#02BASTIDORES | Memória em composições
O olhar arquitetado de Luis Chamizo
#02BASTIDORES | Memória em composições
O olhar arquitetado de Luis Chamizo
As composições sutis e os traços do concreto são elementos recorrentes na pesquisa visual de Luis Carlos Chamizo. Sua criação se estrutura a partir do encontro entre fotografia e memória, que se apresentam como ponto inaugural de sua trajetória artística.
É a partir dessa perspectiva que este eixo curatorial se desenha. Emergindo dos bastidores, ele propõe uma escuta atenta à produção de Chamizo. Sua caminhada, marcada pelo encontro entre a identidade brasiliense e a formação em Turismo, confere à sua lente uma leitura sensível e profunda sobre Brasília e suas camadas de memória.

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista
RECORTES DA LEMBRANÇA
A Cidade como Exposição
Muitas das ideias, emoções e desejos que costumamos considerar íntimos e individuais são, na verdade, atravessados por experiências coletivas. A memória, nesse sentido, não é apenas lembrança, é construção cultural. Seja material ou imaterial, ela se torna relevante para o território porque carrega os vestígios das experiências que ali se criam.
Essa dimensão compartilhada da memória se manifesta na produção de Chamizo como um campo fértil de expressão, onde o gesto de selecionar e enquadrar revela não apenas uma escolha estética, mas também um processo de identificação coletiva.
O modelo arquitetônico em sua totalidade já se apresenta como previsível, mas é no recorte, no fragmento escolhido, que se revela a potência da contemplação e da memória.
Ao extrair partes do todo, o artista convoca o olhar para o detalhe, para o gesto mínimo que carrega o afeto. Os brasilienses se reconhecem nesses fragmentos de concreto familiar: ao levar para suas paredes um pedaço da cidade, ativam o que se pode chamar de um recorte da lembrança, uma memória territorial condensada em exposição.

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista
É nesse campo expandido da memória que se projeta a fotografia de Chamizo. Sua obra revela camadas de tempo que atravessam o espaço urbano, convertendo a cidade em exposição. Em sua prática, o território não é apenas físico mas campo representativo, lugar de reinvenção.
Ao fotografar desde edifícios tombados até blocos residenciais comuns, sua lente não busca o monumental como ícone consagrado, mas como superfície de memória, lugar onde o afeto se deposita, silenciosamente, nas formas que resistem ao tempo.
“Para além das definições oficiais de patrimônio arquitetônico, para mim o interessante é aquilo que está atrelado a ele. O tombamento é importante para a perpetuação arquitetônica e cultural, mas procuro lembrar que há vida atrelada aos espaços”
É nesse horizonte expandido onde o patrimônio se desmaterializa e a memória se torna gesto. Sua fotografia opera como linguagem que desestabiliza o evidente, abrindo zonas de indeterminação na paisagem e convocando o olhar a habitar o intervalo entre forma e afeto.
A VOZ DO CONCRETO
A Abstração como Linguagem
Ao se afastar da fotografia documental, Chamizo adentra uma linguagem visual que opera por sugestão ao abstrato. Seus enquadramentos não contam histórias lineares. A figura humana, ausente, não faz falta, sua retirada é estratégia para que o espaço fale por si.

Acervo Digital do Artista
“Trabalhar com a figura humana, para mim, é limitador. Esse é um dos motivos para o meu trabalho não envolver retratos, por exemplo, que exigem um apelo maior à realidade.”
Sua estética é moldada pela arquitetura de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, mas também incorpora influências de João Filgueiras Lima (Lelé), Marianne Peretti, Roberto Burle Marx e Athos Bulcão.
Entre o todo e seu fragmento, a obra se constrói na consciência do tempo presente. É na incompletude do concreto que reside sua voz: o efêmero se manifesta como campo aberto de significados, onde a imagem propõe e dissolve possibilidades de figuração. Ao espectador, cabe o gesto final, dar continuidade à imaginação e habitar os vazios com seus próprios sentidos.
“Minhas obras carregam vários significados com elas. Além da contemplação estética, há sempre reflexões que a vivência do observador pode contribuir. Com isso, acredito que a fotografia não finaliza em mim. Pelo contrário, é o início de uma longa caminhada sem final aparente”
JOGO DE MEMÓRIA
O território brasiliense como identidade
Fragmentos do Museu Nacional, agrupados a vitrais de edifícios institucionais e o céu da capital, compõem uma obra de memória que se instala na intimidade da sala de estar. Nesse gesto, o espaço doméstico se transforma em território simbólico, onde o público e o privado se entrelaçam, e a cidade é reconfigurada como um jogo de memória.

