Diário de memórias — A revolução da música digital
O ano é 1997. O inquieto jovem Justin Frankel meses após abandonar a faculdade de Ciências da Computação de Utah lança a versão…
Diário de Memórias — A revolução da música digital
O ano é 1997. O inquieto jovem Justin Frankel meses após abandonar a faculdade de Ciências da Computação de Utah lança a versão embrionária do que viria a ser um dos marcos da revolução da música digital, o tocador de músicas Winamp.
Antes de avançarmos na nossa epopeia voltemos brevemente no tempo. Mais precisamente quando o homem moderno tinha recém dominado o fogo e descido das árvores, exatamente na época que os computadores só emitiam “beep”. Por mais estranho que pareça, o único som dos primeiros computadores eram os das teclas sendo digitadas. É com a introdução do padrão IBM PC (1981) que surge o PC Speaker, um pequeno alto falante piezoelétrico que ao receber tensão elétrica gera uma resposta auditiva que de modo rudimentar torna-se o primeiro padrão de som na plataforma PC. O uso inicial? sinalizar que o processo de boot foi concluído ou indicar algum tipo de erro grave no sistema.
Acontece que os programadores de jogos, sim esses seres malditos e detestáveis, logo entenderam que usando o timing e tensão corretas com precisos controles de repetição, bem… você poderia extrair do PC Speaker algo próximo de um efeito sonoro ou trilha.
[embed]Toda flexibilidade do PC Speaker em Alley The Cat (1984)
O próximo grande salto foi a introdução das placas de som. Essas placas especializadas possuíam múltiplos canais, efeitos nativos e chips dedicados com sintetizadores MIDIs (um padrão da indústria musical que contém um banco de sons de notas e percussões de diversos instrumentos) sendo assim capazes de ler uma “partitura” (arquivo .mid) e reproduzir uma música. O pulo do gato (parafraseando o Alley The Cat acima) é que como esses arquivos não contém os áudios em si, mas as instruções de como tocar as notas do banco de sons, o resultado é algo aceitável e com tamanhos de arquivos ínfimos.
E mais uma vez usando jogos como a ferramenta para paralelos, ouçam a densidade dessa trilha do melhor jogo de RPG de todos os tempos.
[embed]A poderosíssima placa de som Roland MT-32 em ação no Ultima VII (1992)
Outro benefício legal e indireto era que os PCs com essas placas de som eram capazes de tocar arquivos .kar, os quais literalmente são arquivos MIDI com as letras das músicas embutidas, e num passe de mágica você tinha um conjunto completo de Karaoke em mãos sem depender do aparelho dedicado que cobrava horrores nos tais “cartuchos” de músicas adicionais.
Se você conhece esse logo, você é velho e conheceu os aparelhos de Karaokê
Pequeno parênteses nesse momento para a coqueluche dos Kits Multimídia. Naquele tempo (releia essas palavras com a voz do Cid Moreira e pausas dramáticas dignas de versos bíblicos) as “placas de som” eram um artigo de nicho e focado no mercado de músicos e gamers, e assim vendiam-se os tais kits compostos por: tocador de CD, placa de som e caixinhas de som. Comprando um Kit Multimídia você migrava seu i486 datado e capaz de produzir “sons” PC Speaker em um computador digno dos anos 1990 e pronto para desbravar os novos jogos em CD com sons digitais e atuações de vozes.
[embed]Os PCs ganham vozes — trailer the Day of the Tentacle (1993)
Em algum momento do tempo, as funcionalidades dessas placas externas e opcionais baratearam a um ponto que hoje são embutidas em todas placas-mãe sem exceção, tal qual a placa de rede ethernet.
Aproveitando o gancho dos CDs, essa mídia hoje ultrapassada popularizou o padrão de áudio digital e apesar de desde de sempre ter sido possível extrair faixas dos CDs de áudio para arquivos no PC (o termo no caso é “ripping”) ela tinha um GRANDE problema, justamente a grandeza em espaço do disco. Arquivos .WAV ocupam algo em torno de 1Mb/minuto.
Lembram da saga dos disquetes mencionados aqui. Isso significava que mesmo com sua super Sound Blaster AWE 32 em 1995 você precisaria de múltiplos disquetes para gravar 1 única música! Atenção: gravadores de CD ainda não eram uma realidade comercial massificada. O que tornava caro e nada prático compartilhar músicas através de disquetes ou da proto-internet comercial na época que praticamente transferia dados por camelos.
