O Outro Lado
Roslyn e Gayle, amigas desde miúdas, sempre acharam curioso como os seus nomes podiam dobrar-se em identidades alternativas.
O Outro Lado
Roslyn e Gayle, amigas desde miúdas, sempre acharam curioso como os seus nomes podiam dobrar-se em identidades alternativas, Ros e Gay, dois rapazes possíveis, meio inventados, meio escondidos no som das sílabas. Durante anos brincaram com a ideia, mas só mais tarde sentiram que aqueles alter egos podiam ser mais do que uma piada privada. Podiam ser um portal. Um modo de espreitar para um lugar onde nunca tinham sido convidadas: a experiência de ser rapaz, macho, viril, forte e, supostamente, impermeável às lágrimas.
A ideia nasceu numa noite banal. As duas sentadas no sofá, frustradas com mais um debate televisivo onde as vozes femininas eram ignoradas, abafadas ou desmontadas ao mínimo detalhe. “Se falássemos como homens, será que nos ouviam?”, perguntou Gayle, meio a sério, meio jocosa. A pergunta ficou no ar, e Ros não esqueceu, e criaram uma conta no Twitter: o perfil de um homem emocionalmente consciente, atento, igualitário. Inventaram-lhe um passado, um avatar discreto e uma escrita clara, quase pedagógica. Publicavam citações inspiracionais, gráficos e factos que defendiam a igualdade de género. Construíram um homem que consideravam contemporâneo, alguém que poderia existir, mas raramente encontravam.
A resposta foi um choque. Em poucos dias, a conta dividia-se entre insultos diários (“mariquinhas”, “traidor”, “seu merdas”) e mensagens privadas longas, inesperadas. Homens que se abriam de forma quase clandestina, como se aquele desconhecido digital fosse o único porto seguro. Falaram-lhes sobre a pressão de serem sempre fortes, da sensação de falhar quando não aguentavam tudo, da raiva que vinham acumulando desde adolescentes. Um confessou que não soube o que sentir quando nasceu o filho, e que ninguém perguntou. Outro escreveu que já não reconhecia as próprias emoções. Eram relatos crus, sem adornos.
Ros e Gay liam tudo juntas, muitas vezes em silêncio. Sentiam ternura, espanto, medo. Mas principalmente, uma tristeza funda: aperceberam-se que a maioria não queria ouvir, não queria dialogar. Falavam sobre si, mas raramente perguntavam “e elas?”. Nenhum parecia imaginar como se sentia a outra metade do universo. Completamente alheios a esse desconforto constante, a vigilância sobre o corpo, sobre o espaço, sobre cada escolha do dia.
Numa tarde, depois de lerem uma mensagem particularmente dura, Ros deixou cair o telemóvel no sofá, numa raiva miudinha.
Ros: Como é que alguém “vive apenas”? Gay: Bem… começas por ir dormir. Levantas-te quando te apetece. Coças-te. Estrelas alguns ovos. Vês como é que está o dia. Atiras pedras a uma lata. Assobias.

Subtitle, João Louro, 2009
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