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#02BASTIDORES | Memória em composições

O olhar arquitetado de Luis Chamizo

Ylana Cartari · 2025-10-28 17:24 · 0 claps · 5.7 min read
#curator #memória #território #patrimônio #cidades
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#02BASTIDORES | Memória em composições

O olhar arquitetado de Luis Chamizo

As composições sutis e os traços do concreto são elementos recorrentes na pesquisa visual de Luis Carlos Chamizo. Sua criação se estrutura a partir do encontro entre fotografia e memória, que se apresentam como ponto inaugural de sua trajetória artística.

É a partir dessa perspectiva que este eixo curatorial se desenha. Emergindo dos bastidores, ele propõe uma escuta atenta à produção de Chamizo. Sua caminhada, marcada pelo encontro entre a identidade brasiliense e a formação em Turismo, confere à sua lente uma leitura sensível e profunda sobre Brasília e suas camadas de memória.

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista

RECORTES DA LEMBRANÇA

A Cidade como Exposição

Muitas das ideias, emoções e desejos que costumamos considerar íntimos e individuais são, na verdade, atravessados por experiências coletivas. A memória, nesse sentido, não é apenas lembrança, é construção cultural. Seja material ou imaterial, ela se torna relevante para o território porque carrega os vestígios das experiências que ali se criam.

Essa dimensão compartilhada da memória se manifesta na produção de Chamizo como um campo fértil de expressão, onde o gesto de selecionar e enquadrar revela não apenas uma escolha estética, mas também um processo de identificação coletiva.

O modelo arquitetônico em sua totalidade já se apresenta como previsível, mas é no recorte, no fragmento escolhido, que se revela a potência da contemplação e da memória.

Ao extrair partes do todo, o artista convoca o olhar para o detalhe, para o gesto mínimo que carrega o afeto. Os brasilienses se reconhecem nesses fragmentos de concreto familiar: ao levar para suas paredes um pedaço da cidade, ativam o que se pode chamar de um recorte da lembrança, uma memória territorial condensada em exposição.

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista

.Cobogó. — Acervo Digital do Artista

É nesse campo expandido da memória que se projeta a fotografia de Chamizo. Sua obra revela camadas de tempo que atravessam o espaço urbano, convertendo a cidade em exposição. Em sua prática, o território não é apenas físico mas campo representativo, lugar de reinvenção.

Ao fotografar desde edifícios tombados até blocos residenciais comuns, sua lente não busca o monumental como ícone consagrado, mas como superfície de memória, lugar onde o afeto se deposita, silenciosamente, nas formas que resistem ao tempo.

“Para além das definições oficiais de patrimônio arquitetônico, para mim o interessante é aquilo que está atrelado a ele. O tombamento é importante para a perpetuação arquitetônica e cultural, mas procuro lembrar que há vida atrelada aos espaços”

É nesse horizonte expandido onde o patrimônio se desmaterializa e a memória se torna gesto. Sua fotografia opera como linguagem que desestabiliza o evidente, abrindo zonas de indeterminação na paisagem e convocando o olhar a habitar o intervalo entre forma e afeto.

A VOZ DO CONCRETO

A Abstração como Linguagem

Ao se afastar da fotografia documental, Chamizo adentra uma linguagem visual que opera por sugestão ao abstrato. Seus enquadramentos não contam histórias lineares. A figura humana, ausente, não faz falta, sua retirada é estratégia para que o espaço fale por si.

Acervo Digital do Artista

Acervo Digital do Artista

“Trabalhar com a figura humana, para mim, é limitador. Esse é um dos motivos para o meu trabalho não envolver retratos, por exemplo, que exigem um apelo maior à realidade.”

Sua estética é moldada pela arquitetura de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, mas também incorpora influências de João Filgueiras Lima (Lelé), Marianne Peretti, Roberto Burle Marx e Athos Bulcão.

Entre o todo e seu fragmento, a obra se constrói na consciência do tempo presente. É na incompletude do concreto que reside sua voz: o efêmero se manifesta como campo aberto de significados, onde a imagem propõe e dissolve possibilidades de figuração. Ao espectador, cabe o gesto final, dar continuidade à imaginação e habitar os vazios com seus próprios sentidos.

