Ensaio sobre a mentira
Ensaio sobre a mentira
Senhoras e senhores permitam-me dizer que comecei esse texto pelo título! Raríssimas as vezes em que isso acontece, mas é que a ideia me pareceu tão apropriada que logo imaginei a coisa pronta, com título e tudo e eu tinha que dividir isso!…
Pois é, amigo leitor, esse texto trata desta companheira inseparável das relações humanas desde que o mundo é mundo, homens são homens e mulheres, mulheres: a mentira. Boa, velha, e muitas vezes eficaz. Ou não.
Os acontecimentos de ultimamente têm me levado a muitas reflexões sobre esse hábito que muitos entre nós cultivam com seriedade e assiduidade religiosas. A verdade sobre a mentira é que, em maior ou menor grau, ela faz parte da vida de todos, sem exceção. É como uma necessidade inerente ao organismo social, fisiológica, como as que as pessoas têm de comer, dormir, fazer sexo ou ir ao banheiro de vez em quando.
A mentira, em suas várias formas, é parte fundamental do convívio dos seres humanos entre si. Sem ela, seríamos assolados por crises de intolerância e orgulho ferido trazidas pelo excesso de franqueza e pelo peso nas explicações e considerações, nuas e cruas, a respeito dos fatos do dia a dia.
Até aí está tudo dentro do script social. No entanto, não são esses aspectos fisiológicos, normais até certo ponto, que me levam a refletir.
O que me deixa preocupado é que, em alguns casos, a mentira torna-se necessária além da conta, e vai se habitualizando de tal maneira que se transforma na própria forma de convívio do indivíduo com os outros e consigo mesmo. Aí, a coisa fica como aquela necessidade fisiológica, que deve aparecer de vez em quando, mas torna-se demasiada frequente, causando problemas ao sujeito que precisa então desviar o foco daquilo que realmente importa para dedicar-se à sua satisfação — nesse caso específico, mentir. O quadro fica semelhante a uma desenteria, em âmbito mental, e o mentiroso, já quase ficando compulsivo, não consegue mais levantar do vaso de suas criações, gastando grande parte do seu tempo em criar e tentar manter desesperadamente suas mentiras.
A coisa toda começa inocente. Uma mentirinha branca aqui pra mãe, pra escapar de uma bronca por causa de um brinquedo quebrado, outra mentirinha ali pra namorada pra escapar de um sermão pelo esquecimento do aniversário de namoro, e aí, sem que a pessoa se dê conta, a mentira vai invadindo e dominando outros campos da vida. Logo, é mentira pro chefe pra se safar de problemas no trabalho, ou então é a mentira pro cliente que liga naquela hora mais imprópria pra ter a resposta que ainda não saiu. Vêm mentiras mais graúdas. São os primeiros sintomas da desenteria.
Sem se alertar com o que acontece, o imprevidente mentiroso passa ao estágio fatal: a mentira sistemática, constante, pros amigos e familiares mais próximos, numa sanha irracional por controle das situações da vida (o que, diga-se de passagem, é humanamente impossível). O quadro mais grave, do vício, então forma-se. Mente o mentiroso para a família e os amigos sobre o que é e o que não é importante, sobre o que ocorre e o que não ocorre em sua vida, e por vezes pega-se pensando por quê faz aquilo. Não obtém de si mesmo resposta alguma, mas logo vem um novo espasmo, a cólica, e mais mentira jorra, feroz, abundante, descontrolada e barulhenta, interrompendo-lhe o raciocínio. A mentira atinge todas as situações da vida, das mais importantes às mais triviais. Passa a ser o carro-chefe das palavras e atos do mentiroso. Aos poucos ele mesmo se torna uma grande mentira.
Nesse estágio de total perdição mental, o adicto à inverdade perde o senso de si, já que suas criações agora dirigem-se também à sua própria pessoa. Recria-se o indivíduo sobre o monte fétido de suas mentiras. Pior: torna-se parte dele. Perde sua identidade, não se levanta mais de seu “trono” e, ali, necessita constantemente produzir mais e mais “matéria” para manter-se. A amizade, a família, a consideração pelas pessoas, tudo isso fica em segundo, terceiro plano. É necessário mentir. Não é preciso saber por quê. Somente mentir, mentir, mentir. Manter-se mentindo.
O fim disso, meu amigo leitor, é um gólgota de relacionamentos falsos, vazios. Uma vida de fingimento onde tudo é fake. Felicidade fake, prazer fake, religiosidade fake, amor fake. Nada é real. O mentiroso terciário (que é como eu chamo quem chega a esse estágio crítico do vício) vira a mentira. Ele mesmo é uma grande, feia e fétida mentira. Diferentemente de outros vícios, o caminho do mentiroso, nesse ponto, já não tem mais volta. O crédito se foi. A dignidade e o valor da palavra e dos atos também e nada mais há que se fazer a não ser lamentar a degradação de mais um ser humano que sucumbiu ao vício.
Assim, fica o alerta. Mentir, às vezes, é até bom, e necessário, mas como tudo na vida, reclama comedimento, bom senso, controle. A vida, em si, não pode ser “de mentira”, não pode ser uma encenação o tempo todo.
Não é próprio mentir a um amigo sobre qualquer coisa, principalmente sobre aquilo que afeta a sua vida, seja em questão de sentimentos ou de suas necessidades materiais. Igualmente, não é nada próprio e saudável mentir à família, seja ela de sangue, espiritual, ou de qualquer outra natureza.
Na sociedade atual a mentira tem seu lugar e sua utilidade, mas nas relações realmente importantes e profundas (alicerces na nossa passagem por esse planeta), a regra de ouro é sempre a verdade!…
메타데이터
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