O movimento da Rede Elas
O presente trabalho analisa uma Rede de enfrentamento à violência contra a mulher a partir da ideia de movimentos sociais como ações…
O movimento da Rede Elas
O presente trabalho analisa uma Rede de enfrentamento à violência contra a mulher a partir da ideia de movimentos sociais como ações coletivas e organizadas, apesar da Rede aqui estudada não se autodenominar Movimento Social, sua organização e repertório de atuação podem contribuir com a principal motivação dos Novos Movimentos Sociais: superar as desigualdades sociais atuais, herdadas sobretudo pelas relações de trabalho capitalista pós industrialização por meio da democratização dos espaços (ALONSO, 2009).
Inicialmente, a pesquisa foi desenvolvida através do acompanhamento dos encontros mensais do grupo e de entrevistas com integrantes da Rede, por meio de perguntas previamente selecionadas, tendo em vista a formação de cada entrevistada. Houve a preferência de escolher apenas mulheres para serem entrevistadas com o intuito de compreender as práticas da Rede voltadas para o acolhimento feminino, a partir da visão de representantes do público alvo (DUARTE, 2004).
A Rede Elas, se define como uma Rede de acolhimento à mulher vítima de violência e como um espaço coletivo de aperfeiçoamento e formulação de políticas públicas. Composta por atores de diferentes grupos sociais, servidores (as) públicos que operam nas políticas públicas presentes no fluxo de atendimento à violência contra a mulher, pesquisadores interessados no tema e sociedade civil ou comunidade como as entrevistadas optaram por chamar, a Rede se organiza com as seguintes estratégias: reuniões mensais abertas aos interessados na temática, cursos de capacitação periódicos, presença em protesto do movimento de mulheres, palestras em escolas e formação de grupos de estudos da temática, entre outras ações que costumam ser definidas entre os integrantes de acordo com o interesse de alcance da Rede.
O espaço de diálogo foi inicialmente construído após o reconhecimento das participantes de que havia uma expressiva precarização dos serviços públicos de atendimento e isso refletia no acolhimento às mulheres vítimas de violência em meio aos casos que estavam aumentando na região, além disso, os índices de desconhecimento das instituições de atendimento por parte das vítimas ainda eram altos . Frente a isso, a Rede é composta majoritariamente por profissionais que atuam no atendimento a violência contra mulher, essa prioridade surgiu após verificar que a comunicação entre as políticas públicas estava fragilizadas, e por ser estes os atores responsáveis por fazer a política acontecer, urgia organizar um grupo de atuação focado na relação entre esses profissionais, surge assim, o primeiro conflito a ser resolvido pelo movimento. Os servidores públicos que fazem as políticas acontecerem são intitulados na Ciência Política por burocratas de nível de rua, cabe a eles colocar o desenho da política em prática, após ela ter sido formulada e promulgada por lei, eles selecionam o público beneficiário das políticas ao mesmo tempo em que prestam contas ao Estado (Lipsky, 1980). Identificadas as falhas no atendimento, a Rede optou por inicialmente recrutar esse perfil de indivíduos para compor sua organização.
Ao mesmo tempo, o enquadramento da Rede é a garantia dos direitos das mulheres vítimas de violência, o que leva a pensar em ações que as enxergue como sujeitos integral que precisam de espaços de acolhimento e escuta, e para além disso, um lugar onde possam reivindicar novas possibilidades de erradicação da violência de gênero, junto aos servidores públicos que estão unidos para romper com práticas negligentes na sua área de atuação, com vista a humanização no atendimento.
É com esse panorama de identificação de como a Rede se organiza, quem são os indivíduos que a integram e quais ações são mobilizadas pelo grupo que pode-se inferir a partir da teoria dos Novos Movimentos Sociais de Melucci (1988) que a Rede Elas é uma rede de relacionamentos, tendo em vista, o enfoque da Rede em romper com discursos errôneos e propor a emancipação social do sujeito mulher. Chamados de mitos da violência contra a mulher pela literatura da área, os discursos que buscam esvaziar a rede de proteção à mulher culpabilizando a vítima e revitimizando-as no atendimento seguem sendo empecilhos para erradicação da violência de gênero, exemplo disso é o argumento de que a mulher vítima de violência motiva a agressão, conhecido como crime passional, esse discurso ganhou espaço no judiciário brasileiro na década de 80 e até hoje é mobilizado para restringir o direito de justiça das mulheres.
