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Monocultura

O algoritmo planta uma espécie só na sua cabeça. Parar de plantar não faz a terra voltar sozinha.

Felipe Gonçalves · 2026-09-02 01:38 · 0 claps · 4.9 min read
#redes-sociais #algorithms #tecnologia #saúde-mental #nego-bispo
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Monocultura

Você pegou o celular pra ver uma coisa só. Confirmar um horário, responder um áudio, checar se ainda dava tempo de pedir alguma coisa.

Vinte e sete minutos depois você travou a tela. E a coisa que você foi ver continua sem ver.

Ninguém te obrigou. Não teve tranca, não teve propaganda gritando na sua cara. Você deslizou o dedo e cada coisa que apareceu ali fazia um pouquinho de sentido pra você. Esse é o ponto.

a terra escolhida pra você

O Byung-Chul Han diz uma coisa que não sai da minha cabeça: no mundo em que a gente vive, ninguém precisa te vigiar, porque você se cobra sozinho. Você é o patrão e o empregado ao mesmo tempo. Ninguém te prende na tela. A tela te acompanha.

E ela te acompanha assertiva. O feed aprendeu com você. Cada coisa que você parou pra ler, cada vídeo que você viu até o fim, cada perfil que você abriu uma, duas vezes. Tudo isso virou instrução. Com o tempo ele fica ótimo em te mostrar aquilo que você já achava.

Tem uma palavra específica isso: homofilia, que só quer dizer que a gente se junta com quem pensa parecido. Isso sempre existiu. Sua turma da escola, a mesa do bar, a igreja da sua avó. A diferença é que agora tem uma máquina trabalhando em tempo integral pra deixar essa turma cada vez mais parecida com você, e ela é paga por minuto de atenção.

o grupo do zap

Estamos a poucas semanas de uma eleição, se não viveu essa experiência nas eleições anteriores, talvez dessa vez você veja isso na prática sem precisar de estudo nenhum.

Num almoço de domingo e alguém vai dizer, com toda sinceridade do mundo: "eu não conheço ninguém que vota nele". E vai estar falando a verdade. Porque diante do que aquela pessoa vê todo dia, aquele candidato não existe. Ela não está mentindo, ela está descrevendo com precisão o pedaço de mundo que chegou até ela.

Duas pessoas na mesma mesa, comendo da mesma macarronada, e cada uma vivendo num país diferente.

O grupo de whatsapp da família geralmente é esse lugar onde essas realidades se colidem uma vez a cada quatro anos e ninguém sabe mais o que fazer. Por isso você conhece alguém que tem uma história de tio bloqueado, de prima que saiu do grupo, de avós com quem não dá pra falar de certos assuntos. Tô contando isso como fofoca, mas é um tema muito sério que está acontecendo com a gente.

o que os dados dizem (e o que eles não dizem)

Estava lendo um estudo que olhou mais de cem milhões de publicações no Facebook, no Twitter, no Reddit e em outras plataformas pra ver se essa história de bolha se sustenta. Sustenta. As pessoas se agrupam mesmo com quem pensa igual, e a conversa circula quase toda ali dentro.

Só que tem um detalhe que quase fica despercebido: no Reddit isso é muito mais fraco. Mesmo assunto, mesma internet, mesmo ser humano. O que muda é como a plataforma foi construída. Isso importa, porque tira a conversa do "a internet é ruim" e coloca em "alguém desenhou isso assim, e podia ter desenhado diferente" (eu como alguém que desenha plataformas digitais sei bem disso).

E, pra eu não ser exatamente o que estou criticando, também vou trazer a evidência que joga contra mim.

Outro estudo, este com mais de trezentos mil adolescentes tentou medir quanto do bem-estar de uma pessoa dá pra explicar pelo tempo de tela. Bem-estar no sentido de: se anda triste, se anda ansiosa, se está satisfeita com a própria vida. Achou pouquíssimo. De tudo que faz um adolescente se sentir bem ou mal, a tela responde por menos de meio por cento. Os próprios pesquisadores brincaram que comer batata com frequência aparece nas contas com um peso parecido. Existe, dá pra medir, e nenhum pai perde o sono com isso. E teve um experimento maior ainda. Durante meses, bem no meio de uma eleição americana, tiraram a lógica de algoritmo do feed de um monte de gente no Facebook. No lugar dele, as publicações passaram a aparecer na ordem em que foram postadas, ou seja, o que saiu por último vem primeiro, só das pessoas que você já seguia. Ninguém escolhendo nada pra ninguém. As pessoas terminaram o período com as mesmas opiniões que tinham no começo. Ou seja: desligar não resolve.

solo

Aí veio um experimento mais recente, no ex-Twitter, que explicou como essas duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Eles testaram nos dois sentidos. Pegaram quem estava na ordem cronológica e ligaram o algoritmo . As opiniões políticas se deslocaram. Depois pegaram quem estava no algoritmo e desligaram. Nada voltou. As pessoas continuaram seguindo as contas que o algoritmo tinha apresentado pra elas.

O caminho de ida e o caminho de volta não são o mesmo caminho.

Quando pensamos sobre uma lavoura de uma coisa só, temos uma dica. Você planta a mesma espécie na mesma terra por anos e a terra cansa. Aí você para de plantar. E a terra continua cansada. Ela não se recupera porque você parou. Ela se recupera quando alguém replanta outras coisas ali, com paciência, sabendo que vai demorar.

Sair da rede não te devolve. Deletar o aplicativo não te devolve. O que você acha, com quem você fala, o que te dá raiva e o que te dá sono, tudo isso já foi arado. Precisa de replantio.

o que a gente perde quando perde

Tem mais de cem anos que a gente sabe que a coisa que mais protege uma pessoa de querer sumir é estar amarrada a um grupo. Foi o Durkheim quem organizou isso, olhando estatística de suicídio na Europa do século XIX (19). O que mais pesava não era o tamanho do sofrimento. Era o quanto aquela pessoa estava solta.

O Viktor Frankl, que sobreviveu a um campo de concentração, chegou por outro caminho a uma coisa parecida: a pessoa aguenta quase qualquer como quando ela tem um porquê.

Se juntarmos as duas referências você entende o que está em jogo. A monocultura mental não te deixa burro. Ela te deixa sozinho com razão. Você fica cercado de gente que concorda com você e vazio de gente que te segura.

confluência

O Nego Bispo chegou nisso por um caminho que não passa por nenhum laboratório.

Ele falava de terra mesmo, de plantio, de quilombo. E dizia que o colonizador planta monocultura: uma só espécie, tudo igual, tudo controlado, a terra virando insumo. Do outro lado ele colocava a confluência: a ideia das águas que se encontram e seguem juntas sem que nenhuma perca o nome, sua identidade. O rio que recebe o outro rio e continua sendo rio.

Um feed é monocultura. Uma só espécie de pensamento, plantada todo dia, na mesma terra, com adubo de indignação pra manter a produtividade alta.

O que a gente precisa aprender de novo é confluência. Sentar com quem não pensa igual e não sair dali igual nem sair dali dissolvido. Isso não acontece na tela. Acontece na mesa, no portão, na fila, numa reunião, no aniversário de criança onde você não conhece metade das pessoas. E dá trabalho.

Confluência é lenta do jeito que rio é lento.


Você pegou o celular pra ver uma coisa só.

Vinte e sete minutos.

Vai lá e resolve aquilo que você ia resolver. Depois liga pra alguém que saiu do grupo.


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