‘Nosso passado é fundado na escravidão, nosso presente permanece nele’
Essa e outras incontáveis e marcantes frases foram variavelmente escutadas durante toda a programação do III Novembro Negro do IFMG…
‘Nosso passado é fundado na escravidão, nosso presente permanece nele’
Essa e outras incontáveis e marcantes frases foram variavelmente escutadas durante toda a programação do III Novembro Negro do IFMG Ipatinga. O evento negro foi organizado pelo Coletivo Aya Sankofa, formado por secundaristas do campo.
Sendo aberta a toda a comunidade e tendo a participação de alunos e servidores do Instituto, o Novembro Negro foi uma grandiosidade de evento, trazendo discussões imprescindíveis sobre a causa Negra no Brasil. Marcante.
Ocorrido entre os dias 05 e 18 de novembro, a programação contou com exibição de filme, sarau, roda de Capoeira, rodas de conversa, sendo protagonizado por vários e importantes intelectuais negres.
Dentre a pluralidade de atividades do evento, acompanhamos a roda de conversa intitulada ‘Rap e Vivências Acadêmicas’, sendo coordenada por Danúbia Teixeira, Doutoranda em Lingüística pela UFMG, e Jorge Benedito, doutor em Estudos Literários pela UFMG, ambos integrantes do Centro de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas da Faculdade Única (CEABI).

Danúbia Teixeira e Jorge Benedito na Roda de conversa: Racionais, Rap e vivências (2022). Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço.

Secundaristas participam da Roda de conversa: Racionais, Rap e vivências (2022). Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço.
Na ocasião da roda de conversa, foi debatido, a partir da obra dos Racionais Mc’s, como conversar e se organizar com a periferia sobre as mazelas sociais que a aflige de maneira direta, e como o rap realiza o papel de denunciador, bem como fomentador das potências que estão dentro destes espaços. As músicas do maior grupo Rap do Brasil, que estouraram sem um grande projeto publicitário por trás, demonstram concretamente isto. ‘‘O rap se torna produto de consumo quando perde sua capacidade de contestação’’, concluiu um dos participantes da mesa, enfatizando o que acontece com o movimento quando este se despe do ideal social e se dispõe soberbamente ao capital.

Durante a roda de conversa, Jorge Benedito indicou as pessoas da roda o álbum ‘Holocausto Urbano’, dos Racionais Mc’s. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço (2022).

Jorge Benedito destacou a importância de se levar à comunidade, a periferia tudo que se discutia no evento. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço (2022).
Já no dia 18 de novembro, ocorreu a Roda de conversa ‘Consciência negra como passado, presente e futuro do Brasil’. A programação contou como integrante principal o intelectual negro Deivide Ribeiro, doutorando em Direito pela UFMG e host do Podcast ‘’Mas e se?’’. Deivide fez uma explanação sob o âmbito jurídico da causa negra no Brasil, expondo como o estado, institucionalmente, sempre impusera ao negro o seu projeto político de morte e de exclusão social. Como exemplo, o palestrante destacou a ausência de pessoas pretas dentro da Universidade em que estuda (UFMG). Chamada por alguns com muito orgulho de Vetusta, a Casa Afonso Pena — Faculdade de Direito da UFMG, que já possui 120 anos (1892), foi ter o primeiro evento de intelectuais negros somente em 2019, durante a banca de qualificação do de doutorado de Deivide, ocasião em que ele chamara Adilson Moreira e Silvio Almeida, este último ministro anunciado para o governo de Lula, para participação da banca. Deveriam ter vergonha em chamá-la de vetusta.

O intelectual negro Deivide Ribeiro conversa com os secundaristas na Roda de Conversa do III Novembro Negro do IFMG (2022). Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço.

Deivide Ribeiro destacou que representatividade não é tudo, e que ela deve vir acompanhada de consciência de classe e de gênero, sob o risco de cairmos no ‘Identitarismo’. Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço (2022).

Secundarista acompanha as programações do III Novembro Negro do IFMG (2022). Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço.
Finalizando, destaco que III Novembro Negro do IFMG foi extremamente potente: as falas, as discussões, as vivências ali expostas foi algo marcante e muito construtivo. É muito importante ver a pauta entrar nos mais variados espaços sociais, sobretudo os educativos. Todavia, destaca-se que ainda há muito que ser feito, muito, é preciso estar nas bases sempre. Como exemplo, o próprio campus do IFMG Ipatinga encontra-se em uma área periférica da cidade, denominada ‘Morro do Sossego’. Bom, será que as crianças da localidade sabem o que é o IF? Será que os adolescentes negros e pobres do bairro estão proporcionalmente inseridos neste ambiente? Será que há um projeto da instituição em inserir-se na periferia e mudar a realidade de vidas e famílias? É necessário estar em constante indagação, afinal, como canta Bezerra da Silva: A favela é um problema social! Eu Sou Favela.
Muito obrigado pelo III Novembro Negro, Coletivo Preto Aya Sankofa.
Marco Túlio Dias.
Coletivo Negro Vale do Aço — 29/12/2022.

Fotografia: Marco Túlio Dias — Comunicação Coletivo Negro Vale do Aço (2022).
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