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É que Narciso acha feio o que não é espelho…

Sobre uma certa esquerda identitária

Tudo certo como dois e dois são cinco · 2025-06-26 21:16 · 0 claps · 2.0 min read
#esquerda #progressismo #identidade #erika-hilton
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É que Narciso acha feio o que não é espelho…

Sobre uma certa esquerda identitária

Os episódios envolvendo Erika Hilton não revelam apenas a possível incoerência de uma parlamentar progressista. Eles expõem um mal-estar estrutural: a dificuldade da esquerda contemporânea de sustentar, dentro das instituições, uma coerência ética diante das armadilhas do poder, sobretudo quando esse poder é mediado pela lógica da performance identitária.

Não se trata de desqualificar o papel da identidade na luta política. Pelo contrário, a emergência de corpos dissidentes e de vozes historicamente silenciadas na política institucional é, e continua sendo, uma conquista fundamental. O problema surge quando essa presença é instrumentalizada, como um substituto para o compromisso político efetivo com o coletivo.

Hilton, como figura pública, carrega não apenas um mandato, mas também uma potente carga simbólica: mulher trans, negra, de origem periférica, representante de causas historicamente marginalizadas. Sua presença no Congresso é, por si só, um fato político. E é justamente aí que o calo aperta: quando a imagem se torna um escudo inquestionável.

É inegável que setores da direita instrumentalizam tais pautas para deslegitimar corpos não-hegemônicos, mas usar essa constatação como blindagem automática é um erro estratégico e ético. Representatividade sem prestação de contas é apenas um novo nome para o velho clientelismo.

A performance identitária, quando desvinculada de uma práxis material e coletiva, cria uma bolha simbólica que se desfaz ao menor sinal de incoerência, pois não há densidade política que a sustente.

A política institucional exige mais do que coerência entre discurso e prática: exige responsabilidade com o dinheiro público. Quando parlamentares progressistas justificam a contratação de profissionais cuja qualificação técnica para a assessoria legislativa é questionável, alegando que “desempenham funções administrativas” (além de serem maquiadores, rs), eles aprofundam o abismo que permite à extrema-direita prosperar com seu discurso antipolítica. Inadvertidamente, reforçam o imaginário de que “são todos iguais”.

O mandato de Hilton tem sido tragado pela lógica da autopromoção digital, da blindagem simbólica e do capital estético, correndo o risco de se tornar irrelevante no combate real às opressões que denuncia.

Esta crítica, vale insistir, não é um apelo ao moralismo ou ao “bom senso”. É um chamado à radicalidade, no sentido etimológico de “ir à raiz”. A esquerda não pode se contentar em ser “mais ética que a direita” ou “coerente nas intenções”. Precisa ser ética na prática cotidiana, transparente em suas ações e disposta a romper com privilégios.

A crise não está apenas em Erika Hilton, mas na forma como a esquerda contemporânea reage: ora silenciando em nome de uma suposta proteção identitária, ora mimetizando a lógica punitivista da direita. O compromisso deve ser com a transformação, não com a manutenção de uma estética do “bem”.

A esquerda que deseja construir outro mundo precisa reaprender a olhar no espelho, mesmo quando o reflexo for desconfortável.


메타데이터
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