A vida secreta dos patos
(ou, a vida verdadeiramente secreta das pombas)
A vida secreta dos patos
(ou, a vida verdadeiramente secreta das pombas)
Venham ver! Patos, grandes, pequenos, pretos, brancos. Coloridos! Simpáticos, limpos. Famintos, venham ver. Filhotes de patos. É o espetáculo dos patos, aqui no grande lago desse grande e belo parque!
(…)
(Mas há em tudo isso um outro, silencioso, que não chega a ser observador, porque não chega a pensar, então não chega a ver. Só vê quem pensa. Quem não pensa, olha. Então, digamos, existe esse outro que só vive e olha. Mesmo só olhando, vai sentindo alguma coisa, que sentir é de todos, em qualquer lugar, mas coisa essa que logo já evapora. Enfim, enquanto se desenrola a vida não-tão-secreta dos patos, no palco principal do lago, enquanto isso, ali às margens, onde se aglomeram as crianças e os namorados, e também nos galhos das árvores, nas ruelas do parque, em qualquer lugar da cidade, vivem as pombas. Digamos que vive uma pomba específica, e peguemos ela como um retrato dessa vida verdadeiramente secreta. Essa pomba, digamos, anda às margens do lago, mas as crianças não a vêem, não a reparam, porque ela anda bem tímida, mantém uma distância, quase que um respeito, oferecendo, de certa forma, um ar sagrado à alimentação dos patos que ocorre ali. Seus olhos, pequenos e lustrosos, piscam e olham com reverência a festa humana. As crianças, repito, não a veem. Se ela se aproxima, algum pai ou mãe abana os braços e a bota de volta em seu lugar: distante, aguardando. Então a pomba já sabe, já conhece, vai ensinar aos seus filhos: fique ao canto da margem do lago, espere que alimentem os patos, que cantem para eles, dancem com eles. E quando cansarem-se, e mudarem-se ao outro lado da água, a ver os patinhos de outra cor, apenas nesse momento, alimente-se. Espere e eles irão embora, espere. Aí então, e nessa hora somente, essa nossa pomba cumprirá o seu santo papel de desaparecer com os restos. Irá até lá, e o fará sem olhar para os patos, sem olhar para o céu, sem olhar para as danças. Olhando sempre o redor, pois que seu lugar existe e é seu só enquanto nenhum outro bicho o quiser ocupar. Seu espaço é esse de direito condicional: só lhe pertence se não pertencer a mais ninguém. Só lhe é permitido andar onde todos já cansaram-se de andar. E essa nossa pomba é exemplar. Não atrapalha, não invade, não ocupa. Não recebe carícia, não é alimentada, não é vista. Sua perna direita dói, ninguém se importa, tudo vai bem. Foi assim que aprendeu que seria. Quando olha os patos, com suas vidas de espetáculo, sente em algum lugar, por uma fração de segundo, que não poderia sequer desejar ser como eles, uma vez que é uma pomba, e não um pato. O que é, é. E assim é a vida verdadeiramente secreta das pombas.)
(Ouvi certa vez uma história sobre uma pomba. Não uma pomba hipotética, símbolo de pomba. A história que eu ouvi era sobre uma pomba de fato. Essa era exatamente como as outras, aquelas que acabamos de conhecer através da nossa pomba hipotética, e já contando com quase três anos, mancava da perna esquerda e vivia no estacionamento de uma faculdade. Esbaforida, desviava dos carros que chegavam e a pegavam de surpresa enquanto cochilava no meio-fio, e saciava sua sede no bebedouro do segundo andar do prédio, mas só entre as onze da noite e às nove da manhã, a hora em que ninguém mais o fazia. Sua alimentação consistia de restos, como manda e obedece a espécie, e se os estudantes a consideravam invisível, os guardas do prédio lhe davam dores de cabecinha, digamos assim. Restos, fugas, despacho, tudo ia bem. Ali não haviam patos, então não havia sequer o sentimento ínfimo, milimétrico, de que a vida poderia ser diferente se, por exemplo, por um acaso qualquer, acaso ela fosse, por exemplo, digamos assim, um pato. A vida era isso mesmo que era. Não havia bem ou mal, havia aquilo. Não havia amor. Sua perna esquerda doía, ninguém se importava, tudo ia bem. Quase sempre o que comia lhe caía mal. Vez ou outra alguém passava, balançava os braços, falava alto, e ela voava num espanto. Tudo caminhava certo com o mundo.)
