Mundos — ou como parti de uma telenovela, descobri Tristão e Isolda, encontrei Jessye Norman e…
No capítulo 39 de Água viva, exibida pela Globo em 1980, Miguel Fragonard e Sandra, pai e filha interpretados por Raul Cortez e Glória…
Mundos — ou como parti de uma telenovela, descobri Tristão e Isolda, encontrei Jessye Norman e cheguei a Mahler

Pintura do artista espanhol Rogelio de Egusquiza/Museu de Belas Artes de Bilbao
No capítulo 39 de Água viva, exibida pela Globo em 1980, Miguel Fragonard e Sandra, pai e filha interpretados por Raul Cortez e Glória Pires, conversam durante 5 minutos e 53 segundos. Antes do papo longo para obras desse gênero, a garota se aproxima por trás, sem ser percebida pelo homem acomodado numa poltrona e de olhar meio tenso, meio vago. Ela se senta no chão, e o diálogo tem ao fundo uma música incomum para o padrão de telenovelas.
Desconheço se em capítulo anterior já aparecera como trilha o prelúdio do primeiro ato da ópera Tristão e Isolda, de Wagner. Precisaria vasculhar mais os arquivos da Globo a fim de verificar, mas a memória que consigo retroagir até o Vitor de nove anos sugere que foi aí, 19 de março de 1980, que algo transformou minha vida.
Quando encontrei o trecho recentemente, um mês antes de completar 55 anos, até então pensava que o mesmo prelúdio tocava enquanto Sandra chorava a morte da mãe, Lucy, papel de Tetê Medina. Na reminiscência difusa, também achava que pai e filha nominavam a peça, mas não localizei essa circunstância.
Ou isso de fato existiu — portanto, ainda tenho pesquisa a fazer — ou meu cérebro produziu elementos para preencher — ou ampliar — lacunas do rosário factual, mas é suficiente para meu propósito saber que, por meio do folhetim eletrônico de Gilberto Braga, conheci Tristão e Isolda, que revolucionou as óperas e foi executada pela primeira vez 160 anos atrás, em 10 de junho de 1865, em Munique.
Naquela quarta-feira de verão da minha infância, é provável que estivesse deitado no sofá bege da casa onde morava, no bairro Partenon, em Porto Alegre. Ou seria o quadriculado de tons avermelhados?
Daí uma música atingiu camadas profundas.
Me transportou a dimensões sensoriais desconhecidas.
E me conectou a uma possibilidade de tristeza e melancolia externas ao que me constitui, mas que reverberaram como se fossem minhas.
Mais do que estabelecer um ponto inicial, uma espécie de cosmogonia do meu encantamento pela ópera, pretendo reconstituir um percurso que começa em Água viva e chega a Mahler. Maluco, né?
Não tenho recuerdos para pontuar o que vivi a partir de Wagner depois de encontrá-lo no apartamento do cirurgião plástico Miguel Fragonard, galã careca e de dentes imperfeitos (ah, os anos 1980…) da novela em que, na abertura, Baby Consuelo cantava *Menino do Rio*, do Caetano. Antes de prosseguir no itinerário nostálgico-musical que me propus, porém, arrisco um palpite.
Da iconografia que moldou um semblante para Isolda durante séculos, a heroína adúltera de destino trágico emerge com cabelos longos e esvoaçantes, o que confere um aspecto etéreo à mulher apaixonada impedida de submergir na amplitude do amor.
Na sala onde pai e filha conversam, destaca-se na parede um retrato pintado da mãe. Ao rever o quadro, me fixei na cabeleira hiperbólica, em dissonância com a atriz, e de imediato pensei em Isolda.
Avancei demais nas possibilidades? Enquanto escrevo, cada vez mais me entusiasma o acerto dessa hipótese, mas quero mesmo é aportar em Mahler, então retomo o fluxo.
Contava não lembrar o acontecido depois que esbarrei com Wagner em um apartamento-cenário típico da zona sul do Rio de Janeiro — a memória é assim mesmo, ardilosa, mas pulemos esse vácuo informacional e vamos à concretude de fatos documentados em um disco e um carnê de crediário que guardei.
Perto do início da faculdade, em 1989, a vó Marília me comprou um CD player na Casa dos Gravadores, que ficava na Galeria do Rosário. Em outra galeria, a Chaves, encontrava um dos meus espaços preferidos em Porto Alegre: a lendária King’s Discos, loja que mantinha no subsolo um setor de jazz e clássicos.
