para Althusser, jamais temos verdadeiramente razão para se rebelar contra os reacionários, e sobretudo contra os reacionários do P.C.F. Negar, sob o pretexto de objetivismo, que o proletariado possa se constituir em sujeito da história, é deixar o campo livre para que este objeto burguês que declara lhe represente: o partido revisionista. Negar, sob pretexto de luta contra a finalidade idealista, que o proletariado seja o portador do programa comunista como o fim da pré-história humana, é apoiar as forças do retrocesso burguês na edificação do socialismo, aqueles que, justamente, pretendem desviar a ditadura do proletariado de toda representação clara de seu fim: a sociedade sem classes, o desaparecimento do Estado.
No fundo, a teoria do “processo sem sujeito nem fim” anula o primeiro princípio (o princípio de movimento) pela fixidez objetiva onde ela se fecha. Ela faz prevalecer o devir como efeito diacrônico das estruturas objetivas sobre o movimento como luta e novidade. Ela se coloca ao lado dos equilíbrios existentes, que nenhuma irrupção das massas em rebelião como sujeito da história deve vir perturbar. Ela é o próprio exemplo de uma infiltração metafísica no discurso dialético: definição do revisionismo na filosofia.
O primeiro princípio da dialética deve, então ser obstinadamente, defendida contra a corrupção revisionista (pensar o processo como identidade estrutural objetiva) e a sua corrupção abertamente metafísica (pensar o processo como auto-engendramento do complexo a partir do simples, postular uma Origem).
Manter-se firme neste princípio compromete de forma decisiva a posição de classe na filosofia.
B. Segundo princípio: todo processo é um conjunto de contradições
A linha de demarcação traçada aqui opõe radicalmente a dialética ao evolucionismo. O movimento não opera por engendramento linear dos termos sucessíveis: todo termo do processo está, ele mesmo, em estado de divisão, e o impulso do movimento é essa mesma divisão. A crítica do princípio metafísico da identidade deve ir até a tese segundo a qual um estado transitório da realidade tem como ser, precisamente, nada mais que a transição, ou seja, a cisão interna em que ele é nada mais que o desenvolvimento. Não basta dizer que as coisas estão em movimento, é preciso também reconhecer que o próprio conceito da “coisa” decorre, não de uma lógica da identidade, mas de uma lógica da cisão. Não somente a realidade não se reabsorve na unicidade de um estado ou de um equilíbrio, mas que a própria unicidade é pensada apenas como divisão. O movimento não é uma sucessão de unidades, mas um emaranhado de divisões. Para parafrasear Lênin, nós dizemos: é somente a dialética que expande o reconhecimento da realidade como processo até o reconhecimento do princípio “um se divide em dois”.
Um se divide em dois não é um princípio de geração do “dois” a partir do “um”. Um se divide em dois significa: não existe identidade exceto quando é cindida. Não somente a realidade é processo, mas o processo é divisão. O real não é o que congrega, mas o que separa. O que acontece é o que desarticula.
Quanto mais um processo é desenvolvido, mais o crescimento de seus termos conflituosos se afirmam, mais o princípio de cisão tende a desarticular cada um dos termos da contradição inicial, e especialmente o termo ascendente, o termo “vitorioso”: é ele que, de fato, vai suportar a nova unidade, isto é, a nova divisão. Daí, por exemplo, que o partido do proletariado, forma concentrado de seu ser de classe, isto é, de seu antagonismo contra a burguesia, e instrumento decisivo de sua vitória (a instauração da ditadura do proletariado), é também a linha ininterrupta de divisões, a linha por excelência da cisão.
“O velho Hegel já dizia: ‘Um partido prova ser uma partido vitorioso, ao se dividir e conseguindo suportar a divisão.’ O movimento do proletariado percorre necessariamente por diversos graus de desenvolvimento; em cada etapa, uma parte das pessoas ficam agarradas e não continuam mais o caminho. Isto por si só explica porque a ‘solidariedade do proletariado’ se realiza por toda a parte em diversos agrupamentos partidários que travam entre si um combate até a morte, como as seitas cristãs no Império Romano, durante as piores perseguições.”[14]
É um incentivo poderoso para os maoístas lembrar que Engels, contra os pranteadores da unidade a todo preço, contra os pequenos burgueses que distribuem, do alto de seus bancos, suas sentenças desengajadas sobre as “querelas de grupelhos”, afirma o valor criador das divisões, e sustentou que, através dessas querelas ferozes se forja um novo tipo de “solidariedade operária”, isto é, um novo avanço do proletariado revolucionário. Hoje na França, a divisão conflituosa dos grupos traduz o estado real do movimento, e longe de ser um desencorajamento artificial, a violência de seus conflitos ideológicos é a própria linha onde se anuncia o futuro. Mergulhar-se nesse conflito é tomar a posição clara: o resto é apenas unanimidade falaciosa, populismo inoperante ou sonolência revisionista. Um se divide em dois.
Reconhecer e manter essa máxima não é fácil. Na China, o princípio “um se divide em dois” foi centro de intensas polêmicas, que se inscreveram nem mais nem menos na preparação ideológica da Revolução Cultural. De fato, foi em 1964 que Yang Sien-Chen [Yang Xianchen] apresentou o princípio “dois se fundem em um” como segundo núcleo da dialética.
