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A Crítica da Quarta Preta é uma sequência de dois artigos, organizados e escritos após a observação…

‘’Ipatinga, Vale do Aço, está precisando da Quarta Preta’’

Coletivonegrovda · 2023-04-06 16:56 · 0 claps · 6.2 min read
#negros #brasil #ipatinga #empoderamento #raça
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A Crítica da Quarta Preta é uma sequência de dois artigos, organizados e escritos após a observação das apresentações da 1ª Quarta Preta, que ocorrera em Ipatinga, no dia 15/03, no Espaço Ecoar. A crítica do evento, fora composta por Geralda Dias e Marco Túlio Dias. O texto seguinte, vem assinado por Marco Túlio Dias.

‘’Ipatinga, Vale do Aço, está precisando da Quarta Preta’’

Assim falara Mãe Fátima de Ogum, em seu discurso enquanto a primeira pessoa escolhida para ser a personalidade homenageada da Quarta Preta. Liderança negra e feminina do terreiro Ilê Axé de Ogum, Fátima de Oxum, juntamente com seus filhos, já percorre há muito tempo a caminhada religiosa na região, e é uma das pessoas negras mais importantes e sinônimo de exemplo a ser seguido por todes nós. ‘Quem é de Axé, diz que é’, como a mesma enfatizara ao Jornal Diário do Aço, ainda em 2013. Por isso, viva a vida de Mãe Fátima de Ogum, viva a sua casa e sua ancestralidade, viva todos os seus filhos, todas as suas criações.

Mãe Fátima de Ogum acompanha as apresentações da Quarta Preta juntamente com sua família. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Mãe Fátima de Ogum acompanha as apresentações da Quarta Preta juntamente com sua família. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Ocorrida na Quarta do dia 15/03, data também do aniversário de 12 aninhos de minha constelação, minha priminha Negra Glenda, a Quarta Preta, antes mesmo de acontecer, já se consolidara como uma luminescência entre todes nós, até porque, “Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”. A programação, sendo tal como mais uma engrenagem do Movimento Negro brasileiro, surgiu numa perspectiva de idealização e fomento da produção cultural artística, incentivando a pesquisa de linguagens como estética afrodiaspórica, bem como de dramaturgias do som, da palavra e do corpo com o tempo, a partir de nossa ancestralidade.

O edital de abertura e inscrição foi disponibilizado até fevereiro e apresentara duas linhas de ações: uma voltada para atores, atrizes, performances, músicos e demais agentes que atuem em áreas para as cenas; outra para o empreendedorismo no campo da cultura, da arte, da culinária e das memórias. Da junção disto, destacou-se uma pluralidade de artistas e obras que se mobilizaram e expuseram as suas vivências das mais intrínsecas maneiras e formas, somando-se ao movimento nacional, que ocorre em diversas cidades brasileiras como A Cena Tá Preta em Salvador/BA, Segunda Preta em Belo Horizonte/MG, Segundas Crespas em São Paulo/SP e Segunda Black no Rio de Janeiro/RJ.

Ocorrida no espaço ECOAR — Espaço Cultural Ofício e Arte, a nossa Quarta Preta iniciara às 20h através da apresentação da equipe de produção: Gustavo Nascimento, Matí Lima e Dani Adestino muito se dedicaram para que o movimento cultural da noite fosse a grandiosidade que fora, juntamente com outras pessoas que estavam a todo momento laborando nos bastidores de toda a programação. Potente.

‘’A primeira conquista do colonizador é sobre nossas subjetividades’. Quadro exposto na entrada da Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

‘’A primeira conquista do colonizador é sobre nossas subjetividades’. Quadro exposto na entrada da Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Principiando as atuações, todo o público que acompanhara o espetáculo tivera o privilégio ímpar de assistir um artista fenomenalmente autêntico: Gabriel Poeta. O negro, descalço, com uma bermuda caída, sem blusa, com um violão sob os braços e com alma ensejada com os singelos acordes, além do penetrante olhar e hipnotizante voz, ele expusera, de maneira muito perpetrante o seu trabalho denominado ‘Monólogo de mim’, nele, Gabriel Poeta poetiza sobre a ansiedade, depressão e outras questões internas. Em seu monólogo, ele conversa consigo mesmo verbalizando uma terceira pessoa, se olhando de fora para dentro, mostrando ao público que, através da música, para ele, sempre existirá a possibilidade de retirar-se dos precipícios da existência. Como dissera Francisco Brennand: a vida sem música é um exílio, um exílio, total, aliás, a própria arte de uma maneira geral é um antidestino. Obrigado, Gabriel Poeta, por nos mostrar que o mar, por mais escuro que esteja, trará o medo, mas, lado a lado, também lá estarão, os corais mais coloridos.

O artista Gabriel Poeta apresenta o seu trabalho intitulado ‘Monólogo de mim’ na 1ª Quarta Preta. ‘Monólogo de mim’. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

O artista Gabriel Poeta apresenta o seu trabalho intitulado ‘Monólogo de mim’ na 1ª Quarta Preta. ‘Monólogo de mim’. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Seguidamente, tivemos a regalia de poder assistir uma apresentação com uma proposta totalmente híbrida e envolvente, que abraçou e muito surpreendeu a todos que ali estavam acompanhando a apresentação. O trabalho, composto por Negoh Jhons, Diego Tavares, Fran Silvestre, Ricardo Rodrigues, Gregory Moura e Marilson Braga, buscara evidenciar as nossas potências enquanto pessoas negras, dispondo que apesar de todas as mortandades fomentadas diuturnamente pelo racismo, ainda sim somos capazes de escurecer espaços, famílias, instituições e todos os demais lugares que bem entendermos como nosso também afinal, parafraseando Djonga: abram alas pra nós / abram alas pra nós / nos consideramos assim, pois só andamos entre reis e rainhas, rá rá. A figuração foi esmerada, que se aplauda continuadamente o grupo.

