Em meio às crises com as IAs, crônicas para imaginar futuros
Venho sofrendo muito com as tecnologias ultimamente.
Em meio às crises com as IAs, crônicas para imaginar futuros
Venho sofrendo muito com as tecnologias ultimamente.
Com elas não, com as decisões sobre ela que se sobrepõem a todo tempo com seus milhares de dólares e com as contrapartidas do total descaso e desinteresse com o humano e com o SER (verbo, não substantivo) humano.
E como a literatura é uma de minhas fontes de oxigenação e respiro para que a vida ainda carregue tons vivos, tenho buscado encontrar caminhos para o futuro tecnológico e para esperança por meio dela também.
Nessas buscas e andanças (por feiras) me deparei com esse pequeno livro e “bem, acho que encontrei !” como diria o personagem de Marcelo Tas no “Castelo Ra — tim — Bum” quando o personagem Zequinha fazia uma pergunta muito escalafobética para os amigos e tudo parecia desperançosamente sem respostas e este nos salvava (sorte de nós espectadores) com seu telefone analógico, seu conhecimento humano e já partindo de meios digitais.
Antoine Compagnon surgiu para mim no meio de livros enormes, ultra coloridos e verdadeiras referencias da Editora da UFMG em uma feira de livros universitária. Parei com atenção no estande pois em estudos aleatórios de suas produções em seu site já havia me deparado com muitos assuntos e ideias interessantes que me marcaram de alguma maneira com o clássico “tenho que ler um dia”.
E nessa certeza guardada no bolso invisível da minha camiseta no lado esquerdo do peito, me deixei estar com toda a calma que uma feira dessas permite. E foi aí que acabei por encontrar essa obra dourada (literalmente, o amarelo é o que mais chama a atenção num primeiro momento, ao primeiro olhar).
São 40 crônicas onde o autor narra suas vivencias e reflexões convivendo e aceitando a tecnologia em sua vida sem abandonar a crítica, as discordâncias e recusas.
Dialogando com nomes da Historia da Literatura Francesa e da Linguística além de Baudelaire, referencia principal, sobre a experiência de quem vivenciou um momento semelhante em transformações tecnológicas de altíssimo impacto, o autor me lembrou que na vida e na História, tudo é feito de rupturas e continuidades, mudanças e continuações, revoluções e estruturas, digital e humano (embora tudo atravessado pelas decisões não apenas do capital mas de uma classe mais responsável pelas decisões do que outras, jamais esqueçamos disso).
Ele consegue se encantar com as inovações e transformações — e não se culpabilizar demais com o fato de abandonar o modelo tradicional do jornal e já nos anos de 2010 trocar pelo modelo digital — ao mesmo tempo que mantem as críticas sobre os impactos negativos que elas proporcionam, como o excesso de exposição sobre uma exposição que gera um certo sentimento de enganação no autor.
Mais do que transformações no modo de fazer com seus equipamentos sempre à mão e que em qualquer lugar disponibilizam, o autor intercala com mergulhos um mais emocionais e sensíveis sobre os comportamentos e vivencias que vão se transformando nesse processo. Então o que sente alguém que chega numa exposição de arte mas que foi super hypada pelas redes sociais? Como as tecnologias interferem nos casais e em seus conflitos? O que as tecnologias realmente mudam neles? Ela é causa ou efeito de algo silenciado?
Mais do que apenas a mudança técnica e automatização, estamos preparados emocionalmente e filosoficamente para lidar com as mudanças pelas quais estão nos sendo propostas e impostas? E não em níveis macro, como administração de sistemas de segurança militar, mas em níveis micro, como as expectativas de uma ida a um lugar conhecido inicialmente pela internet ou o fato de ir a uma biblioteca que antes era um evento com historias inesquecíveis e fantásticas tornar — se algo simples, banal e tão sem sal quanto as cores de uma parede de hospital?
O autor faz de si um caminho com uma resposta e um comportamento que me faz iluminar possibilidades de imaginar e sonhar alguns futuros (ao menos em nível de vida social) para além do desesperançoso e oitentista “nós humanos x elas as máquinas”: as mudanças vêm e transformam como fazemos as coisas e como satisfazemos aos nossos desejos e prazeres. Mas PowerPoints não salvarão o mundo. Não tornarão as mensagens mais compreensíveis pois ainda vivemos em guerras. E nem para os soldados ela é efetiva.
A mudança do modo não resolve o problema. E é algo que me angustia no discurso mega empolgado e simplista “a salvação são as máquinas”. Desde sempre que o homem vive em sociedade e cria meios para sobreviver no mundo, o homem cria tecnologia. E desde que esse homem começou a guerrear, ela nunca resolveu nada. Ela apenas deu meios para que os homens das guerras matassem e destruíssem melhor.
A tecnologia não é solução. As pessoas são.
As tecnologias podem ser caminhos para as pessoas que podemos ser. E já somos. O que Antoine Compagnon me chama a atenção é: que pessoa que eu sou hoje, com as tecnologias que gosto e com as que sou obrigado a utilizar? Como me comporto? Quais são os meus comportamentos? E como me sinto diante disso, tantos dos meus próprios quanto dos outros?
Ele não dá resposta a minha pergunta.
ÓTIMO!
É melhor que isso!
A partir de sua própria percepção e da própria história ele enche o leitor de perguntas que antes não existiam e a mesma questão que existe para a tecnologia vale agora para si mesmo: o que vc vai fazer com isso?
메타데이터
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