A argumentação de Yang Sien-Chen consiste em dividir o princípio geral da unidade dos contrários, ao enfatizar de forma separada “unidade” (dois se fundem em um) e “contrários” (um se divide em dois), depois, e isso é o essencial, fazer com que os dois enunciados se tornem equivalentes. Encontramos imediatamente aqui o estímulo de todas as operações metafísicas de revisão da dialética: o postulado de equilíbrio (aqui, entre duas teses contraditórias), desvio pela qual a identidade prevalece novamente sobre a contradição.[15]
Para alcançar a justificativa do equilíbrio entre a unidade e a contrariedade, Yang Sien-Chen tinha que, precisamente, acabar com a universalidade das contradições, isto é, com a decomposição inevitável do todo em partes contraditórias. Para isso:
a) Ele atribuiu à unidade (dos contrários) um conteúdo positivo separado, distinto de cada um dos dois termos: ele falava de “pontos comuns” aos dois contrários, a unidade como sendo o resultando da existência e da somatória desses “pontos comuns”. A luta se substituiria então pela confrontação das duas totalidades compatíveis: a unidade tornou-se a intersecção plena de dois conjuntos.
Nisso, a tese dialética opõe que a unidade dos contrários são nada mais que a sua correlação, sua complementaridade, isto é, sua luta, sua exclusão recíproca. Não existe burguesia sem proletariado, certamente, nem revisionistas sem marxistas-leninistas. Mas não há nada em comum entre a burguesia e o proletariado, entre os revisionistas e os marxistas-leninistas, a não ser o fato de definir, pela sua irreconciliável alteração conflituosa, a unidade dividida de um processo histórico: da luta de classes, da luta entre duas vias sobre o movimento operário. A unidade (dos contrários) é uma relação, não uma identidade. A intersecção dos opostos está vazia. Ela é “preenchida” apenas quando consideramos os dois termos como em sua oposição a um terceiro, mas mudaremos o processo: proletariado e burguesia nacional não tem, enquanto contrários, nada em comum. No entanto, o povo, em sua oposição ao agressor imperialista, pode conter tanto o proletariado quanto a burguesia nacional. Mas o processo em questão já não é mais o processo inicial (aquele da revolução proletária), é o de um processo novo (a guerra de libertação nacional) cujo conteúdo é uma nova contradição (povo/agressor imperialista). Agora, do ponto de vista desse processo, “dois” não se fundem nem mesmo em “um” porque mais do que antes: não existe nada em comum entre o povo e o agressor imperialista.
b) Yang Sien-Chen estabelecia que existem dois termos indivisíveis, laços que não podiam se desfazer.
A dialética, pelo contrário, afirma a universalidade do princípio de cisão.
“Tanto na sociedade humana, quanto na natureza, tudo sempre se divide em partes, somente o conteúdo e a forma variam segundo as condições concretas.”[16]
c) Yang Sien-Chen estabelecia que a síntese (dois se fundem em um) deveria, obrigatoriamente, completar a análise (um se divide em dois).
A dialética ignora esse tipo de síntese, conceito oportunista por excelência. O advento de um novo processo (de uma nova unidade dos contrários) se faz pelo desaparecimento dos termos da contradição anterior, isto é, na sequência da destruição de um dos termos pelo outro, onde resulta, necessariamente, a divisão dos termos vitoriosos. É essa divisão que vai definir e reger o novo processo. A síntese é processo de destruição/divisão. A burguesia destruiu a ordem feudal, mas a ordem capitalista, que a mesma dirige, imediatamente se cinde segundo a contradição Estado burguês/revolução proletária.
A concepção dialética da síntese é o engendramento de uma nova cisão e nada mais.
A ofensiva filosófica de Yang Sien-Chen visava, portanto, enfraquecer o segundo princípio: o princípio de contradição, causando nele o limite equilibrado de um princípio equivalente (“dois se fundem em um”), por sua vez monetizando em identidade de conteúdo, indivisibilidade e síntese.
Em último plano: a cisão do movimento comunista internacional, o alcance e as implicações da luta até a morte contra o revisionismo moderno e sua cidadela: o Estado soviético.
Yang Sien-Chen era o filósofo da conciliação de classes, coberto pela aparência de ser o filósofo da unidade.
Para medir a vigilância necessária ao combate que os chineses chamaram de “frente filosófica”, tomemos a medida desse fato: nos anos sessenta, Yang Sien-Chen desenvolveu seu conceito “dois se fundem em um” na Escola superior do partido. Nada mais.
C. Terceiro princípio: em todo processo, existe uma contradição principal
Sob o ponto onde estamos, podemos pensar que o real como um emaranhado de divisões não conhece nenhum domínio particular, mas somente o sistema geral desse emaranhado. Em um certo sentido, isso é verdade: existe interdependência de todas as contradições. Nós vimos que Engels e Stálin desenvolveram amplamente esse ponto.