(Aconteceu que um dia, conta-se, esse mesmo mundo aconteceu de lhe cair. Na calçada do estacionamento, um grupo de estudantes conversava e ela, sem pressa, sem ousadia, sem pretensão, sem nada, aguardava por perto. Não pensava, não sabia, mas sentia, como manda e obedece a espécie, que logo eles arrematariam seu intervalo e algum resto de coisa de comer haveria de ter caído no chão. Não pensava, não via, esperava, sua perna doía especialmente naquele dia, tudo ia bem. Esperava quando de súbito aconteceu. Para a moça foi um nada. Um dia qualquer, um intervalo qualquer de compromisso. Nada de novo. Para pomba foi uma tempestade. Se viram. Que a pomba tenha olhado a moça, sabido dela ali, é natural. Que a moça tenha olhado a pomba, por mais que as pombas não tenham modo de saber, também é natural. Mas esse olhar foi diferente: por sete segundos eternos, pela primeira e única vez em sua curta vida, a pomba foi vista. O olhar que veio do alto, trazia acompanhando um sorriso e uma palavra, indecifrável para nossa protagonista, mas que soava como o céu. E tendo sido vista, pela primeira e única vez em sua curta vida, a pomba viu. Tudo virou fim e início. Era o fim do vazio, da espera, da tristeza oca. O início da unidade, da vida, da felicidade funda, que já é quase uma tristeza. Agora que sabia, que alguém a tinha visto, que podia ver, poderia saciar a sede no bebedouro às três da tarde. Cresceu em festa, cresceu em quem era, e quis para sempre. Que tragédia de história. Quando a moça virou as costas e foi-se, todo o universo caiu sobre sua cabecinha, digamos assim. Desesperou-se. Bateu asas, gritou, gritou. Seu coração pesava, e não aguentaria nem mais um minuto sequer de invisibilidade e cegueira. Gemia, voava, corria, queria que alguém a visse, minha perna dói, minha perna dói. Como podia desejar tanto uma coisa que há alguns minutos nem ao menos sabia que existia? Agora que finalmente descobriu quem era, não podia mais ser. Queria desesperadamente ser. Precisava tanto, nunca soube. Você veja que essa história parece mesmo uma grande farsa. Todos sabem que não se conversa com pombas, ou se demora em olhar para elas. Mas o que veio depois, me disseram, foi o seguinte: Naquela hora, em meio ao seu arrebatamento, a pomba, nossa heroína, saiu voando escada acima, atrás da tal moça. Bateu asas em desespero sobre a cabeça dos estudantes que passavam pelo corredor das salas de aula, assustando muito a todos, pois aqui em cima nunca tem pombas, meu deus, e ela ia na direção deles, tocava seus ombros, ocupava seus espaços, coisa que nunca fazem as pombas, como descobrimos através da nossa pomba hipotética. Agora que havia se descoberto sujeito, ela voava cheia do seu recém adquirido direito de estar, de dividir. Não esperaria mais por nada. Se um pato a visse, naquele momento, desejaria ser pomba. Passou por uma das salas e posou de súbito debaixo da porta aberta, ao ver sentada na primeira fileira a portadora do olhar sagrado. Todos os olhares voltaram-se a ela: mas ninguém a viu. Paralisou, segurou a respiração. Logo alguém a espantaria, abanaria os braços e lhe ofereceria um chute, ou algo assim.)
(Depois, não sei bem, pois quem me contou essa história foi um conhecido que é desses de inventar coisa, e quando conta uma vez conta de um jeito, na outra vez conta de outro. Já o ouvi dizendo que, uma tragédia, uma tragédia, espantaram a pomba da sala de aula a gritos, e naquela noite mesmo, corroída e carregada de solidão, sua perna esquerda finalmente a matou. Da ultima vez que o encontrei, porém, ele me disse que não foi bem assim, que havia ouvido de um amigo que na realidade não havia sido bem assim. Que, efetivamente, o que aconteceu foi que a moça saiu da sala, ali na hora mesmo, e foi com a pomba até o estacionamento. Deu-lhe um pedaço do pão que levava na mochila, e derramou no chão um pouco de água. Manteve o tempo todo os olhos nos olhos, e passou a repetir a oferenda quatro vezes por semana, todas as semanas, por quatro anos. Quando a moça já se formava, e não frequentaria mais com tanta frequência o estacionamento, despediram-se com amor e verdade, e a pomba viveu ali mais sete anos, com a serenidade que nenhuma outra de sua espécie conheceu, sendo e estando como era, sem desculpa e sem espera. Durante esse tempo, o mundo todo era seu lago e tudo ia, sinceramente, bem.)
(Claro que não acreditamos nessa história, fantasiosa em todos os aspectos. Há de se ter muito cuidado com as pombas: passam doenças.)
메타데이터
- post_id
- 2d0cbf50fe61
- slug
- a-vida-secreta-dos-patos-2d0cbf50fe61
- url
- https://medium.com/@jadeohanna/a-vida-secreta-dos-patos-2d0cbf50fe61
- canonical_url
- https://medium.com/@jadeohanna/a-vida-secreta-dos-patos-2d0cbf50fe61
- author_url
- https://medium.com/@jadeohanna
- status
- ok
- fetched_at
- 2026-07-28 22:12:07