O militante descansou até demais?
Provavelmente todo mundo já se deparou com a frase “descansa, militante!”
O militante descansou até demais?

Militância reunida na Praça da Estação, em Belo Horizonte, para assistir ao plenário entre deputados que decidiu o impeachment de Dilma Rousseff, em 31 de agosto de 2016 / Foto: Ana Brisa Reis
Provavelmente todo mundo já se deparou com a frase “descansa, militante!”. Quem escuta isso, por vezes em tom humorado ou em tom de desaprovação, no mínimo acabou de fazer alguma crítica social, defendeu alguma “minoria” ou algo do tipo. Eu mesma já me peguei brincando com isso logo depois de… bom, depois de militar numa conversa qualquer.
Antes de prosseguir, vou me apresentar, ainda que brevemente: sou filha de professora de português, mulher sempre presente nas lutas sindicais e filha de um jornalista e advogado, também a vida toda na ativa pela defesa dos direitos da classe trabalhadora. Os dois sempre estiveram envolvidos com política e em ambos os casos, não foi uma escolha. Não teria outro jeito de viver para eles, que se não, sendo militantes.
Como filho de peixe peixinho é, foi dessa forma que decidi viver também.
De volta ao “descansa, militante!”, frase que alugou um triplex na minha cabeça (desculpa a expressão pra lá de batida), fico me perguntando: será que o militante descansou até demais? Não bastasse refletir muito sobre isso (e me cobrar muito também), foi ouvindo o episódio “2016 a 2026 — Nostalgia na Era da Distopia”, do Calma Urgente — podcast apresentado por Alessandra Orofino, Bruno Torturra e Gregório Duvivier, que revisitei alguns momentos da história do Brasil que coincidem com minha adolescência e com o tema.
Nesse ep, os três discutem sobre essa onda nostálgica que tomou a internet agora no início de 2026. Nas redes sociais, vi aos montes fotos de 2016 em dumps dos meus amigos e de influenciadores. No TikTok e no Reels, do Instagram, assisti a tutoriais de maquiagem da época, os efeitos que usávamos nas fotos, vídeos engraçadinhos sobre como éramos há uma década e por aí vai. Ainda do meu ponto de vista, as pessoas na internet passam a impressão de sentir saudades desse tempo, como se tivesse sido um ano de mil maravilhas, quando os dias eram melhores, mais divertidos, quando nossas únicas preocupações eram… sei lá, o relacionamento do Justin Bieber ou se nossas fotos eram Tumblr o suficientes para serem postadas. De fato pode ter sido esse tipo de período para alguns, mas, certamente não para os militantes.
Concordo com Gregório, Bruno e Alessandra. Em 2016 tudo começou a dar errado. E para quem não ouviu esse episódio ainda, faço um convite para voltar ao tempo. Há dez anos, ocorreu a famosa votação pelo impeachment da então presidentA Dilma Rousseff. Sim, aquela em que Jair Bolsonaro, antes de votar, exaltou coronel Ustra — simplesmente o cara que torturou Dilma durante o período da Ditadura Militar. Foi a plenária em que escutamos dos deputados coisas do tipo “pela pátria, pela família e pelo Brasil, eu voto sim!”. Ah! Não menos importante, foi também a votação em que Jean Wyllys fez a boa cuspindo no Jair.
O placar marcou nada menos que 61 votos a favor do impeachment contra 20 contrários. Assim que o golpe se consolidou.
Lembro perfeitamente desse dia. Com meus 15 anos assisti a uma das cenas mais tristes que tinha vivido até então. Eu não estava sozinha. Estava na Praça da Estação, em Belo Horizonte, junto a minha mãe e com mais um tantão de militantes que, naquela época, recusavam-se a descansar. Assistimos em um telão, incrédulos, ao início do fim.
Lembro de ver as carinhas das pessoas tristes, lágrimas nos olhos e uma energia de… pavor. Clima de velório. Como se alguém tivesse morrido. E tinha mesmo. Não alguém, mas a democracia. Gosto muito da brincadeira feita pelo Bruno no Calma. Ele disse que foi aí que o Brasil ficou “grávido” do bebê de Rosemary, que viria a nascer alguns anos depois. Genial.
Ainda nessa época, antes de abrirem os portões do inferno, segundo retrospectiva feita pelo Brasil de Fato, BH reuniu cerca de 60 mil pessoas nas ruas contra o impeachment, ou melhor, contra o golpe. Fora as ocupações na Funarte, no Centro de Referência da Juventude e no Ministério da Saúde. Uma das maiores manifestações feitas na capital mineira, de acordo com o site. Em maio, movimentos populares montaram um acampamento na Praça da Liberdade. Rolaram manifestações, debates e até shows durante dez dias em defesa da democracia. Cerca de 20 mil cabeças participaram.
E teve também aquela PEC 55, da “Reforma do Ensino Médio”, lembram? Só em Minas Gerais, ainda segundo o Brasil de Fato, 195 escolas foram ocupadas. Foi bonito de ver! Estou citando esses casos para ilustrar como a militância estava viva e forte.
Eu não sei ao certo em qual momento os militantes resolveram “descansar”. Mas, com certeza, teve relação com a posse do vampirão, o traíra dos traíras, Michel Temer; com o Trump eleito nos Estados Unidos; a volta fortíssima da extrema direita; o bolsonarismo que encorajou seus seguidores a dizer até o indizível, acobertados pela “liberdade de expressão”.