Em outro sentido, no entanto, podemos apreender domínios de realidade dotadas de uma coerência dialética própria. São sistemas de contradições em onde a determinação qualitativa é fixa pela sua subordinação por uma contradição principal. Só faz sentido falar de um processo a menos que se considere um sistema de contradições, cuja interdependência se encontra regida pela sua subordinação qualitativa a uma contradição do sistema. Por exemplo, o movimento histórico de uma sociedade capitalista pode ser considerada como um processo qualitativo determinado, na medida em que se localiza a contradição burguesia/proletariado como a contradição principal. Uma luta de fábrica privada é especificada pela contradição principal trabalhadores/patrão. Está muito claro que a contradição principal determina a natureza qualitativa do processo, seu tipo de unidade geral, mas que o próprio processo carrega muitas outras contradições. Por exemplo, uma greve operária inclui necessariamente, e frequentemente se agrava, numerosas contradições entre os operários (grevistas/amarelos*, operários revolucionários/sindicalistas da C.G.T., etc.). Essas contradições distintas da contradição principal, geralmente são designadas como contradições secundárias. Mas a medida interna do desenvolvimento das contradições secundárias surgem a partir de sua articulação com a contradição principal, do ponto de vista do processo considerado. Por exemplo, as contradições entre os operários em greve surgirão do processo “greve”, na medida em que afetam o desenvolvimento da contradição principal operários/patrão (enfraquecimento do campo operário, manifestações de tendências ultra esquerdista, liquidações sindicais, etc.). No curso do movimento, a ligação dialética entre a contradição principal e as contradições secundárias se modificam sem parar, e se modificam sobre o modo da interação. É claro, por exemplo, que o patrão vai pôr em prática o agravamento de certas contradições entre os trabalhadores, porque, em troca, essa agravação modifica em seu favor a relação entre os termos da contradição principal. Mas os maoístas podem igualmente atacar esse tipo de unidade sindical “mole”: severas contradições entre operários podem ser um fator de fortalecimento de seu campo, se, por exemplo, eles oporem de maneira vitoriosa uma orientação revolucionária consequente contra uma orientação revisionista. Esses laços de interdependência podem chegar ao ponto de alterar a própria contradição principal. É possível que a essência do movimento se torne o confronto entre a via revolucionária e via revisionista, e que a contradição imediata com o patrão em torno de reinvindicações particulares se torne, ao mesmo tempo, em uma contradição secundária, isto é, uma contradição sobre a qual se afirmou, no centro do movimento operário, uma nova contradição principal. Portanto, a natureza qualitativa do processo é modificada; ela não será mais essencialmente determinada como “greve”, mas como luta entre as duas vias. Seu espaço não será mais econômico, mas político. O processo de conjunto ao qual pertencerá a greve será menos o conflito de classe sobre a taxa de mais-valia, e mais a edificação de novas organizações revolucionárias, etc.
Mais uma vez, um reconhecimento estático do princípio da contradição principal pode cair na metafísica. Não basta admitir que todo processo é qualitativamente determinado por uma contradição principal. É preciso também reconhecer que é o sistema das contradições, tomado em seu conjunto, que está em movimento, que é processo, e que a compreensão do fenômeno reside nas correlações, em via de transformação incessante, entre a contradição principal e as contradições secundárias.
Nesse aspecto, a ideologia “massista”, surgida em 68 pela vulgaridade da análise dialética. No Liberation, não importa qual jornal “esquerdista”, em todos os lugares será a questão “dos trabalhadores em luta”, da “luta dos empregados contra os chefes”, da “luta ecológica contra o sistema”, etc. É a repetição infinita da mesma contradição “principal”: as massas contra o poder, sem ver que enfiar no mesmo saco (o “movimento”) totalidades heterogêneas e profundamente divididas, nos impede de entender onde e em quais condições o novo acontece enquanto devir principal de uma contradição secundária de um processo. Ora, é sempre assim que acontece o novo: nunca é “as massas”, nem o “movimento” que carregam nelas a sua geração, mas o que nelas se dividiu do antigo. Por exemplo: o que se libertou do sindicalismo na rebelião operária, ou o que se opôs à tutela das grandes forças burguesas (fascismo e social-fascismo) no movimento popular português. Uma tal cristalização do principal, ultra-esquerdista em aparência (sempre as mesmas massas exaltadas contra o mesmo poder, o sistema invariável), converge completamente com o revisionismo, que também tenta proteger suas posições políticas exaltando a “unidade” popular contra o poder em vigor. Qual maoísta nunca foi acusado de “divisor” por um cachorrinho da C.G.T.? E bem, sim! Somos a favor do “um se divide em dois”. Somos a favor do crescimento por meio da cisão do novo. Não queremos nem as massas ultra-esquerdistas santificadas e obscuras, inoperantes e repetitivas, nem a união revisionista, fachada de uma ditadura sinistra. O que é proletário, sobretudo hoje, divide, combate e faz crescer até o principal as minúsculas fraturas internas no “movimento”.
Somente é dialético aquele que leva o reconhecimento do princípio da contradição principal até o devir principal de uma contradição secundária.
