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Rock nacional dos anos 70 — Parte IV

Por Marcelo Magosso

Rock Show · 2026-05-27 23:07 · 7 claps · 8.0 min read
#rockshowbr #rock-nacional #música-brasileira #anos-70
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Rock nacional dos anos 70 — Parte IV

Por Marcelo Magosso

O ano de 1973 foi especialmente marcante na década. O Brasil vivia uma situação de intensos contrastes. O “milagre econômico” atingia seu ápice e, por outro lado, o recrudescimento da repressão imposta pelo regime militar tingia com sangue as páginas da história do país. Para a música, foi um ano especial, em que alguns artistas de grande importância deixaram uma marca indelével no cenário cultural nacional.

Secos & Molhados — Secos & Molhados

Imagem: https://www.discogs.com/

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Tentar sintetizar em alguns parágrafos tudo que representa o primeiro lançamento do grupo Secos & Molhados é impossível. A formação original com Ney Matogrosso, Gerson Conrad e João Ricardo teve um impacto tão grande na cultura brasileira que transcendeu a música.

Gravada em apenas quinze dias, entre os meses de maio e junho de 1973, a obra é uma das mais importantes da MPB e foi disruptiva em diversos aspectos. A começar por Ney Matogrosso, cuja voz alcança, até os dias de hoje, registros impensáveis para a maioria dos vocalistas. Além disso, a performance teatral, que incluía maquiagens e figurino insinuantes em plena época da ditadura, não passou em branco. Em uma era pré-MTV, a estreia do grupo na primeira edição do programa Fantástico da Rede Globo causou um interesse gigantesco pelo conjunto.

O forte trabalho de composição e as performances ao vivo, aliados ao apelo visual, foram inteligentemente otimizados pelo trabalho do empresário Moracy do Val, contribuindo para que o Secos & Molhados obtivesse um sucesso estrondoso e meteórico. Eles chegaram a vender 300 mil cópias do disco em um único mês.

Além do já mencionado trio, contribuíram com o trabalho um time de peso, com destaque para o excelente baixista Willy Verdaguer, cuja linha melódica em Sangue Latino é uma das mais clássicas na música brasileira.

Os belos arranjos, com ênfase em temas guiados por violões, letras poéticas e cativantes, fazem com que essa obra siga até os dias atuais como referência de bom gosto na arte de fazer música.

Destaques: Sangue Latino, O Patrão Nosso de Cada Dia e Rosa de Hiroshima.

Som Nosso de Cada Dia — Snegs

Imagem: https://www.discogs.com/

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O rock progressivo praticado pelo Som Nosso de Cada Dia chamava a atenção por seu formato de trio, sem a presença de um guitarrista propriamente dito.

A formação original contava com Pedrão (Pedro Baldanza) no baixo e vocal, Pedrinho Batera na bateria e o multi-instrumentista Manito (ex-Incríveis) no órgão, flauta e sintetizador.

O Som Nosso de Cada Dia criou em Snegs um amálgama de peso, virtuosismo e letras viajantes. Eles se diferenciavam das bandas da época principalmente pelos momentos mais hard em seu som. À exceção de Snegs de Biufrais e Direccion de Aquarius, tudo aqui é denso e carregado de uma veia visceral.

Fica difícil apontar um destaque individual, já que tudo é magistralmente executado, mas chama a atenção o “debulho” de Manito nos sintetizadores e os grooves cheios de punch da cozinha “dos Pedros”. Vale mencionar a produção cristalina de Peninha Schmidt.

Destaques: Sinal da Paranoia, Snegs de Buifrais e Massavilha.

Som Imaginário — Matança do Porco

Imagem: https://www.discogs.com/

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Matança do Porco é o terceiro trabalho do Som Imaginário e pode ser considerado o magnum opus de sua discografia. Assim como em seus dois discos anteriores, o grupo segue explorando novos rumos, aqui flertando intensamente com o jazz rock. Músicas como A3 e Mar Distante são grandes exemplos da nova orientação musical.