“Minhas obras carregam vários significados com elas. Além da contemplação estética, há sempre reflexões que a vivência do observador pode contribuir. Com isso, acredito que a fotografia não finaliza em mim. Pelo contrário, é o início de uma longa caminhada sem final aparente”

JOGO DE MEMÓRIA

O território brasiliense como identidade

Fragmentos do Museu Nacional, agrupados a vitrais de edifícios institucionais e o céu da capital, compõem uma obra de memória que se instala na intimidade da sala de estar. Nesse gesto, o espaço doméstico se transforma em território simbólico, onde o público e o privado se entrelaçam, e a cidade é reconfigurada como um jogo de memória.

Acervo Digital do Artista

Acervo Digital do Artista

“O Cerrado e Brasília pulsam em cores, então sempre procuro realçá-las. A cor branca dos monumentos da cidade absorve, quase que poeticamente, os vários tons do sol ao longo dos dias e estações.”

Seu processo criativo é guiado pela experimentação. A busca por ângulos não usuais e locais menos explorados revela uma atenção ao detalhe e à reinvenção do espaço. Mesmo diante de monumentos amplamente fotografados, como o congresso de Brasília, o artista retorna com o propósito de encontrar o que ainda não foi visto, o que ainda não foi sentido.

.Equilíbrio. — Acervo Digital do Artista

.Equilíbrio. — Acervo Digital do Artista

“Por ser brasiliense, muito da cultura arquitetônica da cidade me atravessa. A ideia primordial da monumentalidade de Brasília, como algo comum, sempre me desperta algo novo. O que me atrai são as curvas desafiadoras e as formas incomuns, que abrem espaço para as minhas composições.”

.As justiças. Acervo Digital do Artista

.As justiças. Acervo Digital do Artista

ARQUITETURA DO OLHAR

A memória como ensaio

A harmonia entre formas, movimentos e cores acompanha o percurso da construção da memória. As paisagens urbanas, atravessadas por elementos simbólicos e afetivos, tornam-se gradualmente recortes de um olhar arquitetado. Chamizo busca no concreto a expressão do acaso, aquilo que escapa à previsibilidade das formas e se revela como gesto. A materialidade dos espaços, suas tensões e sutilezas, constitui um eixo de pesquisa presente desde os primeiros momentos de sua produção artística.

“Comecei a fotografar ainda criança, com a popularização das câmeras digitais. Eu fotografava tudo que eu via e sempre tive um encantamento maior pela arquitetura. Após dominar as técnicas básicas e funções da câmera, fui amadurecendo meus registros e percebendo o que de fato eu gostava de fotografar”

Acervo Digital do Artista

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A fotografia emerge como gesto intuitivo, menos técnico e mais experiencial. A composição nasce da relação entre luz, forma e memória, ora com nitidez, ora com sutileza, criando jogos de profundidade e textura que convidam o espectador a completar a imagem com suas próprias lembranças.

.Apóstolo. — Acervo Digital do Artista

.Apóstolo. — Acervo Digital do Artista

“Sinto pertencimento. Me sinto conectado a uma cidade cheia de possibilidades e sonhos. A fotografia, para além do registro, depende da emoção de quem a observa. Um registro de um ipê amarelo pode ser para alguém a memória da rua em que morava, do quintal da avó ou do primeiro encontro no parque”

Acervo Digital do Artista

Acervo Digital do Artista

Voltamo-nos, então, sobre as harmonias que compõem essa paleta de concreto a céu aberto. Talvez seja esse o aspecto menos usual para o espectador, acostumado à clareza e ao óbvio da cidade.

.Paralelo. — Acervo Digital do Artista

.Paralelo. — Acervo Digital do Artista

Chamizo habita o campo do abstrato, sem perder a essência de Brasília uma capital cercada não apenas por concreto, mas atravessada pelo céu e pelas cores de projetos arquitetônicos que moldaram sua história.

Ao habitar Brasília com a lente, Chamizo nos convida a reimaginar o espaço urbano como lugar de afeto, memória e criação. Sua fotografia é um convite à presença da cidade não apenas com os olhos, mas com a memória.

Por Ylana Cartari.

*Cura News*


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