D. Toda contradição é dissimétrica: ela tem um aspecto principal
Da mesma forma que sua contradição principal determina a natureza qualitativa de um processo, cada contradição é qualitativamente especificada mediante um termo principal. O uso da palavra termo não deve gerar ilusões: ele não representa a reaparição de uma unidade indecomponível de tipo metafísico. O “termo” não possui, de fato, nenhum efeito fora da realidade, fora do processo de cisão onde ele está envolvido. A burguesia tem por definição dialética o conjunto das práticas (exploração, opressão, contrarevolução) que se opõem ao proletariado. Uma classe jamais preexiste à luta de classes. Existir, é se opor. A existência de um termo é, em geral, dada em sua correlação contraditória a um outro termo da cisão. Dizer que um dos termos é o principal, é dizer que é a partir de sua predominância no processo de cisão que podemos determinar a natureza qualitativa de conjunto da própria cisão. Por exemplo, a França é um país capitalista, não somente porque a contradição principal é a contradição burguesia/proletariado, mas porque, nessa contradição principal, a burguesia é o aspecto principal da contradição: o burguês domina, isto é, ainda consegue fixar a seu favor as modalidades e o quadro de seu conflito com o proletariado.
Está claro que a teoria do aspecto principal, semelhante à da contradição principal, tem por conteúdo o movimento da relação entre o que é principal e o que não é. O objeto da dialética é menos o reconhecimento do principal do que o devir principal do secundário, e seu correlato dialético: o devir secundário do principal.
Mas isso constitui essencialmente um problema. O que designa, nessas condições, a palavra “principal”, uma vez que é a conversão em seu contrário (o secundário) que constitui sua essência? E, sobretudo: se o principal e o secundário se convertem um no outro, é necessário compreender que a lei suprema da dialética é um simples princípio de permutação, uma simples troca dos lugares?
Essa questão é de um grande alcance filosófico. A permutação, a lei da troca, é, de fato, o impulso essencial de todas as ideologias de tipo estruturalista. Ora, as implicações políticas dessas ideologias são bem conhecidas: se o movimento da realidade se resolve através de uma análise combinatória, certamente é porque a essência do movimento reside em suas invariantes, isto é, nas regras que regem as permutações. Nesse sentido, toda novidade é amplamente aparência: a deslocação dos termos de lugar em lugar deixa intacta a estrutura de troca subjacente. A mobilidade das aparências retoma a uma sistemática fechada. O conservadorismo essencial de todo pensamento estrutural corre o risco de transformar a dialética em seu contrário: a metafísica.
Hoje, a forma mais ativa dessa concepção é o anarquismo. Ele propõe que, desde que exista uma estrutura qualquer de poder, isto é, uma ordem estatal, a distribuição dos lugares é fundamentalmente regida pela relação dominador/dominado, e que qualquer deslocamento aparente deixa intacta a estrutura política essencial. A própria palavra “revolução” se torna suspeita, na medida em que ela significaria justamente a mudança do aspecto principal da contradição. Que um partido proletário venha a ocupar o lugar do Estado não é mais do que uma permutação sem interesse. Preferimos a palavra “subversão”, que designa a desagregação universal de todo lugar dominante, seja qual ela for. Privilegiamos o vaguear, a deriva, o fora de lugar, tudo que se exclui — ao menos em aparência — da combinatória e do jogo das permutações. Declaramos nas margens: marginal, jornal Marge.
Longe de ser, aliás, uma invenção política dos últimos anos, uma novidade surgiu nas entranhas de Maio de 68, esse processo intentado ao conceito clássico da revolução nada mais é que uma versão, ao mesmo tempo sofisticada e prodigiosa diluída, dos vaticínios de Stirner.
A doutrina de Stirner opõe a “rebelião” à revolução em termos exatamente idênticos aos que a decomposição do movimento revolucionário pequeno-burguês oriundo de Maio de 68 espalhou por toda parte o charlatanismo pestilento. A única diferença reside na pequena variação léxica que substituiu, por toda parte, a palavra “desejo” pela palavra “egoísmo”, que, na verdade, é mais franca do que a utilizada por são Max (Stirner). De resto, são Gilles (Deleuze), são Félix (Guattari), são Jean-François (Lyotard) ocupam o mesmo nicho na Cátedra maníaca das quimeras. Que o “movimento” seja um impulso desejável, um fluxo que gire, que toda instituição seja paranoica, e heterogênea por princípio ao “movimento”; que nada se faça contra a ordem existente, mas segundo uma afirmativa esquizofrênica que se retira dessa ordem, que seja necessário então substituir toda organização, toda militância hedionda, a autogestão — ou a associação, eles brigam sobre isso em certas cabanas — do movimento puro: todas essas audaciosas revisões, em que se pretendem levantar contra o marxismo-leninismo “totalitário” a deslumbrante novidade das massas marginais em dissidência, são palavra por palavra aquilo que Marx e Engels, em A Ideologia alemã, tiveram que despedaçar — por volta de 1845! — para preparar o terreno para uma sistematização finalmente coerente das práticas revolucionárias de seu tempo.