Wagner Tiso assume de vez o papel de protagonista, assinando sozinho a composição de sete das nove faixas da obra e também brilhando como instrumentista.

Ainda que seja um disco um pouco difícil para o público mais purista do rock, Matança do Porco é um trabalho requintado, com performances marcantes.

Infelizmente, Matança do Porco é o último registro de estúdio do grupo, que permaneceria em atividade até 1976. Depois disso, demorariam mais de quarenta anos para que ocorresse a reunião da formação clássica.

O Terço — Terço

Imagem: https://www.discogs.com/

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Três anos e a perda do acento circunflexo separam os dois lançamentos iniciais do Terço. E não foi só isso. Jorge Amiden saiu e, em seu lugar, chegou Cesar de Mercês para assumir o baixo, fazendo Sérgio Hinds migrar para a guitarra. Na bateria continua Vinicius Cantuária.

Todas essas mudanças refletiram-se diretamente na sonoridade do grupo. Se antes as músicas do Terço tinham foco no acústico, com muita influência de folk e músicas regionais brasileiras, agora o peso das guitarras tomou conta de tudo de forma marcante. Aliás, a mudança de instrumento revelou ao mundo um dos maiores guitarristas brasileiros.

O novo direcionamento já dá as caras na abertura com a pesadíssima Deus e segue por todo o trabalho, com exceção de Estrada Vazia, uma bela faixa acústica. O disco marca, ainda, o primeiro movimento mais forte rumo ao rock progressivo que caracterizaria o grupo no futuro com a longa Amanhecer Total, de mais de dezessete minutos.

Mais mudanças viriam e seu álbum seguinte se tornaria a obra-prima da carreira do Terço, mas seu segundo LP é uma parte fundamental da história da banda.

Raul Seixas — Krig-ha, Bandolo!

Imagem: https://www.discogs.com/

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Finalmente Raulzito lança um álbum solo!

Depois de investidas arrojadas como Raulzito e Seus Panteras e o Sessão das 10, Raul Seixas inicia efetivamente sua carreira solo e dá os primeiros passos para se tornar o maior nome da história do rock brasileiro.

O título, Krig-ha, Bandolo!, foi tirado de um quadrinho do Tarzan e mostra, de cara, a honestidade selvagem e visceral contida nessa obra.

O repertório é digno de uma coletânea: Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante, Ouro de Tolo, entre outras. O álbum impressiona pela qualidade e pelas misturas improváveis de rock com atabaques, ritmos regionais e letras, ora esotéricas, ora bem-humoradas.

Começava aqui, também, a famosa parceria com o escritor Paulo Coelho, que renderia uma quantidade gigantesca de hits ao longo dos anos.

Destaques: Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante e Ouro de Tolo.

A Bolha — Um Passo à Frente

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Surgido no final dos anos 1960 no Rio de Janeiro com o nome The Bubbles, o grupo começou a carreira tocando em bailes e, posteriormente, foi banda de apoio de artistas como Raul Seixas e Gal Costa.

O som da Bolha transitava entre o progressivo, a psicodelia e o rock clássico, com alguns momentos mais hard rock, como na faixa Sem Nada.

A formação da banda à época desse lançamento contava com: Renato Fronzi Ladeira (guitarra, teclados e vocais), Pedro Lima (guitarra), Arnaldo Brandão (baixo) e Gustavo Shroeter (bateria).

Ao longo dos anos, diversos músicos passaram pelo grupo, sendo que vários deles ficariam famosos em grupos dos anos 1980, como é o caso de Marcelo Sussekind (Herva Doce), Serginho Herval (Roupa Nova) e o próprio Arnaldo Brandão (Hanoi Hanoi).

Mesmo sem ter conseguido um grande sucesso comercial, Um Passo à Frente é um trabalho que vale a pena ser conferido.