Tudo isso, sem sombras de dúvidas, assustou e muito quem saía nas ruas a favor da democracia, direitos humanos e outras pautas que começaram a ser chamadas de “mimimi”. Ai, como eu ouvi isso! O medo e a repressão tomaram conta da pátria brasileira. Afinal, a coisa começou a ficar diferente. Não mais os coxinhas contra os pães com mortadela, não mais tucanos contra petistas. Não havia mais aquela disputa saudável entre partidos, comum nas democracias.
Me lembro das eleições de 2018. Haddad vs Bolsonaro. Estava em casa. Quando o resultado saiu, eu fiquei triste, mas… mais do que isso. Fiquei com medo.
Assim como tinha visto aquela multidão chorar na Praça da Estação em 16, durante a eleição do Bozo, com quase 18 anos e mais consciente “das coisas da vida”, foi minha vez de chorar em frente à TV. E o detalhe é que eu ainda nem sabia o que estava por vir — corta para a pandemia.
Foi um dia desesperador. Aliás, foram anos desesperadores.
De volta a 2016, vimos, de forma abrupta, conquistas serem desmanchadas. Estávamos, antes desse ano bizarro, caminhando para uma compreensão coletiva, por exemplo, de que chamar o coleguinha de “gay” não era xingamento. Estávamos engatinhando em relação à legalização do aborto e da maconha. Engatinhando. Mas, não se pode negar que existia progresso em relação a esses e outros assuntos urgentes. Havia esperança. Mas ela tinha acabado.
Querido leitor, quero que perceba que quando eu pergunto se o militante descansou até demais não é porque estou descredibilizando totalmente a militância (da esquerda, se ainda não ficou claro rs). Acredito ser o contexto e os acontecimentos da vida política os maiores culpados. Algoritmos, inteligência artificial, pandemia da Covid… etc, etc, etc.
Mas, falando em culpa, não dá para tirar de nós, militantes e ativistas da esquerda a responsabilidade de termos sucumbido. Eu me culpo por não ter mais aquela força de antes. Deixamos passar muita coisa que, me pergunto se a militância da esquerda teria deixado passar lá atrás. Volto a dizer: são muitos os motivos que nos enfraqueceram. A juventude de hoje não é a mesma de dez anos atrás. Muito menos somos semelhantes à juventude dos “caras pintadas”. Somos jovens que vivem mais nas telas do que fora delas e como bem diz Gregório, ainda quando estamos longe das redes, nas conversas cara a cara, elas seguem presentes. “Viu o que fulano postou?” ou “eu participei da trend tal e você?”.
E por que falo da juventude? Explico citando o texto “Caminhos para ‘desenvelhecer’ a esquerda”, de Henrique Canary, mestre em História e doutor em Literatura e Cultura Russa. Para Canary, toda corrente que se preze precisa valorizar e honrar as gerações mais velhas daquele grupo. Só que é a juventude, segundo o socialista, público imprescindível nas revoluções. “O futuro sempre pertenceu a eles (jovens) e sempre pertencerá. E eles moldarão esse futuro como bem entenderem”.
Concluo, que a militância precisa ser, majoritariamente jovem. Certo?
O Greg também conta que o Facebook, antes de se tornar Meta, estourado em 2016, tinha a opção de marcar eventos que aconteceriam na vida real. Os usuários podiam combinar entre si desde reuniões a manifestações e levantes, por exemplo. Hoje, o Instagram (e se não me engano todas as redes), não possuem nenhuma ferramenta que possibilita ao usuário “sair para o mundo real”, sequer para um navegador externo. É um sistema que quer mais é que o militante descanse mesmo.
Como poderíamos ser a mesma juventude militante dentro dessa nova e injusta realidade? Há de ser dito aqui que jovens da extrema direita já entenderam as engrenagens desse jogo e está bem ativa no digital. Mas como Canary fala (e eu assino embaixo), isso está começando a mudar. É assunto para outra hora.
Se você achou que o final deste texto teria uma vibe redação do Enem, com proposta de intervenção… se enganou. Eu não tenho respostas. A verdade é que não sei o que é possível fazer para que a militância da esquerda e, sobretudo, os jovens se unam, tomem as ruas (e a internet) e voltem com a esperança mobilizadora de antes de 2016.
Ó. Mas eu não vou terminar meu texto nesse baixo astral. Não mesmo! Não combina com a esquerda o pessimismo. Se por acaso você não é da militância, tampouco é de esquerda e está lendo este texto achando que vai ficar por isso mesmo, eu tenho uma péssima notícia para você e um lembrete para os companheiros que agora me leem.
Primeiramente, Bozo está preso na Papudinha! A extrema direita está sem rumo neste ano eleitoral (ouçam o episódio “Briguem mais que tá pouco”, também do Calma). Isso por si só já eleva o astral deste texto. O mundo não gira, ele capota, meus amigos!
E agora, me deem licença para citar Geraldo Vandré. “Os amores na mente. As flores no chão. A certeza na frente. A história na mão”. É isso. Contamos com a história em nosso favor e resistir é fio condutor de nossas almas. É o que quis dizer lá no início quando falei que não haveria outra forma de viver para os meus pais, exceto dentro da militância.
Ele disse antes que a esperança havia acabado, mas ela segue “dançando na corda bamba de sombrinha”, majestosa e equilibrista. Saem da linha de frente Vandré, Elis, Mujica, Brizola, Marighella, Olga Benário, Luís Carlos Prestes… mas entram em cena Djonga, Crioulo, FBC, Jones Manoel, Marília Campos, Moara Saboia, Adriana Souza, Duda Salabert… e por aí vai.
메타데이터
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