É preciso ler para crer, tamanha invariância histórica desse pensamento, do qual o principal argumento hoje se pretende “novidade radical”. Leremos:
“[A Revolta] é um levante dos indivíduos, uma ascensão, indiferente às instituições que delas surgirão. A revolução visava estabelecer novas instituições: a revolta nos leva a não mais Nos deixar arregimentar nas instituições, mas, ao contrário, a Nos organizarmos Nós-mesmos. Não é uma luta contra a ordem existente, pois, se ela for bem-sucedida, esta ordem existente desmorona por si mesma, é simplesmente o esforço que Eu faço para me libertar da ordem existente. Se Eu Me retirar da ordem existente, ela está morta e decompõe.”[17]
Quer-se agora do antihierarquismo, e, mais profundamente, a ideia de que toda racionalidade esmague a autonomia pura do “movimento”, que a organização revolucionária repouse sobre um intolerável despotismo ideológico, e que, em última instância, o militante organizado, com seu aparelho hierárquico, pertence à mentalidade religiosa? Mas vejam! são Marx está lá: “até hoje, nós estamos sujeitos à hierarquia e oprimidos por aqueles que dependem de ideias, e as ideias são o sagrado.”[18]
Quanto ao fato de que todo projeto revolucionário um pouco consequente seja uma “castração” e desvio religioso dos “investimento libidinais”, dizemos que essa torta de creme de nossos críticos “modernos” e “radicais” do militante leninista, são Marx cozinhou a cento e trinta anos nos imundos fornos de O Único e sua propriedade, ao opor em bloco a “vocação-determinação-ideal”, forma obscura geral do sagrado, à regra de “auto-deleite”.[19]
Marx e Engels desmontam com uma paciência infinita todas as engrenagens dessa faceta conceitual. O que eles encontram no fundo dos arrepios de êxtase da “revolta” à maneira de Stirner, e de sua oposição “radicalmente nova” (já em 1840) a todo processo revolucionário organizado; o que eles desmascaram implacavelmente na substituição da “destruição do que existe” pela infalível “existência da destruição”[20] — assim como nossos repetidores “modernos” erguem o “desejo da revolução” contra a direção racional e centralizada do projeto político do proletariado — , é a vacuidade burguesa, conservadora e jurídica do princípio da identidade. Eu sou Eu porque não sou outro, o Desejo é o Desejo porque é meu.
“Essa ‘unicidade’ tão vangloriada, que se distinguia tão bem da ‘conformidade’, da identidade da pessoa, que Sancho via nos indivíduos que existiram até aqui apenas ‘exemplares’ de uma espécie, ou quase isso, agora desaparece para se reduzir à identidade de uma pessoa consigo mesma, tal como a polícia a estabelece, ao simples fato de que Um indivíduo não é o Outro. E aí está Sancho, esse gigante lançado à conquista do mundo, reduzido à estatura de um funcionário do escritório de passaportes.”[21]
A anarquia se transforma em polícia, a subversão do Estado em fichas de estado civil: aqui nós somos reconduzidos ao estruturalismo, pensamento das invariantes, dos átomos permutáveis, pensamento da classificação, da combinação; redução final do movimento pela troca de lugar da Identidade.
A concepção anarco-desejante é inteiramente porosa ao sólido objetivismo burguês. Sua visão das coisas se opõe, em aparência, ao estruturalismo, pois ela se fixa como objetivo a dissolução de toda a estrutura. Mas ela é profundamente estruturalista, na medida em que ela não pensa a contradição como movimento da substituição, e exclui toda apreensão de uma diferença qualitativa qualquer entre dois tipos de dominação. Para esse pensamento, toda cisão é movimento de troca, toda luta é prestação recíproca, toda vitória é derrota: no exato momento em que eu submeto meu adversário à minha lei, eu caio sobre a dele, pois eu ocupo o mesmo lugar de onde ele promulgou, o lugar dominante.
Na verdade, o anarquismo é o simples reverso do estruturalismo conservador. A deriva é a sombra do combinatório. Estruturalismo e ideologias do Desejo são profundamente emparelhadas. Muito longe de se oporem, se fundem, em sua contradição comum com a dialética.
A dialética, de fato, na formulação da teoria do aspecto principal, pensa, ao mesmo tempo, segundo o movimento de cisão que lhe é próprio, a identidade (em termos, de fato, de permutação de lugares) e a não-identidade (em termo de ruptura qualitativa do processo de distribuição dos lugares tomados em seu conjunto). A dialética faz viver a contradição do estrutural e do qualitativo, da combinação e da avaliação diferente das forças.
Para isso, a dialética deve dividir seu conceito do principal.
- Num primeiro sentido, “principal” designa aquilo a partir do qual uma sequência do processo se encontra qualitativamente determinado. Assim, na sequência histórica em curso, a França é claramente determinada como país capitalista a partir da predominância de classe da burguesia. Está ai, por assim dizer, um corte estático tomado sobre o processo. É a determinação abstrata de um invariante estrutural, que fixa a particularidade histórica da sequência considerada. Os termos da contradição principal: burguesia/proletariado não são apreendidos em sua interação em movimento, mas em sua única relação hierárquica estabelecida, isto é, segundo a relação dominante/dominado.
“Principal” conota, portanto, a apreensão materialista da base objetiva. Ela possui um valor estrutural.