Sá, Rodrix & Guarabyra — Terra

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Terra é uma sequência natural do som desenvolvido no primeiro álbum do trio. O humor continua presente em músicas como Os Anos 60 e o estilo permanece o inabalável rock rural, alternando momentos mais agitados e belas baladas acústicas.

Em comparação com o primeiro trabalho, é nítida a presença maior de ecos do rock progressivo, principalmente pelo uso de órgão e teclados em destaque na maioria das faixas.

Infelizmente, este foi o último trabalho do trio antes da reunião nos anos 2000. É curioso o fato da última música chamar-se Até Mais Ver, já que Zé Rodrix sairia do grupo ainda em 1973.

Destaques: Mestre Jonas, Adiante e O Pó da Estrada.

Light Reflections — One Way

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O Light Reflections foi um grupo criado em 1972 pelos integrantes do Tobruk, investindo em uma sonoridade bem mais pop. Ainda que hoje não seja um nome dos mais lembrados, eles conseguiram bastante projeção na época, tendo, inclusive, feito turnê pela América Latina.

Se com a alcunha anterior a banda tinha uma sonoridade voltada para o rock clássico, aqui a coisa ficou bem mais acessível. As músicas são mais simples e comerciais, com uma grande quantidade de baladas.

Este disco contém o maior sucesso do grupo, Tell Me Once Again. A música, lançada como single, catapultou a vendagem do disco e se tornou uma das mais icônicas canções de amor da década. O mais curioso, entretanto, é que ela seria sucesso novamente nos anos 1980, por conta de uma versão bem-humorada feita por Leo Jaime e que explodiria na voz de Ney Matogrosso: Calúnias (Telma Eu Não Sou Gay).

Destaques: Lucky, Understand e Tell Me Once Again.

Matuskela — Matuskela

Imagem: https://www.discogs.com/

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A cidade de Brasília tem um capítulo especial na história do rock nacional. Nos anos 1980, saíram de lá nomes como Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. O que nem todo mundo sabe é que muitos anos antes uma banda já fazia barulho (e sucesso) por lá.

O Matuskela começou na capital do país em 1966 e durou até 1980, contando com Anapolino (Lino), Toninho Terra, Joãozinho, Rodolfo, Machado e Onildo em sua formação.

O som do grupo é frequentemente descrito como folk psicodélico, mas em seu único LP podemos encontrar momentos pesados em faixas como Canto e Viver Mama. Na época do lançamento, a música Idade do Louco (Velho Demais) foi incluída na trilha sonora da novela Sem Lenço, Sem Documento, fazendo com que o sucesso do grupo ultrapassasse as fronteiras regionais.

Mesmo estando inativo há tanto tempo, o interesse pelo Matuskela se reacendeu devido ao projeto Matuskela Vive, cujo documentário pode ser visto gratuitamente no *YouTube*, e por conta do relançamento de seu álbum em 2022.

O nome insólito do conjunto tem uma origem ainda mais curiosa, explicada no documentário.

Destaques: Idade do Louco (Velho Demais), Viver Mama e Atrás da Cortina.

Os Mutantes — O “A” e o “Z”

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Após a saída de Rita Lee, os Mutantes mergulharam de vez no rock progressivo. Influenciados pelo Yes, ELP e Mahavishnu Orchestra, o grupo gravou um álbum totalmente sem edições e sob o efeito de LSD, que só viria à luz em 1992.

O “A” e o “Z” foi tão disruptivo que, além de ter sido engavetado pela Phonogram por não ser considerado comercialmente viável, custou a demissão do grupo da gravadora.

O disco, de fato, é bastante complexo. Todas as músicas ultrapassam a barreira dos seis minutos e têm como foco longas e elaboradas passagens instrumentais. Em termos de performance, a banda atinge o ápice técnico aqui.

Mesmo tendo sido tardiamente entregue ao público, O “A” e o “Z” merece ser ouvido com carinho, pois é uma obra grandiosa do rock progressivo.

Destaques: O “A” e o “Z”, Hey Joe e Ainda Vou Transar Com Você.

Até a próxima, com os álbuns de 1974!


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