krítica kuir #6–3ª sessão com bella gonçalves
crítica poética por bremmer guimarães
krítica kuir #6 — 3ª sessão com bella gonçalves

foto: caroline barreto
crítica poética por bremmer guimarães
a quarta kuir politika chegou à sua 3ª sessão numa conversa entre o artista igor leal, da plataforma beijo, e a cientista social bella gonçalves, vereadora de belo horizonte e candidata à reeleição no município. logo na primeira fala da noite, bella comentou a importância das eleições municipais pra se reverter o cenário tenebroso que vivemos na política do país hoje.
acompanhamos nos últimos anos, o crescimento do fascismo no brasil, numa legitimação da violência machista, misógina e lgbtfóbica contra nossas corpas e vidas. e segundo a vereadora, é no município, é no cotidiano das cidades, que a gente tem acesso ou não aos direitos básicos como moradia, segurança, educação, alimentação, cultura, entre outres. então é preciso reverter nas urnas esse processo de avanço do conservadorismo em curso no país.
bella lembrou a importância das manifestações e de se ocupar as ruas (como aconteceu em muitos momentos da nossa história recente), e afirmou que gritar “fora bolsonaro” é muito importante, mas se conseguirmos derrotar o bolsonarismo nas eleições municipais será uma vitória histórica. pra isso, a candidata afirma que precisamos de candidates lgbtcia+ ocupando a câmara. “justamente no momento em que os ataques e a violência contra nossas corpas estão mais fortes, nunca tivemos tantas candidaturas de diversidade nesse país. a gente se prontifica a mudar a cara dos parlamentos, da câmara, das prefeituras”, diz.
o cenário da câmara municipal de belo horizonte atualmente é tenebroso. bella nos conta que de 41 vereadores em exercício, apenas 4 são mulheres. vereadores lgbtcia+ são apenas 2 (incluindo a própria bella, que é uma mulher cis lésbica), e ainda assim 1 delus é vereador que não se posiciona a favor da luta nas pautas de gênero e sexualidade. apesar da forte perseguição, a gabinetona das muitas (coletiva da qual bella gonçalves faz parte) está transformando esse espaço, trazendo inclusive a pauta do direito aos banheiros às corpas diversas na câmara.
a cientista social lembra a necessidade de se construir a luta lgbtcia+ partindo de pautas feministas. bella está engajada com um feminismo que também inclui mulheres cis lésbicas e bissexuais, e podemos pensar também os homens trans e as mulheres travestis. a atual vereadora diz que muitas questões das mulheres lésbicas e bissexuais são invisibilizadas na luta lgbtcia+.
infelizmente, ainda existe um protagonismo muito grande da esfera ggg+ como representação desse grupo. e a quarta cuír é um dos movimentos que busca transformar essa exclusão. bella rememora a história da comunidade cuír na cidade, ao recuperar dados da primeira parada lgbtcia+ em bh, puxada por soraia menezes, uma mulher negra, sindicalista e uma das pioneiras da militância lésbica em minas gerais, conforme é citada no próprio site da parada.
ao ser perguntada por igor leal sobre sua infância, bella afirma ter sido uma criança bem sapatão. com a chegada da pré-adolescência e da adolescências, vieram as sensações de sofrimento por ser quem era. “será que a gente é incapaz do amor?”, ela se perguntava. a partir de sua experiência, ela hoje defende e percebe a grande importância de termos nas escolas um espaço de proteção e educação. é preciso que estejamos engajades no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes.
anos mais tarde, bella gonçalves tem mais alegria ao ver a juventude do agora, com uma maior presença da diversidade mais presente entre as novas gerações. ela percebe que esse é um movimento de emancipação que vem antes mesmo de nós, mas que hoje querem barrar com o avanço das censuras por parte das instituições, inclusive do próprio governo. mesmo com os avanços, os desafios da juventude brasileira ainda são grandes.
ao mencionar sua trajetória com as muitas, bella fala que a gabinetona é a experiência mais transformadora pela qual passou. trata-se de um coletivo que defende a necessidade de trabalhar todas as lutas pra que tenhamos transformações reais na sociedade e na nossa política. nesse sentido, a fala da vereadora é bastante cuír, pois parte da ideia de multidão e conecta diferentes corpas e vivências.
hoje, a gabinetona reúne em suas pautas a luta antirracista, traz a questão indígena pro centro da cidade, defende o direito à moradia, à educação lgbtcia+, e busca interseccionar as pautas da cultura com várias outras temáticas como saúde e segurança pública. segunda ela, nos 4 anos que passou na câmara municipal, foi preciso se fortalecer pra enfrentar os ataques de outros políticos. “ é um dos espaços mais violentos onde já circulei”, revela.
bella nos conta que os espaços da câmara e da assembleia estão concentrados de lgbtfobia e misoginia, sendo espaços de muita violência. por isso mesmo, segundo a candidata, precisamos eleger pessoas lgbtcia+ nas eleições 2020. “sei que temos aliades na câmara, mas é diferente se formos corpas lgbtcia+ ocupando aquele lugar”, pontua. “é um avanço na luta, um reconhecimento geral na sociedade de que também podemos ocupar esse lugar de reivindicar poder”, completa explicando se tratar de um poder coletivo, e não individual. para bella, ao se afirmar lgbtcia+ naquele espaço instituição, você produz uma alteração fundamental.
a vereadora se recorda de quando integrantes da bancada conservadora da câmara votaram contra a criação do dia de enfrentamento ao feminicídio em belo horizonte. os vereadores alegavam que o projeto continha a palavra gênero em seu texto e, portanto, se tratava de um projeto de mulheres trans, lésbicas, bissexuais, justificando de forma absurda o voto negativo à sua aprovação.