Acervo Digital do Artista
“O Cerrado e Brasília pulsam em cores, então sempre procuro realçá-las. A cor branca dos monumentos da cidade absorve, quase que poeticamente, os vários tons do sol ao longo dos dias e estações.”
Seu processo criativo é guiado pela experimentação. A busca por ângulos não usuais e locais menos explorados revela uma atenção ao detalhe e à reinvenção do espaço. Mesmo diante de monumentos amplamente fotografados, como o congresso de Brasília, o artista retorna com o propósito de encontrar o que ainda não foi visto, o que ainda não foi sentido.

.Equilíbrio. — Acervo Digital do Artista
“Por ser brasiliense, muito da cultura arquitetônica da cidade me atravessa. A ideia primordial da monumentalidade de Brasília, como algo comum, sempre me desperta algo novo. O que me atrai são as curvas desafiadoras e as formas incomuns, que abrem espaço para as minhas composições.”

.As justiças. Acervo Digital do Artista
ARQUITETURA DO OLHAR
A memória como ensaio
A harmonia entre formas, movimentos e cores acompanha o percurso da construção da memória. As paisagens urbanas, atravessadas por elementos simbólicos e afetivos, tornam-se gradualmente recortes de um olhar arquitetado. Chamizo busca no concreto a expressão do acaso, aquilo que escapa à previsibilidade das formas e se revela como gesto. A materialidade dos espaços, suas tensões e sutilezas, constitui um eixo de pesquisa presente desde os primeiros momentos de sua produção artística.
“Comecei a fotografar ainda criança, com a popularização das câmeras digitais. Eu fotografava tudo que eu via e sempre tive um encantamento maior pela arquitetura. Após dominar as técnicas básicas e funções da câmera, fui amadurecendo meus registros e percebendo o que de fato eu gostava de fotografar”

Acervo Digital do Artista
A fotografia emerge como gesto intuitivo, menos técnico e mais experiencial. A composição nasce da relação entre luz, forma e memória, ora com nitidez, ora com sutileza, criando jogos de profundidade e textura que convidam o espectador a completar a imagem com suas próprias lembranças.

.Apóstolo. — Acervo Digital do Artista
“Sinto pertencimento. Me sinto conectado a uma cidade cheia de possibilidades e sonhos. A fotografia, para além do registro, depende da emoção de quem a observa. Um registro de um ipê amarelo pode ser para alguém a memória da rua em que morava, do quintal da avó ou do primeiro encontro no parque”

Acervo Digital do Artista
Voltamo-nos, então, sobre as harmonias que compõem essa paleta de concreto a céu aberto. Talvez seja esse o aspecto menos usual para o espectador, acostumado à clareza e ao óbvio da cidade.

.Paralelo. — Acervo Digital do Artista
Chamizo habita o campo do abstrato, sem perder a essência de Brasília uma capital cercada não apenas por concreto, mas atravessada pelo céu e pelas cores de projetos arquitetônicos que moldaram sua história.
Ao habitar Brasília com a lente, Chamizo nos convida a reimaginar o espaço urbano como lugar de afeto, memória e criação. Sua fotografia é um convite à presença da cidade não apenas com os olhos, mas com a memória.
Por Ylana Cartari.
메타데이터
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