Negoh Jhons, Diego Tavares, Ricardo Rodrigues, Gregory Moura e Marilson Braga conversam sobre a apresentação na 1ª Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Negoh Jhons, Diego Tavares, Ricardo Rodrigues, Gregory Moura e Marilson Braga conversam sobre a apresentação na 1ª Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Como terceira proposta na noite da 1ª Quarta Preta, o público pôde ainda acompanhar a apresentação de Edmar Kehler, que explorara o campo externo do espaço, o lado de fora do Ecoar, na própria rua. O artista trouxe consigo a proposta de expor, sob sua perspectiva interna, o seu dia a dia. Com um olhar enigmático, uma voz um tanto quanto airosa e uma beleza física una, o artista soube muito bem explorar todo o ambiente o qual se apresentara, mostrando ao público uma singularidade muito linda. ‘Sinto tudo o que sinto, já não me incomoda mais o seu olhar, silêncio, no lado bom, não garante que ele não existe’.

O artista Edmar Kehler se apresenta na área exterior ao do espaço Ecoar. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

O artista Edmar Kehler se apresenta na área exterior ao do espaço Ecoar. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

No quarto abrilhantamento da noite, as pessoas puderam acompanhar a apresentação nominada ‘O Funk é filho do Guetto, assuma’. Sendo assinada por Beatriz de Lira, Rebecca Fagundes, Francismar Ferreira, Ulisses Marciano, Saymon Silva, Ericles Silva e a digníssima Diiah Foox, a exposição artística visara fazer memória à cultura de favela. Nela, foi enaltecida a mistura cultural que o funk transmite, expondo assim a fluidez e porosidade que os passinhos que tomaram conta das áreas periféricas do país exigem. O grupo, através de uma forma de dançar que valorizara e expusera ao público presente todos os elementos essenciais do ritmo musical, veio para ressaltar que o Funk é alegria, é a cultura da favela. Foi lindo, e poder participar disto, mais lindo ainda, durante a apresentação do grupo, o mexer-se da plateia foi quase que involuntário. Não obstante, ainda tivemos a oportunidade ímpar de presenciar o fomento da cultura Bate-cabelo através da apresentação da Drag Queen Diiah Foox, nominada também por este que vos escreve como ‘Marcia Pantera do Vda’. Com ela, aprendi na noite daquela quarta que o bate-cabelo, sinônimo de arte e força da comunidade LGBTQIAP+, sobretudo das trans e travestis, se iniciara no Brasil, na década de 1980, com Marcia Pantera. Potente, lindo demais. Muito obrigado a todo o grupo.

Beatriz de Lira, Francismar Ferreira, Rebecca Fagundes, Ulisses Marciano, Saymon Silva, Ericles Silva e Diiah Foox falam um pouco sobre a proposta e apresentação do grupo. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Beatriz de Lira, Francismar Ferreira, Rebecca Fagundes, Ulisses Marciano, Saymon Silva, Ericles Silva e Diiah Foox falam um pouco sobre a proposta e apresentação do grupo. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Seguidamente, num tom de finalização das apresentações da noite, tivemos a participação do artista Luc Xander. Com uma presença de palco incrível, looks marcantes e muita interação com o público, o artista apresentara energeticamente todo um monólogo trazendo questões que circundam sua existência. Com isso, as pessoas presentes na Quarta Preta puderam adentrar ao interior do artista através de 03 manifestos vendo-o performar sobre sua a liberdade, seus amores, homossexualidade, aceitação, o racismo, e uma série de outras objetividades e subjetividades que o fizeram ser quem hoje é. A entrega de Luc Xander foi linda e surpreendente, e para completar o intrínseco momento, devo destacar a presença de sua mãe, Sra. Silvana, que durante toda a noite esteve junto do filho, apoiando-o. ‘O mundo tem que aceitar abraçado com ele’, destacou lindamente Silvana após a apresentação de Luc. Prestigioso demais.

O artista Luc Xander performa para o público da 1ª Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

O artista Luc Xander performa para o público da 1ª Quarta Preta. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Social Coletivo Negro Vale do Aço (março de 2023).

Ultimando tudo o que foi esta potencialidade de noite, devo destacar que a Quarta Preta já havia sido pensada antes mesmo dela se constituir fisicamente, sem nenhum tipo de dúvida, ela fora planejada pela ancestralidade para que ela ali acontecesse e continuadamente permanecesse. Sendo tal como um corre coletivo, friso aqui ainda os meus cumprimentos aos meus Professores de Rua: Senhora Geralda Dias e Senhor Sávio Tarso, obrigado por todos os ensinamentos. Que venham outras e outras, que nossa negritude e ancestralidade sejam fomentadas em cada canto desta cidade e desta região, sobretudo entre os becos e vielas, que a Quarta Preta esteja em nós por onde formos, afinal, são meus manos, minhas minas, meus irmãos, minhas irmãs, o mundo é nosso. Obrigado, Quarta Preta!

Marco Túlio Dias

Crítica Quarta Preta

Comunicação Social Coletivo Negro.


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