depois de uma grande exposição do caso nas redes sociais e na imprensa, o projeto acabou voltando à votação, com a retirada de palavras como gênero e machismo de sua apresentação. além disso, a própria bancada conservadora propôs a criação de um dia contra a homofobia na cidade, o que segue em aberto. igor então lembra que não é qualquer corpa lgbtcia+ que nos representa. também vemos uma construção identitária no campo da direita, e por isso precisamos estar tão atentes e fortes.
continuando a falar sobre a experiência da gabinetona, bella gonçalves nos faz refletir sobre essa ser uma experiência de ocupação da política. de transformação das formas de fazer. ao longo dos anos das muitas, elas mapearam outras mandatas pelo brasil afora, em encontros como o mandato de marielle franco e talíria petrone no rio de janeiro, o vereador marquito, em florianópolis, e uma mandata no recife.
nesse movimento de encontros com outras ações de ocupação política pelo país, debateram muito as histórias das construções coletivas nos espaços da política e, de 2016 pra agora, bella percebe que muita coisa se transformou. em belo horizonte há apenas 5 mandatos progressistas, de esquerda, hoje na câmara. e a vereadora afirma que elus buscam dobrar isso nessas eleições, embalades pelo crescimento da candidata à prefeita das muitas, áurea carolina, tecnicamente empatada em 2º lugar nas pesquisas de intenção de voto.
ao contar um pouco mais sobre a campanha das eleições 2020, bella diz que as muitas sempre contaram com a força das ruas. “aglomeração é transformação. aglomeramos pra fazer arte. pra lutar contra a violência de estado. pra fazer uma ocupação de estado. aglomeração é amor e afeto. é política”, se emociona. contudo, num momento em que não é possível se aglomerar, segundo a própria bella, num compromisso com a defesa da vida, as redes sociais são fundamentais, mas também tem seus limites. a candidata diz que sua equipe tem explorado o uso dos algoritmos da internet, e também conseguido se comunicar com as nossas, com as pares de luta, mas também busca produzir outras formas de alcançar os públicos.
utilizando máscara e álcool em gel, a candidata e sua campanha estão realizando alguns encontros em pequenos grupos, com a devida segurança estipulada pela organização mundial da saúde, naquela que bella gonçalves diz ser um ato de plantar a esperança. “nos últimos anos, temos nos mobilizado pelo sentimento do medo que acabou levando o nosso país ao fascismo, mas precisamos ir pra cima, não baixar a cabeça, enfrentar a desesperança”, ela defende.
entre as pautas da campanha, está a luta contra a censura nas escolas, nas artes e na construção de espaços públicos como a corregedoria lgbtcia+ na câmara de bh, que também foi barrada pela bancada fundamentalista. além disso, uma das questões mais centrais da candidatura de bella é a luta por moradia. ela lembra uma conversa com a ativista mineira sissy kelly, em que falavam sobre a importância de moradia pra população lgbtcia+ na cidade e no país.
atualmente, grande parte população em situação de rua são de pessoas lgbtcia+. e bella fala sobre como ter um espaço de segurança é fundamental pra formarmos nossa identidade. além disso, ao tocar o tema do mercado de emprego, é preciso pra ela ampliar as possibilidades de trabalho que são colocadas como as únicas possíveis pra nossa população, entre elas o trabalho ambulante, o telemarketing e a prostituição. outra pauta fundamental em sua candidatura é a retomada da discussão da saúde lgbtcia+. precisamos cuidar das nossas corpas. e além disso, a defesa do direito à cidade. “em um estado punitivista da militarização que sempre vai nos violentar mais, precisamos lutar contra essa violência”, afirma.
bella também faz uma crítica ao posicionamento esquerdista que ainda não tem pensado à diversidade em suas pautas. “quem é a classe trabalhadora? se a gente não compreender que a maioria é diversa, a gente não entendeu nada. as pessoas estão falando em classe trabalhadora e ainda pensando num operário branco, do olho azul, heterossexual, europeu. precisamos discutir antirracismo, diversidade de gênero e sexualidade. se a gente não abraçar essas pautas, não tá abraçando a classe trabalhadora. a gente tá abraçando uma idealização dessa classe, o que ela jamais vai ser num país diverso como o brasil”, enfatiza.
por fim, a vereadora também lembra a experiência do casamentaço, maior cerimônia de casamento coletivo lgbtcia+ realizada em 2017 na cidade. pra bella, que se casou com sua companheira no evento, o casamentaço foi um ato de rebeldia coletivo. “num momento em que as pessoas lgbtcia+ se sentiram ameaçadas, em que pensamos que não teríamos mais nossas relações reconhecidas, nós não queríamos mais voltar pro armário”, diz. ela ainda completa falando sobre o fato de que por mais doloridas que sejam as violências sofridas por nossas corpas LGBTCIA+, precisamos sempre lembrar de que não foram as primeiras e nem foram as últimas, e ainda vamos construir uma outra sociedade.
e foi falando sobre essa “potência da esperança”, que igor leal e bella gonçalves se despediram do público, numa noite muita rica e importante pra pensarmos a nossa política e nossa coletividade. na última quarta, dia 28 de outubro, a quarta cuír teve um papo entre aisha brunno e makota cassia kidoiale, próxima crítica cuír que você vai ler neste site. na semana que vem, às 20h, will soares fala com du pente, na 4ª sessão da quarta kuír politika. chega junte pra mais essa troca!
메타데이터
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