Nas conversas com as participantes, a revolta com o quadro atual de violência contra as mulheres que tem aumentado no país incluindo a região de atuação da Rede, o descaso social com as mulheres e a impotência de realizar mudanças a partir de um esforço individual é o que desperta nas pessoas que participam da Rede interesse para continuar produzindo ações que visam a efetivação dos direitos para as mulheres inseridas em um sistema coletivo, que pode até mudar sua composição, mas continuará preservando a busca por identidade do grupo, a partir da interação interna entre os agentes, que inclusive pode surgir da união entre a escolha racional em participar de ações vinculados a uma causa unida ao afeto emocional que contribui com a aceitação do do indivíduo em fazer parte de um grupo (ALONSO apud. MELUCCI, 2009).
No estudo de caso a junção de razão e emoção na construção de identidade ficou evidente na leitura do perfil das pessoas entrevistadas e na referência de seus depoimentos. As participantes que trabalham com mulheres vítimas de violência se unem na Rede buscando aprimoramento na resolução dos casos acompanhados por elas, mas também se identificam emocionalmente com as mulheres atendidas, inclusive, fazem um esforço individual de se colocar no lugar das vítimas e temer serem um dia vitimadas também. Um segundo perfil é o das mulheres que se uniram a Rede após serem vítimas de violência ou terem casos de violência doméstica na família que as afetaram, levando- as a procurar ajuda e tendo como referência de combate a Rede Elas, nesse caso, pode acontecer desse perfil de mulheres ter chegado a esse grupo coletivo motivadas a encontrar suporte, e após um tempo se reconhecer como parte integrante daquele grupo, dispostas a engajarem nas ações.
A Rede Elas organiza e divide suas ações em eixos, que podem são desde a divulgação nas redes sociais, em eventos, nas instituições locais, na família ou entre os amigos até um eixo dedicado a estudos de caso de mulheres vítima de violência, nesse caso, o objetivo é tomar ações de intervenção, é importante pontuar que esses eixos podem ser negociados, são mutáveis a depender dos retornos das ações da Rede e do contexto a ser empregado. Assim como a criação do fluxo de atendimento à mulher vítima de violência pode ser ampliado, dependendo das mudanças institucionais das políticas públicas do país, mas que independe de um conformismo com o que é dado pelo status atual da mulher na sociedade, a existência da Rede é orientada para combater os preconceitos que norteiam a vida da mulher em sociedade. A pauta da saúde mental levantada durante as entrevistas como uma questão social importante para obtenção da autonomia da mulher que não pode ser alcançada apenas com instituições pública que ofertam tratamento psicológico, mas parte da conscientização de que devemos eliminar o adoecimento por meio de uma coletividade disposta a se ajudar e não apenas tratar sintomas que é o que as garantias do Estado buscam fazer, esse discernimento torna claro o compromisso da Rede em movimentar-se para ultrapassar as barreiras impostas pela exploração do trabalho que afeta principalmente as minorias sociais, incluindo as mulheres.
A partir da apresentação da Rede Elas, a pesquisa buscou fazer uma conexão entre o papel de uma Rede de acolhimento analisada de acordo com as características das teorias dos Novos Movimentos Sociais, mesmo não se autodeterminando um Movimento Social a Rede Elas apresenta um compromisso com a emancipação das mulheres na sociedade, pelo fim da violência contra a mulher, movimentando-se em um agrupamento de pessoas que reivindicam por meio de suas ações o Bem Viver da mulher em um construto de nova sociedade, que no caso específico da Rede Elas demanda entre outras especificidades a reestruturação psíquica dos indivíduos, como o movimento negro demanda a abolição da escravidão e o movimento ambientalista a purificação do ar, sendo todas essas buscas por inovações sociais que estão sendo pautadas em um constante confronto.

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