No mesmo ano, atendido pela Fátima ou Margarida (que, anos depois, um ou dois andares acima abriu uma loja chamada Sala dos Clássicos, em parceria com a Mirta), pedi um disco que tivesse o prelúdio que introduz Tristão e Isolda. Saí com um CD que a Deutsche Grammophon lançou em 1988, um dos mais célebres do extraordinário catálogo da gravadora. Trata-se do registro ao vivo de um concerto realizado na Áustria em 1987, Karajan regendo a Filarmônica de Viena, que originou o documentário Karajan in Salzburgo, de Susan Froemke e Peter Gelb.
No disco fabricado no Brasil em 1989, relíquia que preservo até hoje, consta um encarte que comecei a ler na lotação Partenon, micro-ônibus vermelho e azul em que eu embarcava no fim da linha do Centro, na rua General Vitorino, e descia na Bento Gonçalves com Guedes da Luz, a uma quadra de casa.
Com o rosto ainda povoado de acnes, analfabeto em alemão, 18 ou 19 anos, li a tradução de Mário Willmersdorf Jr. para Isoldes Liebestod, ou Morte de Isolda, a ária que encerra a ópera:
Como é doce e delicado
o seu sorriso,
como abre
os olhos gentis –
veem, amigos?
Não veem?
Como ele brilha
sempre mais luminoso,
como se ergue alto,
cercado de estrelas?
Não veem?
Como o seu coração
orgulhosamente se expande,
e pleno e sublime
lhe pulsa no peito?
Como dos seus lábios,
em um encanto suave,
um doce alento
escapa delicadamente –
Amigos! Olhem!
Não sentem, não veem?
Serei a única a escutar
esta melodia,
que maravilhosa
e suave,
suspirante de alegria,
inteiramente reveladora,
doce e conciliadora,
dele se escapa,
e em mim penetra,
cheia de ímpeto,
ecoando sublime
ao meu redor?
Ressoando mais claras,
para envolver-me toda,
são talvez as ondas
de brisas suaves?
Talvez as nuvens
de encantadoras fragrâncias?
Como se enfunam,
e fremem ao meu redor,
deverei respirar,
deverei escutar?
Deverei saborear,
afogar-me contente?
Exalar docemente
nesta fragrância?
Na vaga ondejante,
na rima sonora,
no cosmo inflante
da respiração universal –
mergulhar,
submergir –
privada dos sentidos –
volúpia suprema!
E no meu quarto, afoito para colocar o disco prateado de borda amarela na gaveta do aparelho que abria em descompasso com a minha ansiedade, OUVI JESSYE NORMAN PELA PRIMEIRA VEZ.
Recorro a Jessye Norman para entender universos estranhos a mim. Por que alguém faz de tudo para ir num jogo importante do seu time do coração? Sei a resposta: faria o mesmo para assistir a um recital da Jessye.
Dos discos que gravou, tenho mais de 50.
Coloquei seu rosto como fundo de tela do computador.
Batizei uma gata de Jessye Norman.
Atravesso madrugadas garimpando vídeos de suas apresentações.
E no recital que fez no Theatro Municipal de Paulínia, interior de São Paulo, em 24 de outubro de 2010, acompanhada do pianista Mark Markham, chorei do início ao fim ao lado do Rafa, com quem divido há 27 anos a alegria e a dor de viver.
Quando ela morreu, em 30 de setembro de 2019, visitava a Maria Isabel, minha irmã, que estava adoentada. Amigos me mandaram mensagens para expressar seus sentimentos, de tão notório o meu fascínio.
Ao chegar em casa, mandei uma mensagem para o Ticiano Osório, que editava o caderno DOC, do jornal Zero Hora, durante as férias do titular, propondo um texto, mas como o Daniel Feix já tinha reassumido a função, foi com ele que acertei a publicação. Escrito em parceria com Bruno Ibaldo, o texto começa assim:
“A orquestra toca em dinâmica fortíssima no fosso. A crina dos arcos verga ao pressionar com vigor as cordas dos violinos. Os tímpanos rufam na mesma intensidade. Os metais, feito trombetas apocalípticas, anunciam o que virá, um desafio aparentemente insuperável: sobre os 115 músicos eufóricos, uma voz deve soar mais alto, e assim ocorre — é Jessye Norman, que em poucos segundos protagoniza um dos maiores momentos da história da ópera. Então ela canta, em rompante, no original alemão:
Ó grandioso milagre! Gloriosa donzela!
