Confissão: mais uma para coleção de despedidas
Confissão: mais uma para coleção de despedidas

confesso que não estava preparada para o que viria após o fim acho que nada nos prepara para apagar alguém da mente instantaneamente quando ela é apagada do campo de visão mas não imaginei que você realmente sumiria de vista zero notícias, sequer um sinal. não houve mensagens, nem recaídas fomos de uma desafinada pauta musical para o som que se propaga no espaço sideral
nos primeiros dias eu só queria sentir a tua ausência e me agarrar a ela, era o que restara de você coração nem batia, apanhava enquanto meu orgulho me protegia que nem bicho quase martirizei teu signo, atribuindo ao metafísico tua falta de tato ouvi mais mpb do que gostaria e até comecei um livro
fiz de você um personagem malvado, que no fundo também estava machucado mas como eu poderia cuidar de um coração se mal sabia cuidar do meu? pra piorar, como cuida de um coração que parece não querer se curar?
apaguei seu telefone, fingi que esqueci como soa teu nome na verdade durante tanto tempo ele não saiu da minha boca que realmente posso ter esquecido resisti no início, mas logo te guardei em memórias seletas e blindadas e enterradas no solo mais profundo do meu inconsciente
e como nada foge dos braços do tempo, com o passar das semanas fazia mais sentido te deixar livre de mim naquela tarde de um domingo qualquer, sem olhar para trás acreditando que não me faria tão mal, pelo contrário. repeti pra mim até acreditar que te afastar da lembrança privilegiada, a princípio, por mais dolorosa que fosse me libertaria de te culpar com rancor e mágoa
escrevi e chorei e questionei a mim, aos outros, aos céus, aos astros o que fiz de tão errado pra você? então, juro de pé junto, que quase ouvi esse e outros planos me respondendo em coro como quem vê ambos lados de nossa moeda e todas as vertentes da história com uma clareza que cega: nenhuma relação é a mesma para as duas pessoas envolvidas
viver efemeridades numa cidade descortinada te leva a picos em períodos curtos e quase injustos de tempo e esse é o gosto agridoce da experiência
nem por isso, despedidas se tornam fáceis Vinicius de Morais não mentiu quando disse
bem melhor seria poder viver em paz. sem ter que sofrer, sem ter que chorar. sem ter que querer, sem ter que se dar. mas tem que sofrer, mas tem que chorar. mas tem que querer pra poder amar
posso nunca estar preparada, mas hei de tentar me acostumar com os fins, pois nada pior que viver em paz se for assim.
메타데이터
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