De modo mais geral, a invariância sequencial da dominação de um termo sobre o outro é aquele pelo qual a tese materialista se inscreve no próprio interior da tese dialética. No nosso exemplo, a dominação burguesa refere-se à existência objetiva do capitalismo, ao processo de extorsão da mais-valia, que constitui a base material geral de todos os fenômenos históricos na França hoje, e que é o fundamento objetivo, cientificamente analisado, do poder estatal da burguesia. Sendo a burguesia o aspecto principal da contradição burguesia/proletariado, significa aqui somente que o estudo materialista da sociedade mostra seu ser capitalista.
O concentrado filosófico dessa inscrição do materialismo nos conteúdos dialéticos se formulam: na contradição ser(matéria)/pensamento(mente/[espírito]), o ser (a matéria) é o aspecto principal. Este é, se podemos dizer, a formulação “na dialética” da tese materialista.
Particularizando esse enunciado universal, identificamos toda uma série de determinação do principal que constitui a espinha dorsal materialista da dialética. Este é o significado de uma passagem muito conhecida de Mao Tse-Tung:
“Segundo [alguns], por exemplo, na contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, por exemplo, o aspecto principal é constituído pelas forças produtivas; na contradição entre a teoria e a prática, o aspecto principal é constituído pela prática; na contradição entre a base econômica e a superestrutura, o aspecto principal é representado pela base econômica; as posições respectivas dos aspectos não se convertem uma em outra. Essa concepção é a do materialismo mecanicista, e não a do materialismo dialético. Certamente, as forças produtivas, a prática e a base econômica desempenham, em geral, o papel principal, decisivo, e qualquer um que negue isso não é um materialista; mas, é preciso reconhecer que, em condições determinadas, as relações de produção, a teoria e a superestrutura podem, por sua vez, desempenhar o papel principal, decisivo.”[22]
Resumindo:
a) Para ser materialista, é preciso reconhecer que uma série de termos (pratica, forças produtivas, base econômica) ocupam, “no geral”, o lugar dominante, que são o aspecto principal da contradição que os une em termo oposto (respectivamente: teoria, modos de produção, superestrutura).
É verdade, portanto, que um certo tipo de fixação do principal é aquilo que ancora no materialismo certos conteúdos da tese dialética.
b) Para ser dialético (isto é, não ser mecanicista), é preciso também reconhecer a negação dessa fixidez.
Se é verdade que a fixidez estratégica (“em geral”) do termo principal revela o materialismo na dialética, a sua não-fixidez tática (“nas condições determinadas”) revela a dialética no materialismo.
Sobre os exemplos considerados, diremos: o materialismo é aquele que estrutura a contradição fixando estrategicamente o lugar de seus termos; a dialética é aquela que contradiz a estrutura, pensando a inversão dos lugares, a não-fixidez da atribuição dos termos.
O primeiro sentido da palavra “principal”, que se refere aos fenômenos estáveis de dominação, é, de fato, essencialmente seu sentido materialista. Ele deve ser dialetizado.
- Se é verdade que, a dialética é, em primeiro lugar, a lei do movimento da contradição, não podemos nos satisfazer com a simples determinação estrutural, que por ela mesma não diz nada sobre esse movimento. É verdade que a França é um país capitalista onde a burguesia é a classe dominante. Mas o sistema capitalista não é o motor da história, é a luta de classes. Na “luta de classes”, está certamente contida a base econômica, a infraestrutura, que determinam a própria existência das classes, assim como seu sistema transitório de subordinação umas às outras. Mas “luta de classes” designa, primeiro, o processo de conflito através do qual se acumulam as condições de uma derrubada das dominações existentes, o processo pelo qual o termo dominado torna-se principal. A completa inteligibilidade dialética do que é principal deve, portanto, apreender não somente o estado das coisas, mas também sua tendência.
O que é principal do ponto de vista do estado das coisas e da estrutura pode revelar-se secundária do ponto de vista da tendência. É assim que, na declaração de Maio de 1970, Mao Tse-Tung não hesitou em dizer que, em um mundo ainda dominado pelo imperialismo e pelo social-imperialismo, “a tendência principal, é a revolução”.[23] O imperialismo e o social-imperialismo são dominantes do ponto de vista da estrutura: a maioria dos povos do mundo ainda sofrem seu jogo. Mas eles já não são mais principais do ponto de vista do movimento histórico. É o que, ainda diz Mao, a dialética consiste em considerar as coisas do ponto de vista do futuro. Para considerar as coisas do ponto de vista do futuro no próprio interior do presente, é preciso tomar esse presente como tendência, como crescimento ou decrescimento, como acumulação de forças, como ruptura, e não somente como estado, ou figura.
Afinal de contas, “principal” designa a dupla natureza de cada termo da contradição quando apreendemos em sua correlação com um outro termo. “Principal” segue o pensamento cindido do processo de cisão. Cada termo está, tanto em uma dada relação de dominação ou dependência, quanto na negação desse estado.