Technology bitch!
Eis aqui que a revolução acontece. Na longínqua Munique, aquela cidadela que além de maravilhosos biergartens tem o costume de fabricar alguns dos melhores carros de luxo do mundo, o instituto Fraunhofer brinda o mundo com o formato de arquivo que muda tudo. O Mp3 é um formato de compressão de áudio que reduz o tamanho ocupado pelo arquivo à aproximadamente 1/10 de um arquivo WAV original usando como principal estratégia eliminar as frequências muito baixas ou muito altas que são inaudíveis ao ouvido humano. Obviamente isso implica que você não terá cachorros audiófilos adoradores de vinil e fãs de Mp3.
Apesar da tecnologia ter sido desenvolvida em 1991, os alemães pelo visto ficaram um bom tempo tentando vender patentes ou firmar parcerias com as grandes corporações da indústria da música pois só em 1994–95 eles passaram a vender o codificador e o software player de Mp3 para clientes finais, e a coisa não engrenou visto que o preço era salgado para o cidadão médio da época.
Agora que o link para o começo do artigo está devidamente preparado, chegamos em 1997. Criado por Justin e seu colega de universidade, Dmitry Boldyrev, o Winamp foi o primeiro software player de Mp3 gratuito do mundo. As versões futuras passaram por um período shareware e ficariam muito famosas por permitir plugins de efeitos sonoros e visualizações psicodélicas, além de ser o primeiro software com o conceito de skins ou temas que eu me recordo.
A interface clássica da versão 2.x do Winamp. Bônus para o clássico som de abertura.
A outra perna da equação de independência do instituto Fraunhofer foi o lançamento em 1998 do LAME por Mike Cheng, um codificador open-source compatível com o formato proprietário Mp3. Com isso, os nerds sebosos das universidades passaram a ter como extrair suas músicas em um formato que facilitava o compartilhamento e podiam também junto ao Winamp tocá-las nos seus computadores de dormitório. Muitas vezes aproveitando da intranet e dos servidores das próprias universidades começaram então a compartilhar entre si suas coleções de músicas, abolindo totalmente a necessidade de compra de CDs individuais.
Em algum momento essa farra escala e transborda para internet comum, e do dia para noite uma avalanche de sites/blogs/FTPs começam a aparecer dedicados ao compartilhamento de Mp3. Só que esses sites muitas vezes eram lentos e instáveis, dependiam de pessoas subindo e mantendo os arquivos neles, provavelmente foram os pioneiros de propagandas em pop-ups e por fim geravam mais raiva do que benesses. O jogo muda com a entrada do Napster em cena. Criado por Shawn Fanning, Sean Parker (aquele que também é culpado em partes pelo Facebook atual) e Hugo Sáez Contreras o aplicativo focado no compartilhamento de Mp3 introduziu o conceito de rede P2P (ponto-a-ponto), ou seja, ao invés de baixarmos arquivos de servidores, sua máquina baixava diretamente de outro usuário dentro da rede, e a partir daquele momento, aquela mesma música poderia ser compartilhada da sua máquina para um terceiro e assim sucessivamente. Na prática, não existia mais a dependência dos servidores instáveis. Cada um podia alimentar sua coleção na sua máquina e dali compartilhá-la diretamente com o mundo. Passou a ser possível baixar um disco obscuro de salsa porto-riquenha dos anos 50 que só foi lançado em San Juan pois agora existia um usuário lá que compartilhava sua coleção privada na rede. Era a queda de todas as barreiras e do acesso universal à música, foi um período de paz e alegria.
Quem não gostou nada dessa história e provavelmente já sentindo algum impacto financeiro na venda de discos foi a RIAA (associação das gravadoras dos EUA). E então entraram em jogo com seu exército de advogados e publicitários, atacando exatamente em dois fronts:
- processos à pessoas físicas, derrubada de servidores, multas à provedores de internet e bloqueio de sites de busca e indexação de Mp3;
- propaganda massiva sobre a criminalização do compartilhamento de arquivos, incluindo propagandas que comparavam o ato de compartilhar música com assalto a mão armada;
E nesse entrave legal o Napster foi retirado do ar em 2001. Aqui vale a explicação: apesar da transferência entre arquivos ser feita entre os nós da rede, toda parte de autenticação, busca e listagem das músicas eram feitas por um servidor central da aplicação, e desse modo passíveis de serem submetidos às leis que vigoravam no país onde esse servidor estava localizado.