Tu me trazes o verdadeiro e mais santo bálsamo!
Por ele a quem amamos eu salvarei o amado:
que minha recompensa um dia sorria para você!
Adeus! A angústia de Sieglinde te abençoe!”.
Reproduzo mais um trecho para dimensioná-la:
“Norman é uma gigante; sua voz, um colosso; sua performance, exuberante. Sua classificação como soprano não passa de uma formalidade. Na prática, ela era o que quisesse ser”.
Antes de prosseguir, resumo o itinerário afetivo-musical que se estende pela minha vida e que tracei ao longo desses parágrafos.
Eu tinha nove anos e ouvi na novela Água viva o prelúdio que abre a ópera Tristão e Isolda. Uma década depois, ao buscar uma gravação dessa obra que se inseriu em minha vida de maneira irreversível, conheci Jessye Norman, a quem consagro prerrogativas em meu panteão particular. A partir dela, cheguei a Mahler.
Se encontrasse o nome Jessye Norman em um disco, eu comprava, mesmo desconhecendo o resto. E foi assim que levei para casa a *Sinfonia nº 3 de Mahler. Pouco sabia do compositor. Arrisco que, naquela época, já ouvisse o Adagietto, movimento que adquiriu notoriedade independentemente da Quinta*.
Entrar no universo mahleriano foi difícil. O álbum duplo que comprei, lançado em 1982, é uma extraordinária e emocionante regência do Abbado à frente da Filarmônica de Viena, mas precisei de tempo para decifrar.
O primeiro disco compreende os três primeiros movimentos: 1 — Kräftig. Entschieden, 2 — Tempo di Menuetto. Sehr mässig e 3 — Comodo. Scherzando. Ohne Hast. O segundo, os outros três: 4 — Sehr langsam. Misterioso. Durchaus ppp, 5 — Lustig im Tempo und keck im Ausdruck e 6 — Langsam. Ruhevoll. Empfundem.
No princípio, não se fez a luz — contrariando a ficção cristã descrita no Gênesis. Até amar a Terceira do Mahler em sua completude, trilhei veredas ásperas. Precisei de um atalho: ouvir apenas o disco 2, que, de largada, me ofertava Jessye. Daí vinha o coro infantil. Por fim, Mahler em sua plenitude, uma preciosidade orquestral repleta de distintos estados sonoros.
Uma melodia surge lenta, a performance dos músicos ainda contida. Logo as cordas vibram com mais vigor, as trompas se erguem, mas a tensão retrocede. E nesse jogo ambivalente a melodia vai se tornando complexa, frases se repetem com acréscimo de instrumentos, até os tímpanos compassados estabelecerem o clímax, até a batuta cessar seus desenhos no ar.
Os movimentos que encerram a Terceira de Mahler, com Abbado e Jessye, redefiniram para mim o que é sublime, o que é lindo, o que me conecta ao sagrado — aquilo que me lança em dimensões infinitas, onde me perco do que sou, para depois regressar ao que chamam de consciência.
Como que o disco 2 me sequestrava e o 1 me expulsava? Não fazia sentido. Então decidi decifrar. Passei a ouvir sem parar a gravação completa, e quando percebi, sem ato solene, mas pouco a pouco, como quem se alfabetiza — ou se apaixona –, quando percebi Mahler já não era mais um desafio, mas um destino.
Para Mahler, uma sinfonia deve ser como o mundo, deve conter tudo. Para mim, a música de Mahler me deu um mundo, ou melhor, uma galáxia.
E me aproximando do que cogito ser o final deste texto, que comecei sem presunção ou certeza de propósito — como se precisasse, como se se lançar às possibilidades das palavras não fosse um fim em si –, percebo que é de mundo, ou mundos, que precisava falar.
O mundo em que nasci e me criei — bairro Partenon.
O mundo em que descobri Tristão e Isolda — telenovela.
O mundo da formação de repertório para um jovem — Galeria Chaves e suas lojas.
O mundo do sublime — JESSYE NORMAN.
O mundo ampliado e irreversível — Mahler.
O mundo compartilhado e amoroso — Rafa.
Por fim, a tentativa de entender os mundos e de urdir um mundo — escrever.
[Texto publicado originalmente na edição 284 da revista Parêntese.]
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