A maioria dos povos do mundo sofrem com o capitalismo e o imperialismo, mas a tendência histórica principal, é que “os países querem independência, as nações a libertação nacional, os povos a revolução”. E esse querer é rebelião contra os reacionários, esse querer é razão. Os povos estão dominados, o imperialismo é o aspecto principal. Mas os povos, por estarem dominados, tem por ser verdadeiro, por ser histórico, de destruir o imperialismo; e esse ser histórico está, sobre o palco do mundo, a força principal. “Principal” se divide, “principal” se transforma em seu contrário.
Cada termo, precisamente porque ele só existe quando engajado em um processo de cisão, encontra-se em si desmembrado entre a sua subordinação qualitativa com a cisão tomada como processo, isto é, como unidade, e o movimento de transformação dessa própria qualidade, que tem por impulso a luta ininterrupta entre os dois termos, e a incessante modificação de sua relação. A estrutura tem por ser uma combinação hierárquica, mas sua existência, isto é, sua história, se confunde com a de sua destruição. A estrutura não tem outra existência que o movimento de sua própria queda, e cada termo da contradição reflete esse mundo transitório de existência pela sua divisão em seu ser-pela-estrutura e seu ser-pela-dissolução-da-estrutura. O proletariado será estruturalmente determinado como classe explorada no processo de produção, e antiestruturalmente determinado como classe revolucionária portadora da aniquilação do modo de produção capitalista. Na primeira determinação, o proletariado é essencialmente dominado; na segunda, não é seu ser dominado que é principal, mas a tendência histórica para que se afirme o seu próprio domínio. Estruturalmente, o que define o proletariado é a exploração; tendencialmente, é a ditadura do proletariado. Do ponto de vista da sociedade capitalista tomada em seu conjunto, é, ao mesmo tempo, correto dizer que a burguesia é o termo principal da contradição e que o proletariado também é, dependendo se, na cisão do principal, colocamos a estrutura ou a tendência no posto de comando.
A dialética, por assim dizer, é ela mesma dialética, na medida que seus operadores conceituais, que refletem a realidade, são todos igualmente cindidos. É o que Lênin chama “a multiforme e universal flexibilidade dos conceitos, flexibilidade que vai até a identidade dos contrários”.[24] A verdade de um conceito dialético nunca reside em um único de seus sentidos, mas no flexível movimento contraditório de seus dois sentidos opostos. O conceito completo do principal será, portanto, a unidade contraditória do estrutural e do tendencial. A tomada em consideração unilateral de um dos dois faz levar à metafísica.
Essa metafísica, por sua vez, é a concentração de posições políticas ultra-“esquerdistas” ou revisionistas.
Se, de fato, nós negligenciarmos o elemento estrutural, levaremos a tendência para um estado de coisas realizadas. Assim, Geimar, decifrando em Maio de 68 a iminência da guerra civil armada, leva diretamente às aventuras idealistas ruinosas da ex-esquerda proletária. Assim, o L’Humanité rouge, desfigurando as teses chinesas sobre o caráter inelutável da guerra na Europa (o que é uma afirmação tendencial), faz como se a agressão soviética já tivesse ocorrido, e se lança a ridículas e vergonhosas manobras da “frente única popular” com os piores reacionários — La Nouvelle Action française**, por exemplo. Nesses dois casos, uma tendência é erguida em um fato consumado. A tendência principal se funde *com a estrutural.
Se negligenciamos o elemento tendencial, inevitavelmente suprimiremos o novo em favor do antigo, sustentaremos a ordem estável. Estaremos adotando uma atitude oportunista de imobilismo. Nenhuma necessidade de discernir e consolidar as tendências, a estrutura provê nossas necessidades. É a doutrina dos revisionistas da II° Internacional: o economicismo reacionário, que postula que, somente por seus movimentos objetivos, a infraestrutura capitalista conduz ao socialismo. A estrutura sozinha governa o futuro, ela sozinha é tendência. O princípio estrutural se funda com o tendencial.
Esses desvios metafísicos convergem ao princípio “dois se fundem em um”. Eles abandonam a cisão dialética do conceito de principal, e garantem simetricamente o aventureirismo esquerdista e o oportunismo de direita.
A verdadeira investigação dialética sempre opera a correlação cindida de uma determinação estrutural do principal e de uma determinação tendencial.
De fato, tudo se reduz a isso: captado em um estado dado, ou ao longo de uma sequência particular de seu desenvolvimento, toda contradição atribui a seus termos um lugar determinado, lugar em si definido pela sua relação ao lugar de outro termo. Trata-se de captar o aspecto principal nas atribuições dos lugares dominantes e lugares dominados. Nesse sentido, a dialética é uma lógica dos lugares.
Apreendida, ao contrário, em seu movimento ininterrupto por etapas, toda contradição confronta forças cuja natureza é de ordem diferencial: o que importa na avaliação da força do ponto de vista do movimento da contradição não é mais seu estado transitório de subordinação ou de dominação, mas seu crescimento ou o seu decrescimento. Na sua vertente tendencial ou propriamente histórica, a dialética é uma lógica das forças.
O problema dialético central é, portanto, o seguinte: como se articulam, sem se fundirem, a lógica dos lugares e a lógica das forças?
[1] Mao Tse-Tung, De la contradiction, O.C., t, I.
[2] Mao Tse-Tung, Problèmes stratégiques de la guerre révolutionnaire,, O.C., t. I.
