Matilde II
Um cansaço só Matilde, o coração pesado e a perna doída. Não sei que remédio tampouco a causa, mas sei que muito tentei; procurei tudo…
Matilde
Um cansaço só Matilde, o coração pesado e a perna doída. Não sei que remédio tampouco a causa, mas sei que muito tentei; procurei tudo, meditação, budismo, hinduísmo, li até os sutras do Patanjali Sri Swami, ouvi palestras, corri na praia, parei de fumar maconha, comecei a ler mais, me alimentar melhor, bebi, não bebi, transei, não transei, mas o que corrói mesmo não é mais espiritual nem rotineiro não, Matilde, é algo espesso, seboso, grudou no interior da derme e vem deslizando pelas pernas. Se abana e bebe a seco sua vodca nacional sem gelo. Sei bem que muito me dói por motivos financeiros — a voz rouca pigarreada — ver meu pai cada vez se afundando mais em empréstimos, minha irmã sem conseguir trabalhar e outros de minha própria linhagem viajando para o exterior como quem vai do Méier a Pavuna. Sinto-me revoltado, outrora triste, agora emburrecido, chateado. Mais um gole, um trago, um suspiro, uma tosse. Entendo que após meus avós falecerem não me restou muito; dois gatos, uma cama, livros que não li e uma mesa de computador. Virei carregador de malas, vendedor ambulante, músico mal pago, drogado por fim. Traí e fui cobrado, humilhado, escarrado e com consciência de que o merecia.
Matilde sorria sem parar, os olhos minúsculos, o corpo em transe.
Já não me aguento em minhas pernas, Matilde. Lhe confesso que até uma brisa boa me vem agora por lhe declarar meu desgosto. Uma risada doída. A cada passo que dou, me parecem três passos para trás, junto dinheiro e o gasto como quem o tivesse já dobrado, minhas roupas são as mesmas, as bebidas as mesmas, os amigos brigantes, e por fim agora não lhe conto; sinto-me doente por dentro, um enjoo constante, pareço estar perdendo peso, meu tão amado cigarro pós almoço já não me agrada, tampouco uma cerveja ao entardecer, nem meus queridos discos.
Também não sou de todo negativo: tenho saudades da melhora, vejo ainda beleza no nascer do sol, sei sorrir e aproveitar, mas não posso lhe fingir que estou de todo alegre.
Enquanto levantava, o sol terminava de nascer bem a sua frente na larga janela de Matilde. Não lhe procurarei mais, prometo-a. Se me encontrar me avise bem perto do ouvido, quem sabe onde minha mente pode estar nos próximos dias, meses, anos.
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