É aí que a genialidade de Justin Frankel ataca novamente e essa é a razão do seu nome abrir o artigo dado o seu impacto para a indústria musical e da informática em geral. Justin tinha vendido recentemente a Nullsoft (nome da sua empresa que entre outros softwares desenvolvia o Winamp) para a AOL por vários milhões de dólares em 1999 e, já farejando o rebuliço que viria a ser o fim do Napster, ele junto com outro colega de faculdade Tom Pepper, também funcionário da Nullsoft, desenvolveram o protocolo e software Gnutella em 2000. O nome do software revela dois vieses importantes do mesmo: trata-se de um software open-source e gratuito (acrônimo GNU) + o amor de ambos pela pasta de avelã com chocolate favorita dos mergulhadores de banheira brasileiros. A sacada aqui é que o Gnutella tinha 3 grandes avanços frente ao Napster: compartilhava qualquer tipo de arquivo, era open-source e corrigia o calcanhar de Aquiles do Napster, ele era 100% descentralizado. Cada nó que entrava na rede Gnutella participava também da parte administrativa da rede como reconhecer outros pares, listar arquivos, fazer buscas, etc. É chocante pois esse conceito de rede descentralizada é a base do BitTorrent, do Blockchain e consequentemente NFTs e crypto moedas. Apesar de talvez o nome não ser tão reconhecido até mesmo por pessoas que viveram essa época, o protocolo Gnutella era o que rodava por trás de clientes como BearShare, LimeWire, Morpheus e Shareaza. E redes que dependiam de servidores centralizados como o Kazaa continuaram a cair com o passar do tempo (aliás o Kazaa tinha como protocolo base o FastTrack que depois de ser usado para partilhar arquivos foi modificado para permitir videochamadas se tornando o produto que conhecemos como Skype). Obviamente que a AOL não gostou nem um pouco do projeto Gnutella e tirou ele dos servidores da Nullsoft no dia seguinte da publicação, acontece que por ser open-source o estrago já estava feito e era irreparável. Esse conflito de interesses provavelmente foi o pontapé que levou Justin a abandonar a Nullsoft algum tempo depois.
Como uma rede descentralizada é virtualmente impossível de ser derrubada, o jogo só muda mais uma vez quando a indústria percebe que para o cliente final ficar com o PC ligado e consumindo banda e espaço em disco, suscetível a baixar vírus e refém de downloads lentos, são dores de cabeça que não valem a pena se existe um serviço legal no qual você paga um preço justo para ter acesso ilimitado aos grandes catálogos de música de forma segura e rápida. E hoje pagando o preço de 1 CD por mês temos toda uma enxurrada de serviços de streaming de música. “Justo” talvez não seja a palavra correta sob a ótica dos artistas que recebem migalhas por cada milhar de música tocada mas a máxima ainda vale de que artista ganha grana fazendo show, o resto é promoção e penetração da sua arte para crescimento de público. A lição é que a grana só passou da mão das gravadoras para a mão de meia dúzia de nerds sebosos que saíram daqueles mesmos dormitórios de universidades e hoje são donos ou heads das empresas de streaming.
Pequeno adendo aqui para dois artistas contra-pontos desse nascimento da revolução da música digital.
- Se hoje o Metallica é uma banda descolada que lança todos seus shows no canal oficial do YouTube, na fase Load/Reload logo após cortarem os cabelos os caras fizeram um baita escarcéu por causa do Napster, incluindo processos a fãs e bate boca em programas de TV;
- O sexto disco do Offspring, Conspiracy of One, era planejado para ser distribuído gratuitamente em Mp3 no site da banda, eis que a gravadora deles corta essas asinhas e proíbe que eles prossigam com essa ideia comunista. Curiosamente, semanas antes do lançamento oficial do disco surgem vazamentos na internet com as músicas na íntegra em total qualidade.
Prováveis tópicos relacionados: MiniDisc, MilkDrop visualizations, Rio MP3 Player
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- 2026-07-26 06:59:45