[3] Marx, Postface à la 2º édition allemande du 1 livre du « Capital », O. C., t. II, p. 99.
[4] Mostraremos em nosso fascículo sobre a dialética hegeliana que a leitura marxista de Hegel é essencialmente uma leitura dividida: ela descobre nas rupturas e nas inconsequências do processo dialético o conflito das tendências materialistas e idealistas. Isto é o que Engels que diz: “[…] embora Hegel tenha considerado muitas relações particulares com tanta precisão e gênio, é inevitável, pelas razões que acabamos de mostrar, que muitos dos seus detalhes também tivessem um caráter de remendo, artificial, em construção, em suma, falso” (Engels, Socialisme utopique et Socialisme scientifique, O.C., t. III, p. 136).
[5] Lênin, Cahiers philosophiques, E.S., p. 127.
[6] Althusser, Lénine devant Hegel, Maspero, p. 88.
[7] Lênin, Cahiers philosophiques, E.S., p. 198.
[8] Ibid. p. 192.
[9] D. Lecourt, como um bom discípulo, sublinha e agrava esta obstinação: “O que [Lênin] retém, de fato, em suas notas, são essencialmente — se não exclusivamente — as passagem onde Hegel critica a filosofia de Kant” (D. Lecourt, Une crise et son enjeu, Maspero, p. 51) Não se poderia dizer coisa tão fortemente inexatas.
[10] Lênin, Cahiers philosophiques, E.S., p. 193.
[11] Enver Hoxha, Rapport au 6º Congrès du P.T.A., Editions « Naïm Frashëri », p. 234.
[12] Mao Tse-Tung, Du gouvernement de coalition, O.C., t. III.
[13] Marx & Engels, Manifeste du Parti communiste, O.C., t. I, p. 123.
[14] Engels, Lettre à Bebel. Juin 1873, O.C., t. II, pag. 435. Saudemos essa passagem, mais uma vez, a profundidade da intuição dialética hegeliana. Essa admirável citação vem da Fenomenologia do Espírito. A tradução de Hyppolite é a seguinte: “Um partido prova ser o partido vitorioso somente porque ele se divide, por sua vez, em dois partidos.” Vale citar todo o parágrafo: Hegel aí desenvolve, em relação à Aufklärung, a lógica da tomada de poder (aqui, a vitória ideológica total sobre a fé religiosa) e da nova luta entre os dois caminhos que imediatamente dividem o campo vitorioso. ((La Phénoménologie de l’Esprit, Aubier, t. II, p. 123.)
[15] Sobre tudo isso, ver o artigo “A teoria de ‘integrar dois em um’ é uma filosofia reacionária para restaurar o capitalismo”, Pequim informações, 24 de Maio de 1971.
[16] Mao Tse-Tung, « Intervention à la Conférence nationale du Parti communiste chinois sur le travail de propagande », Cing Essais philosophiques, Editions de Pékin, p. 283.
* N.T — Amarelo quer dizer: « syndicalisme jaune » (sindicalismo amarelo), isto é, sindicalistas conciliadores de classe, pelegos.
[17] Marx & Engels, L’Idéologie allemande, E.S., p. 414.
[18] Ibid., p. 198.
[19] Marx & Engels, L’Idéologie allemande, E.S., p. 414. É significativo que a revista Recherches (n° 14, janeiro de 1974) intitulou sua advertência solene contra a “culpa militante”: “o ideal histórico”. No entanto, há alguma dúvida sobre Stirner? Sem chance. O reconhecimento da dívida não é forte de nossos modernos sectários do “auto-deleite”, quando trabalham sob o signo “daquele algo novo e afirmativo [que] surge [e] se apodera de nós imediatamente” (p. 130). O Anti-Édipo é adornado com um índice que inclui nada menos que 197 nomes próprios: mas nem Stirner, nem Bakunin, nem Proudhon, nem mesmo Rosa Luxemburgo; nenhum desses que, no essencial, isto é, as poucas conclusões práticas — desastrosas — às quais este monumento pode conduzir já foi dito rigorosamente a mesma coisa. Imaginamos por um momento nosso livro, idêntico em substância, mas provido de um índice copioso estariam ausentes Hegel, Marx, Engels, Lênin e Mao Tse-Tung! É verdade que nossa concepção do “novo” e da “afirmativa” deve ser essencialmente diferente. Isso porque opera com a tenacidade na realidade operária e popular, da qual nossos “auto-deleitores” estão excluídos, em vista de sua repugnância libidinal pelo “ideal militante”.
[20] Marx & Engels, L’Idéologie allemande, E.S., p. 414 (citação de Stirner).
[21] Ibid., p. 485. “Sancho” evidentemente é Stirner.
[22] Mao Tse-Tung, De la contradiction, O.C., t. I.
[23] Mao Tse-Tung, Peuples du monde, unissezvous pour abattre les agresseurs américains et leurs laquais ! Editions de Pékin, p. 2.
[24] Lênin, Cahiers philosophiques, E.S., p. 108.
* N.T — La Nouvelle Action française é um movimento político reacionário francês defensor da monarquia francesa, hoje são chamados de La Nouvelle Action royaliste.

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